Espaço do Diário do Minho

Sinais inquietantes em tempo de pandemia

1 Ago 2020
António Maria Martins Melo

Na sociedade portuguesa começam a manifestar-se sinais preocupantes, que podem trazer graves implicações na organização social e política do país. Falamos da presença do populismo, cada vez com maior eco nos meios de comunicação e nas redes sociais. Se na política os seus corifeus estão bem identificados, as suas ramificações em movimentos cívicos que proliferam na sociedade civil amplificam, de forma arrebatadora, a sua influência. Quase parecendo que só eles e as suas causas são dignas de presença no mundo mediático. A defesa dos animais, das árvores e de certas dietas alimentares, como valores absolutos, são disso um claro exemplo. Tanto assim é que nunca se fala nem se apresentam exemplos concretos de pessoas que foram obrigadas a recuar, a abandonar essas dietas loucas pelos malefícios graves que à sua saúde lhes trouxeram, tendo corrido mesmo perigo de vida. E dentro deste pensamento politicamente correcto, ainda lhe podemos juntar a denominada educação inclusiva. Ainda ninguém provou ou se interessou por saber se essa forma de vida é a mais útil e a que traz mais felicidade e realização pessoal aos jovens a ela submetidos. Há medo da pergunta?

Todos estes movimentos ‘progressistas’ estão unidos por tiques de autoritarismo, de sublevação contra um modelo de sociedade que caracteriza o ocidente, fundada numa longa tradição ancestral, que a memória nos guarda. Um dos últimos sinais deste movimento foi o derrube das estátuas, um pouco por todo o mundo, com excepção daqueles países em que não há Liberdade de expressão! Porque será ou a que se pode dever esta coincidência?! Naturalmente que tudo isto decorre de uma inversão de valores conscientemente urdida e pacientemente implementada no nosso quotidiano. Porém, e queremos dizê-lo com toda a veemência, todos os seres vivos devem ser dignos de respeito, num ambiente equilibrado, sem nunca perder de vista que o Homem é o primeiro dos seres vivos, com direitos e deveres especiais, no mundo da criação. Tanto sofre o cão, o gato, como a árvore ou a própria pedra, enquanto seres vivos que são! Eles são a expressão de um Outro e o Homem define-se pela relação que com Ele estabelece. A existência do Homem implica um Outro, o abrir-se ao próximo, que nos franqueia as portas da Hospitalidade, uma das características identitárias da cultura ocidental.

Estes tiques autoritários, em tempo de pandemia, tiveram desenvolvimentos inesperados: veja-se o que se passou na Rússia, na Turquia ou na China, com os avanços imperialistas de Putin, Erdogan e de Xi Jinping, como é mencionado pelo escritor e filósofo francófono em declarações à comunicação social, em Portugal. Sem esquecer a implantação do ISIS no norte de Moçambique. Acontecimentos que só agora começam a ganhar espaço nas notícias.

A este propósito, é bom ter presente que, em Portugal, no 25 de Novembro de 1975, e após um verão quente, o país seguiu o caminho das democracias europeias, com o apoio do PPD, CDS e PS; perderam as forças extremistas de esquerda, com o PCP, a UDP e outras forças dessa área política. Uns dias antes, a 6 de Novembro, fica-nos na memória o grande debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, que se estendeu por mais de três horas e meia de televisão. Um debate muito clarificador, com duas personalidades bem vincadas, representando dois mundos completamente opostos.

Se olharmos para o presente, à luz deste quadro, não nos faltam motivos de muita preocupação.

Esta visão dicotómica da organização da sociedade perde-se na noite dos séculos: a um ocidente, que põe a sua tónica na defesa da iniciativa individual, na afirmação da cidadania, com expressão na organização social sob o regime político da democracia, opõe-se um oriente, com regimes centralizadores, em que o estado é dono absoluto de tudo. No ocidente, uma das primeiras expressões deste embate vamos identificá-lo na guerra que opôs os Gregos aos Persas, no início do séc. V a. C. Mais tarde, no séc. II a. C., os Romanos, vitoriosos, haviam de enfrentar o mesmo perigo durante as Guerras Púnicas, pois estava ameaçada a livre circulação de pessoas e bens no Mar Mediterrâneo.

É aos Romanos, mas sobretudo à Grécia de Péricles que o Ocidente vai buscar o espírito inspirador para as suas grandes realizações colectivas, sendo a mais importante delas a Democracia.



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