Fotografia: Nuno Cerqueira

Em terra de peixe o panado era rei: o Oliveira vai fechar

“Prata da Casa”

Nuno Cerqueira
23 Ago 2020

Conhecido pelos panados a altas horas da madrugada, o café Central, na zona sul de Esposende, vai encerrar.

António Oliveira, proprietário do espaço que abriu em 1985, encerra num cenário misto de «pandemia e cansaço».

«O covid-19 veio dar cabo do negócio. Estou a fazer 50%, mas não foi a questão principal. A minha esposa está em baixo e disse que não aguenta mais, por tal chegou a hora de descansar. Eu e a minha esposa queremos agora gozar um pouco a vida que nos resta», afirma.

O encerramento já tem data – amanhã 24 de agosto – colocando fim aos famosos panados às 5h00 da manhã.

Questionado se podia passar o negócio, António Oliveira, com 72 anos de idade, diz que não dá.

«Onde está o atendimento ao público vai ser a nossa sala. A cozinha do café é a nossa cozinha. Por isso não dá», frisa.

De Braga para Esposende

António Oliveira, nascido em Braga veio parar a Esposende para trabalhar no Hotel Nélia.

«O começo do trabalho foi atribulado. Comecei no dia 25 de abril de 1974. Quando cheguei para trabalhar, íamos servir um ministro que vinha de Viana do Castelo. Quando chegou ao hotel, entre e saiu logo a correr com os militares. Não sabíamos o que se passava. Depois percebemos que era a revolução. Forma curiosa de me estrear a trabalhar», recorda.

Depois de uma carreira na hotelaria, há 25 anos atrás nascia o café Central que sempre conviveu com os pescadores, mas foram os panados que levaram figuras públicas ao local.

«Olhe, o Jorge Palma vinha aqui. Sentava-se ali num canto e comia uns panados. Também o Reininho dos GNR vinha aqui, sempre com um grupo. Gente educada, não chateavam ninguém nem se mostravam as estrelas que são», conta.

As noites também foram de alguns sobressaltos, principalmente causados pelos excesso de álcool.

«Uma noite uns australianos, um deles até casado com uma moça das Marinhas, envolveram-se numa cena de pancadaria aqui dentro de outro mundo. No final acabou todo mundo abraçado. Aquilo foi feio», relembra.

O café Central foi juntando ao longos dos anos património relacionado com a pesca e que, na hora do fecho, o senhor Oliveira decidiu oferecer ao Forum Esposendense.

«Já levou para lá tudo. É a instituição certa para as peças ficarem protegidas. O Forum é uma grande instituição que deve ser acarinhada por todos, pois são zeladores de grande espólio patrimonial destas terras», diz, justificando assim o porquê de ter escolhido o Forum para guardar o espólio marítimo do Café Central.





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