Espaço do Diário do Minho

Pandemia: um “ralhete” a Deus que saiu gorado

12 Set 2020
P. Rui Rosas

Toda a nossa sociedade vive um momento de insegurança. Não sabemos bem como havemos de nos comportar, perante aquilo que nos espera num futuro próximo, ameaçado como está por uma epidemia que não nos larga, apesar das medidas de precaução que as autoridades sanitárias tomaram há alguns meses. E tememos, por um lado, que cheguem dias piores, embora haja também quem continue a dizer que é preciso, de facto, estar de sobreaviso, sem, no entanto, (“nem oito nem oitenta!”), sermos exagerados – como, aliás, assim fomos, ou até mesmo histéricos – com tantas precauções que nada resolveram e deram cabo da vida económica e escolar do país.

Estas pessoas consideram que agimos pelo medo e, como medrosos, deixámos de fazer o que devíamos: trabalhar como sempre e estudar com cuidado as matérias próprias dos programas escolares. Inutilmente, acrescentam, confinamos-nos em casa, olhando uns para os outros, irritando-nos com facilidade e ligeireza, enfim, reagindo como quem está numa prisão inoportuna e quase invisível materialmente, mas sempre hesitando no que devíamos fazer, já que o tempo, que parecia mais vagaroso do que nunca, sobrava e, mais do que isso, “chateava”! Não sei quem tem mais razão: se os super-previdentes ou se os partidários da normalidade, pese embora as recomendações de prudência que aconselhavam.

É uma situação que espevita em cada um o seu modo de ser habitual. Há quem sofra o indizível com o receio de que a elasticidade deste vírus decrete uma doença que não volta atrás e pode causar a morte e, quem, com o optimismo característico, afirme que o que é necessário é não dar demasiada importância e prosseguir a fazer o que se deve sem sobressaltos inúteis.

Para um cristão, o Covid-19 representa um lamiré divino, que S. Paulo nos salienta, quando diz, numa das suas epístolas, “Ninguém é tentado acima das suas próprias forças” (1 Cor 10, 13). Deus, infinitamente misericordioso, que nos criou para um tipo de felicidade que não podemos abarcar na sua totalidade – o Céu – não é, certamente, o autor directo do vírus maçador, embora o possa aproveitar para nos fazer ver através dele, de modo inquestionável, que pensar em paraísos terrenos é, além de uma utopia, um disparate fabricado pela nossa imaginação arrogante, quando lançada a sonhos irrealizáveis. Uma grande santa, santa Teresa de Ávila, chamava-lhe a “Louca da casa”, sempre que ela germinava situações de sonho fácil e agradável, ou, embora talvez com incidência menos frequente, criava panoramas de pavor e de desespero irreais nos seus clássicos exageros.

A respeito destes tempos, telefonou-me um velho amigo, que me quis contar uma história recente da sua vida. Boa pessoa, teve, como tantos de nós, uma formação cristã no seu berço. Chegada a fase adulta, depois de uma adolescência algo efervescente, dia após dia, foi-se esquecendo de Deus e do que tinha aprendido de seus pais. Enfim, 40 anos passados e entregues a si mesmo e aos seus preconceitos, a pandemia não lhe suscitou qualquer abanão na consciência. Achava que era necessário ter mais cuidado com as investigações científicas, a fim de não se dar origem a vírus malfazejos, que tantas feridas causavam na sociedade. E insurgiu-se contra os investigadores descuidados, que tinham deixado vir cá para fora o que nunca devia ter saído dos laboratórios de pesquisa. No entanto, a pouco e pouco, as pragas das infecções e das mortes sucessivas, aqui, em Portugal e noutros países mais desenvolvidos, fê-lo pensar que, afinal, se existisse um Deus infinitamente bom, nada disto sucederia…

Há dias, pelos vistos, passou, em horas calmas, por uma igreja aberta. E resolveu-se a dar um “ralhete” a esse Deus que deixava que “acontecessem estas coisas” absolutamente inadmissíveis. Para tanto, entrou. Não viu ninguém, nem sequer uma “beata” crónica a rezar o terço. Pensou que estava sozinho. Ao fundo, ao lado do altar do Santíssimo, cintilava a lamparina habitual. Sentiu-se inquieto. Procurava ganhar forças para o “ralhete”, mas cada vez se sentia menos capaz. De repente, ouviu um pequeno barulho saído do seu lado esquerdo. Era um padre que ia abandonar o confessionário. Espontaneamente, saiu-lhe do seu íntimo um pedido: “Posso-me confessar?” O sacerdote disse-lhe que sim, embora terminasse agora o seu tempo de atendimento. Mas que viesse então.

O meu amigo recebeu o sacramento da penitência. Não deu nenhum “ralhete” a Deus. Pelo contrário, deitou cá para fora – como me dizia – toda a porcaria que tinha feito durante os seus quarenta anos de vida adulta. Ficou calmo e agradecido, compreendendo que muito dos argumentos que orientaram a sua conduta eram fruto do seu orgulho. De Deus, a quem temia, não recebeu “ralhetes”, mas a paz que há muito, muito tempo, não sentia fervilhar na sua consciência. Ficámos de falar sobre este assunto com mais calma. E dei-lhe os parabéns.



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