Espaço do Diário do Minho

César Mourão em Ponte de Lima

22 Set 2020
José Alexandre Barbosa

Passou há dias, na SIC, um episódio de Terra Nossa dedicado a Ponte de Lima. Na expectativa de ver como César Mourão iria tratar a mais antiga vila de Portugal, lá me sentei no sofá em frente da televisão!

Depois de uma introdução com imagens sempre encantadoras daquela vila, onde o rio Lima e a sua ponte românica se enquadram majestosamente com a vila ancestral, eis que começa a narrativa.

Tronco nu, farrapo na cabeça, calção de desporto, descalço, é assim que surge, altaneiro, o primeiro convidado de César Mourão, montado no seu cavalo branco, sem arreios, qual Napoleão dos tempos modernos, a conquistar as senhoras que queiram casar com um agricultor. Da conversa, quer na casa do convidado quer, depois, no Teatro Diogo Bernardes, nada de diferente surgiu, antes pelo contrário, um reforço bem vincado do carácter do personagem!

O segundo convidado é um empresário da restauração que é também pároco em Arcos de Valdevez, mas isso é de menos importante porque do que gosta mesmo é de Ponte de Lima (com quem partilha o nome)… e de Cabo Verde, onde costuma ir com um casal amigo mais a sua empregada, que é o seu braço direito.

Segue-se outra empresária da restauração, mas esta de condimentos mais apimentados, cujo cardápio da casa é composto por um léxico tão apurado quanto a brejeirice mais requintada possa imaginar. E de ajudante na cozinha, tem a dita empresária a sua nora (ou futura nora), detentora de umas unhas de fazer inveja a qualquer um dos maiores felinos, com as quais consegue fazer tudo, mesmo tudo…

E eis que de repente, alguém tem de ir “mijar”, “agora a sério, tenho mesmo de ir mijar”…

Terra de poetas, não podia deixar de estar presente a poesia, agora, na arte de uma senhora, a quem a rima não saiu muito atinada, mas que acerta melhor a tocar bombo.

Aliviado das suas necessidades fisiológicas, surge o “Fofinho”, próximo interveniente, dono da “Pizzaria do Fofinho” e a quem, há uns anos, lhe coube um pouco de sorte, que a gastou toda em carros!!!

E assim, com estas intervenções e mais algumas que se seguiram, foi possível “criar” uma nova imagem de Ponte de Lima, atual, popular, brejeira, parola, descomplexada, tão diferente da “cinzenta” e seleta, altiva, nobre, ancestral, romântica, culta e digna identidade que tantos como António Feijó, Norton de Matos, Cardeal Saraiva, Conde d’Aurora ou Conde de Bertiandos, ao longo dos séculos foram construindo.

Felizmente há, ainda hoje, muitos limianos que continuam a dignificar a sua terra pelos méritos extraordinários de que são capazes. Da arqueologia à medicina, do desporto às letras, da cultura à economia, são muitos os que, com a sua intervenção, fazem com que Ponte de Lima continue hoje altiva e invicta na sua magnificência.

Este episódio repetiu-se em Guimarães, Aveiro e outras localidades, onde Cesar Mourão procura dar voz a uma ala da sociedade que, espero, não seja em nada representativa da sociedade portuguesa. Estou certo de que este entretenimento não passa de uma luta de audiências na procura do programa mais ordinário, mais brejeiro, mais baixo e mais reles que assegure o mais elevado índice do score televisivo.

Eventualmente, um programa do mesmo género, mas onde os convidados seriam os investigadores fantásticos que elevam o nome de Portugal ao topo do mundo científico, os banqueiros e CEOs que encabeçam os maiores bancos e empresas do mundo ou os sacerdotes que preparam as meditações para o Santo Padre, poderia ajudar na elevação da auto-estima de algum povo português que, assim, compreenderia que a educação, a cultura, o saber estar, a inteligência ou o modo de estar não é exclusivo de alguns mas sim um direito de todos.

Este desafio fica aqui lançado aos diretores da SIC, TVI ou CMTV. Caso continuem na mesma linha, resta-me a esperança que o do canal público aproveite a ideia e assim, comece a ganhar audiências aos canais atrás referidos!!!



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