Espaço do Diário do Minho

Presidente lava as mãos, mas há quem não fique atrás

11 Ago 2020
Luís Martins

Não me refiro àquele gesto que nos é recomendado, ainda mais nos tempos que correm, para fazermos com relativa frequência. Mas ao relaxe sobre a Festa do Avante e à aceitação incondicional da sua realização. Não há braço de ferro, nem sequer a dúvida de que a mesma irá acontecer mais ou menos como os organizadores pensaram e querem. Sinto que há até uma certa subserviência das autoridades – políticas e da saúde – ao partido que detém a patente do evento.

O Partido Comunista Português (PCP) é um partido que não se adaptou ainda à democracia, que atiça as multidões, mas que não respeita o povo. Se respeitasse, adiaria a festa. Por causa da pandemia e apenas por isso. Há, contudo, outros motivos que dão força ao seu objectivo. Perdido num mar de contradições, um pouco sem rumo, de cabeça perdida, leva longe a sua teimosia, num comportamento próprio de um adolescente.

A Direcção Geral de Saúde (DGS), politizada, não consegue ser coerente, se compararmos este com outros eventos e outras reivindicações, e prepara-se para pedir apenas alguns pequenos ajustes para que a organização não resista. Vai acabar por liberar o evento para não acirrar o PCP contra o governo – a força política não deixaria de salientar que o evento é político e, portanto, conforme a lei –, que o momento é de negociação para o novo acordo de governação adiado para depois das férias estivais.

Há muita gente calada, da que habitualmente tem muita prosa e sempre as melhores soluções. Refiro-me, sobretudo, a gente socialista que deveria dizer alguma coisa sobre a realização da Festa do Avante e não diz. O primeiro-ministro anda calado como um peto sobre o assunto e não é por causa de se ocupar desta vez com os fogos que continuam a devastar o país.

Calada está também a oposição, talvez com receio de ser acusada de atentar contra a liberdade de associação, apesar de ser contida na expressão que dará, no seu conjunto – e aqui coerente –, à chamada rentrée política. O diapasão parece continuar afinado entre os outros parceiros do Executivo: nada de ondas, que não se agitem as águas antes do momento da assinatura do convénio.

Até o último reduto se desleixou, deixando a coisa correr como tiver que ser, desvalorizando o perigo, mas relevando incoerência. Marcelo tem tanta certeza e convicção nas medidas de segurança implementadas na Madeira – obrigação de uso de máscara nos espaços públicos e não apenas em estabelecimentos comerciais e outros locais – e desleixa-se com a realização da festa comunista que pode reunir 100 000 pessoas (!), sabendo-se que poderá coincidir, muito provavelmente, com o início da segunda vaga da doença que nos tem confinado e inquietado? Na verdade, à medida que o evento em causa se aproxima – estamos a menos de um mês da abertura dos portões do latifúndio comunista, ou não é? – e da convicção de que a DGS se absterá de grandes alterações, o Presidente acomoda-se, põe nas mãos de outros a decisão de travar ou ceder à teimosia do PCP. Não que fosse ele a fazê-lo, mas que, ao menos, confirmasse o que antes dissera sobre o evento, em que fora bem mais exigente. Bastava que lhe ouvíssemos “uma ligeira brisa”, mas não.

Pode ser que me engane – espero que sim –, mas a tempestade pode surgir mais forte e levar a barca ao fundo e, então, nem o confinamento nos bastará. Se isso acontecer, não haverá diplomacia, por melhor que seja, que nos ajude. O mar já não anda sereno – o ponto de situação de novos infectados tanto anima como desanima – e seria prudente não arriscar. A fé, como ouvi de um celebrante numa missa transmitida desde os Açores no Domingo passado, e cito de cor, “é o que nos permite sair para fora da gruta [fazendo alusão ao profeta Elias] e ir ter com a vida, apesar das adversidades”, o que, transposto para a sociedade civil, exige postura responsável. A política tem que respeitar e dar exemplo, senão, como haveremos de acreditar?



Mais de Luís Martins

Luís Martins - 22 Set 2020

Não é de agora, mas a fase mais aguda do desconforto é relativamente recente. Não, não me refiro àqueles episódios que foram salpicando a governação socialista que, expostos embora por uns momentos, foram tratados rapidamente. Refiro-me aos mais graves, àqueles que vão deixar sequelas e que, por isso, aparecerão no cadastro político de António Costa […]

Luís Martins - 15 Set 2020

Um governante não pode fazer o que lhe dá na real gana. Não nos interessa saber se vai a um evento cultural, mas já nos interessa se o faz num momento de confinamento e ainda mais quando tal é decidido pelo seu governo. Não nos interessa se um membro do governo vai ao futebol, mas […]

Luís Martins - 8 Set 2020

Uma sentinela é alguém que está desperto, escuta para poder dar um alerta, está na linha da frente para ver melhor e defender eficazmente a sua comunidade. É muito mais do que aquele que controla o cumprimento das normas legais relativas à prevenção do contágio pelo vírus que nos estraga os dias de férias, de […]


Scroll Up