Espaço do Diário do Minho

Loucos que pensam guiar cegos

10 Jul 2020
Artur Soares

Desde o início da desgraça actual entre a Humanidade, que assusta o mundo, que o adoece e que tem levado tantos milhares para o ventre da terra, ninguém tem dúvidas: o mundo não estava preparado para derrubar tal monstro aparecido nesta segunda década do século XXI. Daí as diversas opiniões, os diversos caminhos sugeridos, as sempre esperanças diárias, as diversas indisciplinas comportamentais na sociedade e a sempre falta de gente que pouco sabe do assunto e que muito deveria saber.

É verdade que todos querem sentir-se úteis e que todos os políticos procuram defender as suas camisolas, mesmo que saibam pouco ou que nada possam fazer. Razão por que os nossos governantes recomendam que não se recomendem certas recomendações e que fiquem todas as pessoas disponíveis para as próximas recomendações a serem devidamente recomendadas. Tal ambiente, tais medos e incertezas nas recomendações, apenas fabrica doentes mentais.

No momento que passa, vivemos no país o problema da recuperação do Turismo. Numa visão militar, um país pode viver em período de paz, de guerra ou de guerrilha. A guerra-guerra é aquela que mata muito, se conhece o inimigo e se sabe onde este permanece. Na guerrilha, tudo é incerto, de ocasião, de cobardia, de política rasteira, de golpes psicológicos, de publicidade. E é esta guerrilha que vivemos presentemente no país, no Turismo.

Recordemos que há uma semana, tivemos os dois mais altos governantes de Espanha e de Portugal a abrirem as fronteiras entre os dois países, que encerradas foram pela prevenção pandémica. Coisa banal este acontecimento. Bastava uma troca de Ofícios entre Portugal e Espanha a acordarem a abertura e tudo ficaria resolvido. Mas não. Veio à fronteira o Rei e o Primeiro-ministro Sánchez e foram de cá o Presidente Marcelo e o Primeiro-ministro António Costa, a falar em portunhol e todos a serem filmados, bajulados, como grandes feitos que tivessem acabado de concretizar. A montanha deu à luz um rato e como dizia o meu avô: “muita parra e pouca uva”! Era o Turismo em causa. Se ao encontro  dos quatro estadistas para a abertura das fronteiras, lhe chamo banal… – muito importante, valioso, patriótico, era os nossos governantes aproveitarem o ensejo e falarem com esses maiores de Espanha, sobre o problema da devolução de Olivença a Portugal.

Olivença, terra genuinamente portuguesa que testemunha com seus imóveis, templos, calçadas e a própria história, a sua portugalidade desde 1297, e usurpada em 1801 a Portugal por “assinatura imposta a plenipotenciário português” e que, mesmo assim, teria de ser ratificado pela França o que nunca veio a acontecer. Ora nada disto falaram os governantes, nada disseram e apenas fizeram como as modelos nos palcos e nos salões: deram umas voltas sobre si mesmos e o coronavírus espanhol/português ficou vencido.

Bem sabemos dos interesses económicos em qualquer país. Não pode haver pão na maceira se não houver dinheiro na algibeira. Mas Portugal, ao contrário dos espanhóis, fizeram coisas bem feitas com o confinamento à pandemia até meio de Maio passado, mas depois – os interesses económicos – sobrepuseram-se à continuidade dos rigorosos cuidados e venceu a ambição política, a anarquia e aumentou o vírus alegre e facilmente em Lisboa/Vale do Tejo.

Fizeram-se os festejos de Abril, do 1º de Maio, houve convites específicos para saídas/entradas de pessoas, preparam-se as festas do Avante do PCP para Setembro e para “prémio dos médicos” que expõem a vida contra o covid-19, dá-se-lhes “como prémio a Champions em Portugal”, porque “é mais uma vitória antecipada de todos os portugueses”. E se friamente analisarmos a pandemia em Portugal, em favor dela temos o Turismo/Economia, isto é, estamos a preparar terreno para que exista entre nós a verdadeira importação de mais covid-19, que em Novembro/Dezembro se confirmará, chamando-se-lhe uma “segunda vaga” e teremos o factor “facilitismo social” que fará pagar os justos por causa dos pecadores.

Perante todo este cenário virológico entre nós, não admira pois que os Ingleses boicotem a Portugal o turista inglês, também por outras razões, claro está. Na verdade, não podemos deixar de dizer que, se entre nós tem existido algum descontrolo nos cuidados contra a pandemia, a Inglaterra tem muito mais descontrolo e tudo indica que entre eles ainda mais se vai agravar a pandemia até ao fim deste mês de Julho. E porque assim é, tem pouca força chamar-se atitude “absurda” dos ingleses quanto ao boicote dos seus turistas para Portugal, porque tê-los é também importar coronavírus. Logo, há necessidade de estudar uma nova forma de receber turistas e ter em conta que sempre houve e sempre haverá loucos que pensam guiar cegos: sejam Costistas, Sánchistas, Putinnistas ou Trump’istas.

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).



Mais de Artur Soares

Artur Soares - 25 Set 2020

Um ex-combatente, por Portugal, na guerra do Ultramar, escreveu o seguinte texto: “Eu fui aquilo que outros não quiseram ser. Eu fui onde outros tiveram medo de ir e realizei feitos que outros não quiseram cumprir. Eu não peço nada daqueles que nada dão, e aceito relutantemente os pensamentos de solidão eterna… eu já vi […]

Artur Soares - 18 Set 2020

S omos um povo que vibra com o futebol. Se outros ardores fossem extensivos a acções sociais, profissionais, institucionais, económicos e por aí fora, seríamos verdadeiramente virtuosos e até o coronavírus falhava. Todavia, nestes últimos vinte/trinta anos, o futebol tem grandes maleitas e pestilências. Parece não haver dúvidas da existência daqueles que gostam do futebol, […]

Artur Soares - 11 Set 2020

O país vai entrar num tempo de elevado perigo pelos efeitos da pandemia que engole pessoas. A Comunicação Social o anuncia e os especialistas, uns mais frontais outros menos, dizem que os tempos próximos serão maus. Há quem avente que nos primeiros três meses de 2021, Portugal pode ter entre cinco e oito mil mortos […]


Scroll Up