Espaço do Diário do Minho

Transformação na pergunta

3 Ago 2020
PÁVEL MODERNELL

Transformação é mudança, mas o é em torno de alguma coisa que se conserva.

– Depende de mim?

– Sim! A tua transformação depende sempre de ti, e está sujeita ao tipo de perguntas que te faças e às respostas que te dês.

Geralmente, quando nos propomos a uma mudança, seja esta desde o desejo ou desde a necessidade, o fazemos no âmbito da relação. Porque se é, o será em relação a alguém ou algo.

Tens conversado contigo ultimamente? O tens feito a partir de numa dessas circunstâncias nas quais alguém gatilha em ti um alerta, intuis alguma coisa ou dás conta de que algo tem de mudar? Não são instâncias fáceis, sei disso. Por vezes não sabemos escutar e muito menos escutarmo-nos. Escutar o outro ou escutarmo-nos a nós mesmos podem ser instâncias muito semelhantes e muito diferentes ao mesmo tempo.

Que critérios de validez usas na hora de escutar? Numa conversação contigo, desde onde te escutas? Desde a pergunta ou desde a resposta? Quando escutas o outro, escuta-lo a ele ou te escutas a ti? Se a resposta é que te escutas desde a resposta – quando conversas contigo – e que te escutas a ti quando acreditas estar escutando o outro, o que estás a fazer é escutar os teus próprios critérios de validez. Isto leva-te por um só caminho: impor o que tu pensa e o que tu sabes. Não, assim não nos vamos a encontrar, a conversação torna-se um impossível; onde só há respostas a pergunta não consegue abrir novos espaços de coordenação.

E, desde onde fazes o que fazes? Perguntar-nos pelo nosso fazer abre a possibilidade de gerar consciência em nós – isto é: dar-nos conta. Quando nos damos conta – desde onde e como fazemos o que fazemos – se não mudamos o nosso fazer, ou somos tontos ou somos maldosos. O tomar consciência – dar-nos conta de como e desde onde nos relacionamos – abre-nos a possibilidade de mudar o sentido no fazer, e ao mudar o fazer e o sentido transforma-se tudo.

O devir de cada instante em que nos planteamos o desejo de uma mudança será o resultado da pergunta que nos façamos nesse momento, onde talvez a resposta seja diferente daquela que inicialmente nos tenhamos dado. É simples de entender: onde não há pergunta não há conversação, e onde não há conversação não há encontro, nem connosco, nem com os outros.

A escutar aprende-se, geralmente desde crianças. Escutar é soltar as próprias certezas, é acolher na legitimidade as coisas sendo como são e acolher o outro sendo como ele é, é validar – dar valor – ao que nos é dito e desde onde nos é dito, para perguntarmo-nos e abrirmo-nos à incerteza da surpresa do que pode ser transformado nesse instante. Escutar é amar e amar é ver, é vermo-nos e sermos vistos. Quando alguém nos vê, gatilha em nós e nele mesmo, o amar.

O grande problema das relações humanas está em que não nos vemos, não nos escutamos, e quando surge a queixa – geralmente, como recurso último, no desejo de conservar o que teríamos gostado de conservar – negamo-la, no lugar de aproveitá-la como catalisador de uma nova direção/sentido de transformação em curso. Assim sendo, fechamo-nos à incerteza enquanto possibilidade desejada de transformação, para abrirmo-nos à incerteza enquanto possibilidade não-desejada de transformação. A transformação é um fenómeno constante nos seres vivos por isso a diferença não radica em que esta seja desejada ou não-desejada, e sim no amar ou no negar da própria experiencia de transformação em curso.



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