Espaço do Diário do Minho

Rui Pinto, o pirata

14 Ago 2020
Artur Soares

Ainda neste nosso tempo, de vez em quando ouvem-se noticias sobre pirataria, actividade criminosa que se exerce nos mares do planeta. Agora, neste nosso século XXI, temos novas formas de pirataria, em terra. A mais recente que se constata é a económica. Destes piratas criminosos, há-os entranhados em qualquer país e entre nós: na política, nas empresas, na banca, nas instituições e, pois claro, fede o crime e o descalabro económico no desporto.

Ora Rui Pinto é pirata. Assim o cognominaram. Não por lucros em proveito próprio, mas para desmascarar o crime e porque essa actividade o torna feliz e útil à sociedade.

Rui Pinto, hacker, como o descrevem, é autodidacta de informática e licenciado em engenharia. É de V.N. de Gaia e, por isso, é o Rui Pinto, pois se fosse de Lisboa seria o Sr. Engenheiro Rui Pinto. Assim – para mim – este delator e para os criminosos, hacker, fez a intrusão às contas, contabilidade e contractos de certos gorilas, cá e fora, desmascarou alguns e já teve como mérito proporcionar julgamentos de crimes cometidos contra o Estado e contra os bolsos dos contribuintes doutros países. É evidente que a nossa classe política, as empresas, os bancos e os clubes desportivos querem-no silenciado, preso e assim aconteceu – prenderam-no mais de um ano em Portugal.

O Sr. Engenheiro Rui Pinto – o tal hacker Rui Pinto – foi notícia em vários países europeus – e não só – como único na informática e na descoberta de crimes por gângsteres do dinheiro dos injustiçados. Razão por que vários advogados e políticos estrangeiros lhe deram valor – pelo seu saber e inteligência – e se ofereceram para o proteger, dar-lhe trabalho informático para denunciar o crime organizado e, ao contrário, viram que Portugal exigiu prendê-lo e julgá-lo como criminoso: será julgado brevemente por não esconder criminosos.

Rui Pinto – a quem peço licença para assim tratar tão amistosamente – prestou várias informações a diversos países onde existiam ilegalidades financeiras. Mas teve o cuidado de aferrolhar muitos casos que descobriu. Preso então, pensava o Estado português e a Polícia Judiciária que teriam acesso a todo o gangsterismo descoberto pelo delator. Mas Rui Pinto não tem aspecto de anjola e só ele será capaz de desencriptar, de desencravilhar ou de descriptogramar os seus rígidos discos, uma vez que os serviços informáticos do Estado e da polícia não têm cabedal para chegar aos códigos de acesso.

Soltam o pirata, o criminoso, e terá de ser julgado pelos seus 90 crimes que Portugal “apontou”. O Ministério Público dividiu-se quanto à liberdade condicional. Uma procuradora não concordou com a liberdade, “por receio de fuga do criminoso”, o seu superior hierárquico e o director da Polícia Judiciária concederam a saída da prisão ao pirata.

Rui Pinto aceitou colaborar com os serviços de Justiça. Já desencravilhou os rígidos discos, dando a conhecer as passwords, já falou o que tinha de falar e avisou: “colaboro, mas a luta continua”. Desse modo, a viver numa casa-própria da Polícia Judiciária com todas as comodidades, com internet ao dispor e com a segurança permanente por elementos do Corpo de Segurança Especial da PSP – o mesmo Corpo que faz segurança aos presidentes da República, a governantes e magistrados – o pirata, inimigo dos criminosos da finança, aguardará julgamento.

Parece não haver dúvidas quanto ao valor e ao trabalho gigante, inteligente e oportuno deste autodidacta de informática. Fala-se que é um elemento desejado em qualquer país. Portugal – com a tacanhez de sempre – vai fazer o julgamento de um cérebro raro que utilizou a inteligência, para que se fizesse justiça contra quem procura viver da carne e dos ossos dos pobres e esfomeados! Acredito que este julgamento não passará de querer encobrir a vergonha e a frustração da Justiça ou da falta de Leis que protejam esta actividade de delatores. O fim de tal julgamento só pode terminar com “pena-suspensa”, por não poder terminar com um “pedido-de-desculpas” e por uma indemnização (dada) ao julgado.

A Polícia Judiciária já declarou querer Rui Pinto para trabalhar nos seus serviços, dando-lhe casa, bom ordenado e segurança à altura da sua situação. Mas está-se mesmo a ver o fim desta vergonha nacional e da ironia que ao outros países vamos provocar nesta nossa pequenez social – o julgamento do hacker português. Está-se mesmo a ver que os políticos deste país vão publicitar a sua generosidade ao julgado; irão testemunhar o seu valor; vão publicitar a indispensabilidade do pirata ao país e não me admiro nada que em Lisboa – não em Gaia – lhe coloquem uma estátua ou o mudem para o Panteão Nacional, caso os criminosos o abafem.

(O autor não segue o novo Acordo Ortográfico)

(P.S. – Artur Soares regressa às suas crónicas após o fim do mês de Agosto)



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