Espaço do Diário do Minho

Ventos de mudança

13 Ago 2020
João Gomes

Quem me conhece sabe que sou apologista do diálogo. Tenho um passado profissional que fala por mim, e é maioritariamente nesse contexto que as pessoas me conhecem. Não sou, nem nunca fui, ditatorial. Não gosto de impor contra tudo e contra todos aquilo que defendo. Sou uma pessoa de convicções que sabe reconhecer argumentos alheios válidos e construtivos. Em particular, dou muito valor aos inputs de quem é mais conhecedor e especialista do que eu em determinada matéria.

É por isso com satisfação e interesse que leio todos os comentários que me deixam, relativamente a este meu espaço de opinião, na rede social do Facebook. E não me refiro somente aos comentários positivos ou elogiosos; encontro, muitas vezes, opiniões e sugestões valorosas nos demais.

A propósito do último artigo publicado, e de algumas trocas de opiniões, aproveito para esclarecer que sou das primeiras pessoas a admitir que o SC Braga conheceu, nas últimas duas décadas, anos de crescimento, assumindo-se como 4.º clube em Portugal. Como o «melhor dos outros».

Fiz honrosamente parte desse trajeto, nos 11 anos que passei na sua estrutura. Sou, contudo, incapaz de ficar calado ou de achar que tudo vai bem só porque esta época alcançámos o 3.º lugar no campeonato. Essa avaliação sumária e simplista eu não aceito. A temporada agora finda reflete, pelo contrário, aquilo que nós não podemos aceitar ao nível da liderança do SC Braga.

Vivi demasiado tempo e intensamente as minhas funções no clube para perceber o que vai mal. Para perceber como é impossível que endireite, com o atual presidente, alguém que combina de forma explosiva a falta de estratégia com a absoluta ausência de espírito democrático.

Um clube de futebol, como qualquer outra organização, deve ser o espelho dos seus líderes, e é nesse contexto que considero a presente temporada como mais uma indelével prova das carências que se vivem na estrutura que nos vai guiando erraticamente.

Não contem comigo para amainar as tormentas que o nosso clube vive, atualmente. A estagnação, as dívidas, o discurso incoerente e volátil, a falta de rumo. Se queremos que o desporto, como um todo, mude, se não queremos que o nosso clube seja mais um dos que despreza as demais modalidades, temos de ser os seus agentes primários de mudança. São os sócios de cada clube quem deve reclamar (exigir!) essa mudança de paradigma junto dos principais atores, aqueles que têm perpetuado este estado geral de cegueira que os pretende defender, impedindo as pessoas de ver mais além (e de os comparar com os melhores clubes por essa Europa fora, ou até com outras atividades, que tanto teriam a acrescentar à gestão pouco profissional que no nosso país continua a imperar). Algumas dessas exigências estão bem explanadas em várias intenções que compõem a proposta de revisão de estatutos de um clube rival: maior transparência na gestão das Sociedades; maior aproximação aos sócios; e regras que impeçam os (constantes) conflitos de interesses.

Outro importante contributo foi deixado pelo candidato à presidência de um outro clube português, recentemente, quando se referiu à necessidade de se limitarem os mandatos dos dirigentes desportivos. O cúmulo dos mandatos dos 4 principais clubes em Portugal é, neste momento, de 74 anos. E o do SC Portugal leva escassos 2 anos de presidência. É uma média de 18,5 anos por presidente. Por que razão não terão estes intervenientes qualquer vontade de introduzir a limitação de mandatos? Porque passou, a atual direção do nosso clube, os mandatos de 3 para 4 anos? É altura de abrirmos os olhos e de injectarmos a mudança que tarda em consumar-se. Antes que seja demasiado tarde.



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