Espaço do Diário do Minho

Inversões éticas

16 Set 2020
Maria Susana Mexia

Em muitos meios profissionais, familiares e académicos é altamente desaconselhável empregar os termos “valores”, “ética” ou “moral”. Provocam grandes alergias, desencadeiam conflitos e, por vezes, até são estigmatizantes…

Opta-se, então, pelo mais fácil, mais cómodo, menos comprometedor, omitem-se estes incomodativos vocábulos. Em muitos ambientes até já são considerados démodé e são substituídos por relativismos superficiais, malabarismos argumentativos com interpretações muito contestáveis na essência da ética filosófica, quer kantiana quer utilitarista.

Enlatados pelo relativismo do tempo, perdemos a dimensão superior, ficamos sem horizontes mais altos e sem asas para podermos voar. Reduzidos ao estado de mediocridade, não conseguimos permanecer muito tempo aqui, pelo que, facilmente, a humanidade se bestializa, perde a audácia que a elevaria à escala da superioridade humana, fica disponível para ser usado e abusado como coisa e abdica do exercício da inteligência, da dignidade e da liberdade.

Só a (re)valorização do homo sapiens ethicus permitirá garantir a nossa humanidade, não interessa tanto o saber ou o saber fazer, mas sim o saber aplicar o conhecimento no sentido do bem para a humanidade, desenvolvendo capacidades superiores, usando uma liberdade inteligente ao serviço do equilíbrio pessoal e social, o qual se converterá numa fabulosa harmonia de crescimento, enaltecimento e grandeza da nossa espécie.

A condição humana empobreceu, tornou-se frágil e abandonou-se nas mãos dos que, em nome duma falsa liberdade, esquecem ou ignoram a sua responsabilidade deontológica.

Esta não é uma criação das religiões, uma variante filosófica ou moralista mas, simplesmente, um conjunto de princípios elaborados pelo ideal humano de se querer fazer mais homem, mais competente, mais perfeito, mais humano, tendo em conta a dignidade da Pessoa, em todas as circunstâncias, nomeadamente, nos momentos de maior fragilidade física e psíquica, nas crianças, nos adultos, nos idosos e nos mais desfavorecidos, quer na doença, quer na saúde.

Todos os anos os finalistas de Medicina têm uma solene sessão na qual é lido o Juramento de Hipócrates e ao qual todos se vinculam, na presença das entidades superiores responsáveis pela medicina, dos seus familiares e amigos.

Em alguns casos esta promessa é efémera, ou tão pouco foi interiorizada e com celeridade a infringem, ignoram, atropelam, sob capa de falsos legalismos, distorcidos argumentos, aparente atitude de compreensão, mas traiçoeiras.

Os valores estão para além do homem e neles nada há de neutro: ou é bem ou é mal, não há meios-termos, assim-assim, como se fossem uma peça de roupa que se modela ao corpo, à ocasião, ao momento ou às circunstâncias.

Matar é matar, mandar matar é matar, permitir ou instigar a que outros o façam é, também, matar. Abusar do alheio, apropriar-se do que não deve para benefício próprio é roubar, deixar roubar ou pactuar com quem o faz, é roubar, não recorramos a termos paliativos, híbridos e perversos para confundir ou aliviar a culpabilidade.

É imperioso e urgente que a formação do caracter, da cidadania e duma segura educação no sentido em que divinizar o humano seja aplicada a todos os cursos, inferiores ou superiores. Conhecer o bem, ter a liberdade e a inteligência de optar por ele é o caminho mais seguro para não acabar mal.

Superar a lei da selva, deixar de ser o lobo para o homem, abrir os olhos para ver, saber ver e lutar, refrear consequências, estar alerta e alertar, substituir a tibieza pela audácia e, sobretudo, não ignorar que a ciência e a política sem ética são diabólicas.



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