Espaço do Diário do Minho

A FALTA DE CULTURA ESTRATÉGICA NACIONAL PARA O NOSSO DESENVOLVIMENTO

12 Ago 2020
Joaquim Barbosa

Em Portugal, talvez por termos na parte insular as ilhas rodeadas de mar por todos os lados, como dizia o Almirante Américo Tomás, e no continente, estarmos rodeados por Espanha de um lado e pelo mar pelo outro, há quem raciocine como se vivêssemos isolados e não houvesse mundo à nossa volta.

Não me refiro ao “orgulhosamente sós” tão propalado por Salazar mas à falta de consciência que vivemos inseridos num mundo global com o qual interagimos e que interage até muito mais connosco.

Alguma visão alargada do mundo que penso ter desde criança devo ter adquirido por ter acompanhado, com a minha restante família, o meu pai pelos continentes onde exerceu a sua profissão de engenheiro civil e, mais tarde, já formado, por ter sido aluno do Colégio da Europa em Brugge na Bélgica.

É curioso que sendo o Colégio da Europa uma das instituições europeias de ensino pós-graduado mais globais que existe, uma vez que é sua caraterística essencial ter alunos de várias nacionalidades e professores de universidades dos vários continentes, saí de lá, passado um ano, muito mais consciente da nossa importância como Nação, da importância da necessidade do nosso trabalho nacional de afirmação mundial e absolutamente convencido que se não fizermos o nosso trabalho ninguém o fará por nós.

O que falta em Portugal é uma estratégia duradoura e permanente de várias políticas que têm de prosseguir independentemente da cor política dos vários governos. Apesar de alguns fatores exógenos foi também muito pelo nosso mérito que no setor turístico Portugal atingiu, no período anterior à COVID-19, o sucesso que teve. Aí houve ao longo de décadas uma política sempre coerente que nos trouxe este resultado.

Outro setor que implica uma política pública duradoura e que atravesse vários governos é o da política de emigração que deve ser ativa, com medidas muito claras e seguras de apoio dirigidas àqueles povos com quem temos mais afinidade cultura e história que são os países de expressão portuguesa. Só assim conseguiremos combater o grande flagelo da nossa queda demográfica, que nos vai fazer definhar irremediavelmente se tudo continuar na mesma.

Os países, como as empresas, competem entre si e ganham sempre aqueles que optam por políticas públicas mais eficientes e eficazes do ponto de vista económico e sabem depois, do ponto de vista social, saber repercutir esse ganho no nível de vida dos seus cidadãos.

A própria imprensa nacional pode ter um papel muito importante na visão que é dada de Portugal e pode contribuir para o sucesso ou insucesso do nosso desenvolvimento.

Um caso de tratamento nocivo pela nossa imprensa foi dado há alguns dias. Toda a gente se apercebe da injustiça relativa de alguns países para com Portugal, em pleno meses de veraneio, impondo restrição de viagem para férias dos seus nacionais e que veio afetar o setor turístico, originando perdas nunca vistas no passado.

No entanto, precisamente no dia em que Portugal não teve um único morte pela COVID-19, foi também noticiado que nunca morreu tanta gente no nosso país desde há 12 anos a esta parte. Ora aqui está um péssimo exemplo de atividade jornalística para a promoção de Portugal nestes difíceis tempos.

Ninguém advoga que se minta ou que se escondam notícias, mas, no próprio dia é dada uma noticia tão negativa, referente a um período anterior muito mais vasto, ao mesmo tempo que tivemos nesse dia uma informação que nos deveria orgulhar e que deveria servir para ajudar a inverter as atitudes erradas, do ponto de vista relativo, feita a Portugal por outros países ?

Não seria possível e desejável, em 4 de agosto, ter noticiado em parangonas a informação da ausência de mortes pela COVID-19 e deixar para mais tarde, noutra ocasião, a notícia de que julho foi o mês no qual morreu mais gente desde há 12 anos?

Isto não é uma questão de dirigismo noticioso como alguns visualizadores de fantasma em todo o lado vão já pensar, mas apenas uma questão de cultura de desenvolvimento nacional, de sentido de oportunidade e perceber como funciona o mundo, neste Portugal da ponta ou do início da Europa.

A Europa está cheia de exemplos que os países mais desenvolvidos são aqueles que seguem uma estratégia coerente com medidas para o seu desenvolvimento que atravessam vários governos com o envolvimento dos diversos agentes nacionais.

Quando é que Portugal aprende?



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