Espaço do Diário do Minho

É o momento de olhar para os nossos doentes

21 Ago 2020
João Paulo Coelho

Passaram mais de 4 meses desde que sofremos o impacto súbito de uma doença contagiosa, que veio alterar o paradigma da vigilância das morbilidades e da saúde dos nossos doentes. Vivemos desde então uma realidade diferente, que não deixou imune o funcionamento das instituições de saúde e os seus profissionais, a quem temos obviamente muito a agradecer! Mas isso não quer dizer que devamos desistir de encontrar um novo normal, muito pelo contrário.

Assistimos à aparente estabilização da atividade em saúde num novo anormal, que nos parece inadequado para com as necessidades dos doentes. Pelo menos isto é o que os doentes têm feito chegar junto da Embrakara, associação que representa os utentes do agrupamento de centros de saúde de Braga.

Perante todas as adversidades que os doentes ultrapassaram nestes últimos meses, e nomeadamente aqueles com doenças crónicas que necessitam de cuidados mais frequentes, não é expectável que seja agora mais difícil entrar em contacto telefónico com as Unidades de Saúde, levando os utentes a desistir após várias tentativas e vendo-se assim obrigados a deslocar-se às Unidades para resolver os seus problemas. Para além de toda a sobrecarga associada a uma deslocação, que poderá ser totalmente desnecessária, esta situação não é a desejável em tempos de pandemia. Também não é aceitável que os doentes, tendo sido privados de cuidados de saúde durante meses, recebam um “Não” como resposta ao pedido de uma consulta.

A pandemia não pode continuar a justificar tudo. Pese embora ainda existam casos ativos no concelho de Braga, nada justifica, que não se volte de forma faseada à atividade próxima do normal pré Covid-19, mesmo que através de outros meios como as consultas telefónicas ou teleconsultas. E frisamos a escolha da palavra “próxima” porque não podemos e não devemos esquecer que ainda é necessário realizar uma pequena triagem inicial (febre, tosse ou falta de ar) antes de qualquer consulta, não é possível agregar demasiadas pessoas nas salas de espera e ainda são necessários cuidados de desinfeção rigorosos. Mas estes são elementos que na prática não ocupam muito tempo e não podem constituir um impedimento para fornecer os melhores cuidados.

Por outro lado, num momento em que é necessário recuperar o tempo perdido, encontramos equipas de saúde com horários de trabalho reduzidos, sem acesso ao utente através meios de comunicação eficazes (telefones, telemóveis, videoconferência), com resistência à realização de cuidados domiciliários e com um atendimento despersonalizado, pois muitas vezes os utentes não são atendidos pela equipa que habitualmente os acompanha.

Por tudo isto, acreditamos que este é o momento de estabilizar num novo e positivo normal.

Apelamos assim que o atendimento telefónico das unidades incluídas no Agrupamento de Centros de Saúde de Braga seja mais eficiente e que as unidades permitam o acesso dos utentes, quando a situação assim se justificar e assegurando-se todos os critérios de segurança. Apelamos também que se adaptem os horários de funcionamento das unidades a estas novas necessidades, por exemplo através do alargamento do horário de atendimento. Compreendemos que estas restrições podem estar relacionadas com a falta de profissionais nas unidades, e caso assim seja, contratem-se mais profissionais ou invista-se em horas extraordinárias. Mas recupere-se o tempo perdido, este é o momento!

Se nada mudar, veremos mês após mês a estatística de morbilidade e mortalidade agravar-se, quando comparada com anos anteriores, só que agora não poderemos atribuir todas as responsabilidades ao Covid-19.



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