Espaço do Diário do Minho

Isto de ser Cristão…

13 Ago 2020
Silva Araújo

1. Aconteceu algures, numa igreja cujo nome não cito. Nunca lá tinha ido. Entrei. Um senhor fazia a Via-sacra. Ajoelhei-me. Terminada a sua devoção o senhor viera postar-se junto de mim. Educadamente, pedi uma informação. Deu-ma. Mas fê-lo nuns termos tais e num tal tom de voz que me deixou surpreendido.

Agradeci a indelicada resposta à minha educada pergunta e fiquei, depois, a meditar. Como é possível que, estando a rezar a Cristo e tendo meditado no caminho da sua dolorosa paixão em favor dos homens, tão indelicadamente se trate Cristo na pessoa de um irmão que pede um favor?!

2. Um dos nossos males – escrevo também a olhar para mim – consiste, muitas vezes, em separarmos a Religião da vida. Em pretendermos amar Deus sem amarmos o próximo, esquecidos de que são comportamentos inseparáveis.

O amor a Deus e o amor ao próximo são como as duas páginas da mesma folha ou as duas faces da mesma moeda: rasgada ou destruída uma fica rasgada ou destruída a outra.

S. João adverte para o erro. «Se alguém disser ‘eu amo a Deus’, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1.ª João 4, 20).

É muito fácil ajoelhar diante do sacrário e fazer juras de amor a Jesus. No entanto Ele disse: «sempre que fizestes isto (prática das obras de misericórdia) a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25, 40).

3. Chamaram ao falecido bispo D. Hélder Câmara «a voz incómoda do Evangelho». É isso que somos chamados a ser. Não tanto com palavras mas sobretudo com obras.

Uma coisa é o «cristianismo» das oraçõezinhas e das devoçõezinhas e outra, o Cristianismo da vivência do Evangelho. Uma coisa é ser Cristão e outra, ser beato.

O Evangelho convida a sair do comodismo. A ultrapassar a barreira do egoísmo. A viver a vida como serviço e doação aos outros. A dedicar particular atenção aos mais fragilizados e a quantos a sociedade marginaliza. A não descansar enquanto houver pessoas sem o necessário para poderem viver com dignidade.

É muito mais cómodo reduzir o cristianismo a um conjunto de coisinhas que nos deixam confortáveis porque nos não sacodem.

4. Meditar a Via-Sacra. Participar na Eucaristia. Rezar diariamente o terço. Fazer um tempo de leitura espiritual. Tudo isso é bom, é necessário, mas não chega. E a prática da caridade, manifestada em gestos de atenção a Cristo presente nos outros? E o empenho na transformação do mundo, agindo nele como sal, como fermento, como luz (Mateus 5, 13-16)?

Cita-se com muita frequência, sobretudo em liturgias de casamento (onde, por vezes, há excesso de folclore e de desperdício), a 1.ª Carta de S. Paulo aos Coríntios (13, 1-13) que salienta a importância do amor.

Se fizermos as coisas mais extraordinárias do mundo; se, inclusivamente, tivermos o dom da profecia mas não tivermos amor, de nada nos aproveita.

É imperioso que sejamos Cristãos na família, no trabalho, na política, no associativismo, na rua…

5. Quando formos embora e nos encontrarmos com Jesus seremos avaliados pelo amor. O mais importante serão as obras de misericórdia que tivermos praticado. «Vinde, benditos de meu Pai!, dirá Jesus. Recebei em herança o Reino (…) porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo». (Mateus 25, 31-46).

6. Concluindo: Isto de ser Cristão tem muito que se lhe diga. Não consiste apenas em ter sido batizado. Não nos esqueçamos que foi com homens que levavam o Cristianismo a sério que se lançaram as bases da Comunidade Europeia que agora querem descristianizar.



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