Espaço do Diário do Minho

O Tino está com tino

4 Ago 2020
Luís Martins

Já há quem se tenha vinculado – “vou votar em Marcelo Rebelo de Sousa” –, como fez um ex- presidente do Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP). Mas, antes, já o Primeiro-Ministro António Costa tinha convidado o actual Presidente a recandidatar-se, antecipando-se à decisão do seu partido, o que foi entendido, sem grandes dúvidas, de que assim evitaria que outra candidatura socialista se apresentasse e recebesse o apoio do partido, já para não falar de que a protecção presidencial seria de inegável importância para o Executivo, o mesmo é dizer, para si próprio. Também outras vozes se pronunciaram, embora no sentido contrário e, em concreto, da área socialista, que não apoiariam o Professor Marcelo, mesmo que fosse à revelia do que o partido rosa viesse a definir. Se a posição de Manuel Monteiro é normal, por não representar uma força partidária, já a de António Costa é susceptível de crítica. Monteiro atravessou-se a título pessoal, enquanto Costa, pelas funções que exerce, vinculou, mesmo sem procuração, o Partido Socialista (PS). Muito dificilmente o PS apoiará, depois da iniciativa do seu secretário-geral, um candidato socialista. Fora esta particularidade, é pacífico que os apoios se apresentem – são quase sempre uma mais-valia para o candidato apoiado –, apesar do actual Presidente não ter confirmado a sua candidatura a novo mandato a Belém. Por ora, nem os sociais democratas, nem os centristas, declararam o apoio a quem quer que seja, embora se compreenda, uma vez que só se pode apoiar alguém que é candidato, e Marcelo ainda não o é. No entanto, estou convencido de que virão a apoiar Marcelo, embora com convicção e motivação diferentes e sem o entusiasmo e ambição da eleição inicial. Marcelo está, hoje, mais perto de Costa, nem que seja por pura estratégia pessoal, ao ponto de merecer uma justa crítica por parte de eleitores da área social-democrata e democrata cristã, para já não falar de outras alternativas à direita que anunciaram os seus candidatos, casos do Chega e da Iniciativa Liberal, sinal de que não alinham com a eventual, mas previsível, recandidatura do actual Chefe de Estado. As redes sociais são pródigas em comentários que demonstram a insatisfação de um parte do eleitorado que ajudou a eleger o Professor Marcelo, mas não só. E que dizem os comentadores? Que Marcelo abdicou de ser independente e equidistante, por interesse pessoal; que parece ter-se filiado ou prometido filiar-se no partido socialista, em virtude da protecção que sistematicamente tem dado ao governo de Costa, algo que não faz com a oposição; que a preocupação que diz ter com a direita política é pura hipocrisia, que está preocupado é consigo e com um score histórico que o fizesse ultrapassar outros resultados de eleições anteriores. Genericamente, concordo com estas críticas reveladoras do pulsar do eleitorado desagradado e que o apoiou na primeira eleição. Tenho para mim que foi essa ambição do Presidente que levou o eleitorado de direita e as próprias estruturas políticas mais à direita do espectro político a desiludirem-se, embora da parte destas últimas não tenha havido qualquer declaração institucional que o confirme. E foi também o posicionamento de Marcelo que se constituiu como o primeiro obstáculo à recuperação, por parte dos partidos tradicionais mais à direita, dos resultados das últimas legislativas. Agora e logo mais, face à proximidade das presidenciais, o mais que certo recandidato não pode prescindir, apesar da magreza dos apoiantes da sua área ideológica, do apoio dos partidos que o ajudaram a chegar a Belém. Não sem resistências, que não serão poucas. Ao folhear o feed de notícias do facebook no final da semana passada, deparei-me com um post de uma amiga que dava voz a um tal Tino nestes termos: “Ó Marcelo, se desses a vaga, nem imaginas o favor que fazias a Portugal”. Concordei e comentei que o Tino estava com tino. Depois, arrisquei desenvolver o comentário e trazê-lo aqui à crónica semanal.



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