Espaço do Diário do Minho

Uma “assassina” nas redes sociais

26 Jul 2020
Eduardo Jorge Madureira Lopes

O Jornal de Notícias contou na quarta-feira uma história muito elucidativa sobre o lado menos enternecedor, digamos assim, das redes sociais. A protagonista é Alexandra Santos, uma professora que o país apenas passou a saber quem era por ter sido ameaçada no Facebook. A fotografia que acompanha a notícia apresenta-a como uma jovem com um semblante simpático. Não tem, de facto, o rosto de quem mereça ser acusada de “assassina”, como o título que a cita diz que foi.

Alexandra Santos conta que, a partir do fim da tarde de domingo, começou a receber o que considerou serem “notificações estranhas”. Diz ela que, inicialmente, viu que “começaram a fazer ‘likes’ de ódio”. Quando domingo chegou ao fim, tinha recebido “à volta de 40 mensagens de ódio”. Os comentários que começaram a surgir na página pública que tem na rede social diziam que “devia ser carbonizada e devia morrer”. Alexandra Santos ficou perplexa. “E eu sem perceber nada”, disse ao Jornal de Notícias a professora da Trofa.

A jovem revelou que a mensagem que mais a perturbou chegaria dias depois, na terça-feira. Uma mulher prometeu-lhe uma morte “carbonizada”. “Disse que era uma questão de data e hora”, acrescentou Alexandra Santos. Entretanto, tê-la-ão advertido vários amigos, as imagens da professora de aspecto afável começaram a ser inesperadamente partilhadas. A acompanhá-las, uma legenda persecutória: “Olhem a assassina, partilhem as fotos da assassina”. As fotografias cuja distribuição se reclamava tinham sido extraídas do seu perfil pessoal do Facebook.

Na mesma edição do Jornal de Notícias, há outra notícia a mencionar as intimidações nas redes sociais. Uma jovem actriz, que o jornal diz ser “muito ativa nas redes sociais” e lutadora “contra os chamados ‘haters’, os seguidores que partilham mensagens de ódio”, tinha-se manifestado estupefacta, dizendo que “não dá para entender tanto bullying nas redes sociais”.

Os vocábulos que desagradam à jovem actriz são os que lhe comentam a figura. Diz o Jornal de Notícias que, “apesar do corpo escultural, a atriz é muitas vezes confrontada nas redes sociais com palavras como ‘gorda’ ou ‘esquelética’”.

Dita com acinte, qualquer palavra é susceptível de ferir. Mas, entre “gorda” ou “esquelética” e “assassina”, a diferença não é desprezível. “Gorda” ou “esquelética” são um convite ao desprezo; “assassina” estimula o ódio. As sentenças destes julgamentos nas redes sociais raramente absolvem e as condenações nunca podem ser revistas numa instância superior.

“Sem perceber nada” inicialmente, Alexandra Santos percebeu tudo depois e explicou ao Jornal de Notícias quem e por que razão lhe colaram o rótulo de “assassina”: os defensores dos animais condenaram-na porque ela tem, hélas, o mesmo nome de uma das proprietárias do Cantinho das Quatro Patas, um canil ilegal na Serra da Agrela, em Santo Tirso, onde, por causa de um incêndio, muitos animais, sobretudo cães, tinham morrido de um modo chocante. A jovem professora não era, portanto, a pessoa que os ditos amigos dos animais queriam execrar.

Sabia-se que, ao longo da História, não faltou quem reclamasse a expiação colectiva de crimes individuais – mesmo de crimes que nunca se verificaram. O caso de Alexandra Santos mostra agora que há quem queira punições por homonímia. Ninguém está a salvo da fúria nas redes sociais.



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