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Criopreservação de Sangue do Cordão Umbilical? O que é necessário saber para decidir

12 Ago 2020
Ana Sara Gomes da Silva

A criopreservação de sangue do cordão umbilical é uma prática cada vez mais comum, pelo potencial que as células nele existentes têm para o tratamento de doenças “do sangue” ou do sistema imunitário. Esta é uma opção individual dos pais que enfrentam uma decisão difícil, divididos entre a perspetiva de garantir um “seguro” para a saúde dos seus filhos e o elevado investimento financeiro que este determina, sendo alvo de informações imprecisas e técnicas de marketing agressivas que exploram potenciais sentimentos de culpa. Este “conflito” é exacerbado pela controvérsia sobre o efetivo benefício desta criopreservação, questionando-se se poderá constituir um investimento sem garantias. Torna-se fundamental, portanto, fornecer aos pais informação imparcial necessária a uma tomada de decisão fundamentada.

Uma vez cortado o cordão umbilical, ao nascimento, permanece sangue no fragmento de cordão ligado à placenta, do qual o bebé não necessita. Este sangue é rico em células estaminais, semelhantes às da medula óssea, que têm a capacidade de se diferenciar em diferentes tipos de células do organismo. Estas funcionam como um “sistema de reparação intrínseco”, dividindo-se sem limite para repor outras células, podendo ser utilizadas para tratar doenças. O sangue do cordão é uma fonte de células estaminais hematopoiéticas para transplante, o tratamento mais eficaz para algumas doenças do sangue ou do sistema imunitário, como leucemias ou linfomas. Doentes com estas condições recebem elevadas doses de quimioterapia e radioterapia para eliminar as células doentes, sendo depois transplantadas as células estaminais, para repovoar a medula óssea com células saudáveis, transformando-se em células adultas funcionais. As células para transplante podem ser obtidas do cordão ou da medula óssea. As células estaminais da medula óssea são obtidas de dadores vivos, familiares ou voluntários. O sangue do cordão é uma fonte alternativa destas células, podendo ser utilizadas no próprio dador ou num outro recetor compatível. Contudo, há limitações ao seu transplante no dador, destacando-se a possibilidade de já na altura do nascimento existirem alterações celulares associadas ao desenvolvimento da doença, que estarão presentes nas células recolhidas, limitando a sua utilidade.

Após o nascimento, o sangue que permanece no cordão ligado à placenta é colhido para um saco estéril, de forma indolor e sem riscos, sendo analisado para excluir o risco de transmissão de doenças infeciosas. Quando a unidade de sangue é considerada adequada para transplante, é criopreservada em azoto líquido, numa temperatura que mantém a viabilidade das células e permite um armazenamento fiável a longo prazo. Para o seu armazenamento, existem bancos públicos, sem fins lucrativos, que armazenam unidades doadas para serem utilizadas por qualquer doente compatível. A unidade poderá ser utilizada pelo próprio dador, se necessitar, apenas se esta se encontrar ainda disponível. Em Portugal, existe o Banco Público de Células do Cordão Umbilical, que realiza colheitas em apenas quatro hospitais (São João, Pedro Hispano, Prof. Doutor Fernando Fonseca e Maternidade Júlio Dinis). Os custos são assegurados pelo Serviço Nacional de Saúde, não comportando quaisquer custos para os pais que decidam doar o sangue do cordão do seu filho para beneficência social. Existem também bancos particulares, aos quais as famílias pagam a criopreservação do sangue do cordão para uso exclusivo do próprio ou de um familiar que venha a necessitar. É importante que os pais estejam informados da baixa probabilidade de utilização no próprio. Na maioria das situações, são usadas células de dador saudável, visto que as do próprio podem ser portadoras do problema que esteve na origem da doença. Os preços destes serviços variam entre bancos, que cobram quantias avultadas pela colheita e ainda uma taxa anual de armazenamento.

A maioria das associações médicas e o Conselho da Europa não recomendam o armazenamento de sangue do cordão para uso exclusivo do próprio e declaram como “aconselhamento erróneo” o seu uso como “seguro biológico”, não existindo evidência científica a suportar a sua criopreservação particular.



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