Espaço do Diário do Minho

Fretes e democracia reduzida

17 Jul 2020
Artur Soares

Por vezes, em conversas de ocasião, diz-se ou ouve-se dizer que o Manecas é uma pessoa de forte personalidade, que o Feijocas é persistente e que o Tonecas é de antes partir que torcer. Tudo bem, desde que a forte personalidade esteja fortalecida por cultura e educação; tudo bem, se a persistência tem a força da razão/realidade e, tudo bem, se antes partir que torcer é saber que não se prejudica ninguém, que nada se rasga, pisa ou derruba.
Rui Rio, líder dos Social democratas, cidadão conhecido por cargos exercidos no país, é apontado como pessoa de óptimo curriculum, vertical, sério, etc. É líder da oposição ao Governo de António Costa – mas pouco opositor! Rui Rio sabe melhor que ninguém quais foram as razões, os pormenores, as mansardas e as vielas por onde caminhou Costa para derrubar um kamarada do partido – António José Seguro – e sabe o que preparou Costa na Assembleia da República, para formar a Geringonça, derrubando Pedro Passos Coelho – então kompanheiro no seu PSD.
O presente líder Social democrata nunca foi um absoluto opositor a António Costa. Estou que ninguém saberá a verdadeira razão de tal comportamento político a não ser ele próprio. E a partir da presença do coronavírus em Portugal, Rui Rio, argumentando à sua maneira, a seu bel-prazer, tem vivido colado a António Costa, como a sua forte personalidade aconselha e vivido praticamente descolado do interior do seu Partido: dos militantes, deputados e simpatizantes. Nesta colagem ao Governo, várias têm sido as atitudes a Bem da Nação-Costa, que não estão de harmonia com as diferenças políticas que existem entre ambos e muito menos têm a ver com tudo o que se chama ser “oposição ao Governo”. Rui Rio vai mais longe: como se compreende que faça propostas ao Governo de como deve ser o novo modo de funcionamento na Assembleia da Republica, sem dar conhecimento aos seus pares para que possam ter opinião, dar o seu contributo? Como se compreende que nalguns países os dirigentes do Governo prestam contas semanalmente aos deputados e respondem às perguntas que lhe são feitas, sendo que em Portugal os debates eram apenas quinzenalmente e, Rui Rio agora, propõem à revelia de toda a sua gente que os debates na AR sejam apenas mensais? Será que Rui Rio é o único cérebro do Partido e que os seus deputados são inúteis e apenas servem para ocupar as cadeiras do Parlamento e receberem ao fim do mês?
Como é evidente o Primeiro-ministro António Costa agradece. Rui Rio quer oferecer ao Governo as possibilidades de não ser devidamente escrutinado, fiscalizado, apresentando contas aos portugueses. Ora tudo isto é passar cheques em branco, é banalizar a democracia, é ostracizar o povo e é obstruir jornais e jornalistas de informarem. Na verdade, diminuírem os debates na AR é um verdadeiro ultraje aos princípios democráticos, porque devem ser permanentes e transparentes na vida política/governativa, perante os eleitores. Não creio que todos aqueles que defendem uma democracia, apoiem a redução da democracia, o escangalhamento da democracia. Não me parece possível que tais medidas sejam defendidas por Social democratas e por Socialistas, uma vez que a redução dos debates Parlamentares são prejudiciais e podem-se tornar em sala de sono ou num Parlamento a meio gás.
Não escrevemos estas linhas apenas porque sim. Aprendi a caminhar e a valorizar os valores social-democratas, pelos quais sempre pugnei. E se um Governo tem responsabilidades, se tem contas a prestar…, toda a oposição tem a responsabilidade de perguntar, de saber, de contribuir para o esclarecimento e para o bem do país.
Rui Rio – que aparenta ser uma árvore sem antracnose – ao proporcionar fretes ao Governo de quem é opositor, não pode nunca ajudar a reduzir a vida democrática do país e tem de ser peremptório em perguntar (ao Governo) o que o povo não pode perguntar. Mas perguntando com claridade, com eficácia, com personalidade e com a noção de quem representa, porque são os representados que lhe pagam. Não deve Rui Rio ser mole nas perguntas, no analisar e no resultado das contas e muito menos Rui Rio pode fazer perguntinhas como aquela que infantilmente fez ao Primeiro-ministro há dias: “Senhor Primeiro-ministro, o que quer fazer o Governo em relação à TAP”? António Costa, sorridente, facilmente e desportivamente, respondeu: “Haja o que houver, a TAP continuará a voar com as cores de Portugal”. Mediante isto, nem os jornais informam, nem os jornalistas sabem o que informar e facilmente se pode concluir: Rui Rio – líder da oposição ao Governo – sem que se saiba verdadeiramente porquê, faz-lhe fretes e tenta reduzir a democracia.
(O autor não segue o novo Acordo Ortográfico).



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