Espaço do Diário do Minho

A magia da mão

1 Set 2020
Maria Susana Mexia

A mão parece a extremidade vulgar dos membros superiores, mas o homem já é um animal erecto e não precisa das mãos para andar, por isso pode agarrar em tudo sem se prender a nada do que ela se apropria. Quer dizer, a mão é o símbolo mais impressionante da inteligência, o Homem deita a mão a tudo e tudo cai sob o domínio do Homem. É pela mão que o Homem é o artífice do mundo. A mão é a obreira do pensamento e a presença prática do seu espírito no mundo.

Ao poder agarrar tudo, a mão do Homem supõe o cérebro e liga-se a ele. Os sábios explicam como a posição vertical liberta a caixa craniana de uma espécie de jugo muscular que bloqueava o seu desenvolvimento. Suprimido este constrangimento, o invólucro protector do cérebro cortical pôde desenvolver-se. Nesse invólucro está alojado um fantástico computador vivo que contém, no mínimo, uma quinzena de milhões de células: o cérebro. É ele que torna possível o jogo indefinido de associações e de relações que a nossa mente produz e das quais se alimenta.

É ainda a mão que permite o aparecimento da face humana. De facto, sem a mão, é a mandíbula ou os queixais ou o bico ou a língua ou a garra que ataca directamente os alimentos e isso implica força e violência. Quando a mão, libertada pela posição vertical, pega nos alimentos, a face, subtraída à violência, muda de feição e humaniza-se para outras funções para além do comer. É então que a face se converte em rosto, isto é, em sorriso, em olhar e, sobretudo, palavra (aliás o sorriso e o olhar são já, de certo modo, palavras.

Convém reflectir um pouco nesta coisa maravilhosa que é a palavra. O que é falar? É fazer brotar ideias no seio de um conjunto sonoro que, em si mesmo, não passa de um jogo de vibrações, mas só o Homem tem esse poder.

Falar é proferir um conjunto organizado de sons, vogais e consoantes que formam sílabas e palavras ligado a um conjunto organizado de significados. Este sistema de sons, ligado a um sistema de sentidos ou de significados, varia de país para país e denomina-se língua: o português, o francês, o chinês, etc. O Homem aprende a sua língua chamada materna e torna-se capaz de se abrir ao universo do encontro, da partilha e do diálogo.

O Homem não poderia pensar se não pudesse falar e não existiria reflexão se não houvesse linguagem, como também não poderia fazer raciocínios nem emitir juízos se estas duas nobres funções não fizessem dele um ser superior por excelência. Foi a liberdade da mão que tornou possível o verdadeiro pensamento, essa chispa de inteligência que o eleva da natureza animal e o caracteriza como Homem.

Concluiremos então que o Homem não é uma dupla substância, corpo e alma, das quais, uma – o corpo – aprisiona a outra – a alma, e a prejudica. O corpo não é em si um elemento exterior de que a alma poderia prescindir. O corpo é parte essencial do nosso ser. Corpo e alma estão tão ligados um ao outro no próprio acto de existir, como o som e o sentido no acto de falar. Assim como a palavra é indivisivelmente som e sentido, também, do mesmo modo, indivisivelmente, a existência humana é corpo e alma. A alma não é nunca sem o corpo; o corpo não é nunca sem a alma; o corpo e a alma não são nunca sem o mundo.

O corpo não é mais do que a própria alma considerada na actuação do seu poder e da sua energia. Esta massa de células vivas que nós chamamos corpo e que é um foco de energias, sustenta, alimenta funções que, por sua vez, desenvolvem uma vida psíquica, que, no seu ponto mais alto, se expande em sentimentos superiores, em inteligência, vontade e amor.

Tudo isto poderá parecer redundante, porém, urge esclarecer que a alma não age nem existe senão pelo corpo e para viver é preciso comer, beber e dormir. O Homem é um todo, uno, indivisível e imortal. Mas esta categoria da imortalidade advém-lhe do facto de ser criado à imagem e semelhança de Alguém superior, que lhe deu a vida com estas características e esta dimensão de mais, mais, e sempre mais. Por isso é que o macaco não pensa, porque não lhe foi atribuída esta faculdade.

E aqui reside a maravilha da Criação, seguida da complementar evolução, graças às capacidades inerentes ao Homem e ao seu potencial para as desenvolver, aumentar e criar novas dimensões de abertura ao transcendente, que longe de o aprisionar lhe abre as portas para crescer, melhorar e se divinizar na medida em que pode e sabe aperfeiçoar-se na sua humanidade, melhorar o contexto que o rodeia, fazer cultura, colaborar na civilização do mundo onde lhe foi dado nascer, viver e, a seu tempo, partir, rumo à origem que lhe deu a vida.

Nota: Homem com maiúscula refere-se à espécie humana, quer dizer, todos nós, mulheres e homens estamos naturalmente abrangidos e englobados, sem necessidade de fazer qualquer referência às diferenças específicas dos dois sexos, que embora diferentes são complementares. Iguais em deveres e em direitos, criados por amor e para amar e não para dividir ou guerrear.



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