Espaço do Diário do Minho

Caminhando sobre gelo muito fino

12 Set 2020
Fernando Viana

A humanidade encontra-se numa encruzilhada neste preciso instante. Após a eclosão da pandemia da Covid-19, o mundo nunca mais foi o mesmo. O processo de globalização das sociedades e das economias travou a fundo.

O decretar do estado de emergência em muitos países levou, em março último, os países a fecharem-se sobre si próprios, encerrando fronteiras e decretando pesadas medidas de confinamento e distanciamento social. As viagens aéreas e os transportes públicos quase pararam por completo durante três meses. Muitas empresas suspenderam a atividade. Hotéis, restaurantes, serviços públicos e comércio fecharam as portas e descobriu-se o teletrabalho. De repente, milhões de pessoas descobriram que era possível executar muitas das tarefas laborais do quotidiano, a partir de um computador e de um telefone em casa. As videoconferências e as videochamadas tornaram-se extremamente populares. Apareceram aplicações como o “Skype” e o “Houseparty” que permitem o encadeamento de videochamadas entre várias pessoas em simultâneo. Ferramentas informáticas como o “Zoom”, “Webex” ou “Microsoft Teams”, são hoje utilizadas de forma corriqueira por milhões de pessoas. Afinal não é preciso ir a Lisboa para participar uma reunião: reúne-se via “Zoom”.

Houve inclusive alguns benefícios, designadamente em termos ambientais, com as emissões de gases poluentes para a atmosfera a terem uma redução significativa. Também o consumo e a despesa das famílias diminuíram, contribuindo para o aumento da taxa de poupança das famílias.

Contudo, a situação económica e financeira do país é extremamente preocupante. Apesar da União Europeia (UE) ter conseguido aprovar um pacote de apoio aos Estados-membros no valor de 700 mil milhões de euros através do Fundo de Recuperação da EU, os contribuintes portugueses vão ser chamados de forma dolorosa a suportar o défice das finanças públicas e toda a dívida criada.

É por isso que assistimos atónitos muitos líderes políticos a pedirem ao Estado para contratar mais funcionários, ou para financiar um subsídio extraordinário de solidariedade que custaria a módica quantia de 800 milhões de euros por ano. O Estado somos nós. Os contribuintes é que suportarão tudo, e não essa entidade abstrata e supostamente longínqua que dá pelo nome de Estado.

Os números mundiais da pandemia são já significativos: perto de 28 milhões de infetados e um milhão de mortos. Na Europa foram registados até ao momento, 3,2 milhões de infetados e cerca de 200.000 mortos. Já o nosso país registou 62.126 casos conformados de Covid-19 e 1.852 mortos.

Entretanto, a grande esperança do mundo repousa na descoberta de uma vacina. Existem mais de 3 dezenas de vacinas a serem desenvolvidas por esse mundo fora, mas não se pense que é coisa de dias, semanas ou meses. Neste preciso instante em que escrevo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) veio declarar através da sua cientista chefe, Soumia Swaminathan que “muitos pensam que no início do ano que vem chegará uma panaceia que resolverá tudo, mas não será assim: é um longo processo de avaliação, licenciamento, produção e distribuição”. O processo de vacinação será sempre extremamente complexo e demorará anos até que se consiga vacinar a população de forma adequada.

Ninguém sabe muito bem dizer o ponto da situação em termos de evolução da pandemia. Estamos no fim da primeira vaga da doença? Vai haver uma segunda vaga? Já estamos na segunda vaga? Mas o que é isso de segunda vaga?

Há quem, como Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular (IMM) defenda que o conceito de segunda fase não existe: “é uma muleta que nos ajuda a expressar a ideia de que, nas doenças infectocontagiosas, há uma fase de grande expansão, depois há uma retração e pode haver uma nova expansão. A essa nova expansão chamamos segunda vaga”.

Uma coisa é certa: entre março e maio, graças às medidas adotadas durante o estado de emergência e contingência, a epidemia foi controlada e os números baixaram significativamente. Contudo, mais recentemente, graças ao relaxamento social, a doença sofreu um incremento significativo. Com o regresso às aulas e a aproximação do inverno, tratando-se de um vírus respiratório que não desapareceu, é quase certo que os tempos que se avizinham são preocupantes. Com a agravante de o país não poder parar novamente, como já veio afirmar o primeiro-ministro.

Vai depender muito de cada um de nós, do cuidado que tiver consigo e com os outros, conseguir controlar a doença em níveis aceitáveis, já que a vacina ou um tratamento 100% eficaz não surgirá tão cedo.

Proteja-se a si e aos que o rodeiam. Exija que os outros façam o mesmo.



Mais de Fernando Viana

Fernando Viana - 26 Set 2020

O conflito de gerações não é certamente de hoje. As gerações mais velhas, olham para os mais jovens e, invariavelmente, depositam poucas esperanças nas qualidades dos mais novos. Muitos se lembram ainda de, em 1994, Vicente Jorge Silva, falecido muito recentemente, então diretor do jornal Público, num editorial daquele jornal, ter apelidado de “geração rasca” […]

Fernando Viana - 19 Set 2020

Os Tribunais arbitrais de consumo (TAC) surgem no nosso país como as instituições ideais, porque especialmente vocacionadas, para a resolução de conflitos entre consumidores ( eu ou o leitor por exemplo) e os profissionais que vendem bens ou prestam serviços. Um dos conflitos que chega com mais frequência junto destes TAC é o que resulta […]

Fernando Viana - 8 Set 2020

O Livro de Reclamações (LR) constitui um importante instrumento de defesa dos direitos dos consumidores no âmbito do fornecimento de bens e da prestação de serviço. Tendo uma utilização muito restrita até 2005 (confinada à hotelaria, restauração e turismo), a partir daquele ano procedeu-se à generalização da obrigatoriedade da sua existência e disponibilização pela esmagadora […]


Scroll Up