Espaço do Diário do Minho

Eucaristia: tesouro e pérola preciosa a redescobrir

1 Ago 2020
Carlos Nuno Vaz

Sem entrar no mérito da recente Instrução da Congregação do Clero: ‘A Conversão pastoral da comunidade paroquial ao serviço da missão evangelizadora da Igreja’, que merece estudo aprofundado, gostaria de insistir em algo que constitui a linfa de toda a verdadeira renovação cristã: – a celebração da Eucaristia. Aliás, a paróquia é definida também como ‘comunidade convocada à volta da Mesa da Palavra e da Eucaristia’.

O evangelho do XVII Domingo, com as parábolas do tesouro e da pérola preciosa, incentiva-nos a colocar-nos a questão: a Eucaristia é para os cristãos um verdadeiro tesouro pelo qual tudo dão, uma pérola preciosa que merece todas as renúncias, feitas, aliás, com alegria?

Sendo o Reino de Deus a própria presença de Deus, o dom gratuito da sua vida e da sua graça, o anúncio gozoso de que Deus nos ama e quer filhos seus muito amados, constituindo uma comunidade de irmãos (o verdadeiro Reino de Deus), nós deveríamos de tal maneira sentir-nos atraídos por ele que fôssemos capazes de fazer o que fazemos para adquirir um tesouro ou uma pérola preciosa.

A Eucaristia é a celebração por excelência da presença do Reino de Deus no nosso meio. Mas olhando para a maneira como é celebrada e participada pelos fiéis – não falando já de que muitos que se dizem cristãos a descuidam totalmente – poderíamos interrogar-nos: é Deus, para nós, um contínuo e quotidiano tesouro, que não se gasta, que não perde brilho, que conserva o seu valor indelével? Sendo o memorial vivo do amor de Deus por nós, somos nós capazes de exclamar como Julien Green: «Deus ama-me! Isto é para ficar louco!». Era assim que ele expressava que Deus era um tesouro para ele e que continuava a sê-lo cada dia.

Nós somos animais de costumes. Tendemos a converter em rotina aquilo que tocamos. E se nos descuidamos, também convertemos Deus e a Eucaristia em rotina: acostumamo-nos. E assim, Deus deixa de ser contínua surpresa e passa a ser um objecto armazenado e poeirento. Já não nos causa assombro saber e perceber que, uma e outra vez, se aproxima de nós, nos ama, perdoa-nos, espera-nos, dá-se-nos em alimento. Já não é tesouro, mas costume, hábito arreigado e desvalido. Deixou de ser presente imerecido, surpreendente, pura graça. Não reagimos como Julien Green: não nos enlouquece o saber que nos ama.

As parábolas já referidas convidam-nos a encontrar Deus como tesouro de cada dia. Para isso, temos que nos aproximar a Ele: cavar no campo, como fazia o camponês; procurar, como fazia o negociante de pérolas. Se cavarmos e procurarmos, encontra-lo-emos, porque Ele quer ser encontrado. A Eucaristia, como tesouro e pérola, é a grande descoberta a fazer: experimentar o assombro de que Deus se nos dá como dom imerecido. Isso nos encherá de uma alegria plena e profunda. Da maneira como se vive e sente a Eucaristia depende muito a força evangelizadora dos cristãos.

A primeira coisa que acontece na vida cristã é um encontro, a descoberta de um tesouro, de uma pérola: o Deus do Reino. E nós sabemos que o Deus do Reino o encontramos no Senhor Jesus, que disse: «Quem me vê a mim, vê o Pai». Jesus é a Incarnação do Reino. Segui-lo a Ele e aos valores pelos quais lutou e entregou a vida é colocar-se na dinâmica do Reino de Deus. Ensinou-nos mesmo a pedir: «venha a nós o vosso Reino». Ao assombro desta descoberta, segue-se uma grande alegria: a alegria do encontro com Jesus numa fé profunda, vivencial e enamorada, que gera um gozo radical. A esta alegria do encontro segue-se o compromisso, a mobilização: o vender tudo para comprar o campo, a pedra preciosa. Desse encontro gozoso com Jesus – que é tesouro e pérola – brota o desejo de estabelecer uma autêntica hierarquia de valores na nossa vida. O mais valioso é Jesus, o seu estilo de vida, os seus valores. Tudo o mais está dependente de que Ele nunca perca para nós o carácter de tesouro, que nada nem ninguém no-lo possa tirar. Porque Ele é a nossa opção fundamental.

O ritmo e sequência da nossa vida deve ser este: primeiro, a felicidade do encontro, o deixar-se embeber pelo encanto e alegria que dele brotam. e que tem na Eucaristia o expoente máximo. Daí nascerá o compromisso que jamais esmorece. Por isso Santa Teresa de Calcutá respondia ao jornalista que nada compreendia da vida da congregação ao estranhar ele as horas de oração e a importância dada à eucaristia de cada dia. Sem esse alimento, a atenção aos mais pobres dos pobres nunca seria a que elas tinham.



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