Espaço do Diário do Minho

BREVE HOMENAGEM AO INSIGNE ADVOGADO, DR. LESTRA GONÇALVES

1 Jul 2020
João Lobo

( “Eu não escrevi isto para muitos, mas sim para ti…”)

Epicuro.

No ano em curso, completa o Dr. José Afonso Lestra Gonçalves meio século de exercício da profissão de advogado. Tomo por imperativo de consciência deixar algumas notas sobre a sua veneranda figura. Esta sorte de estátua digital, imperfeita e deveras incompleta, tem por objecto, quer a veste de advogado, quer, primacialmente, o Homem que antecedeu o título e o entronizou como laudável modelo no exercício da profissão. Se na veste de advogado devo referência e nobilitado exemplo, na de Homem, devo-lhe frontalidade, inabalada amizade, estima sem mácula e leal consideração.

Quiseram as asas da Boa Fortuna que tivesse chegado ao conhecimento do Dr. Lestra Gonçalves, nos já longínquos idos de meados da década de 70 do século passado! Foi pela mão do Dr. Óscar Ferreira Gomes, que me acolheu no seu escritório, que travei conhecimento e confraterna convivialidade com uma plêiade de homens extraordinários e advogados notabilíssimos, entre os quais o Dr. Lestra Gonçalves.

Como sucedeu com outros aprendizes da arte, que por essa altura chegaram a Braga para iniciar o tirocínio na profissão, também por ele, desde os primeiros contactos, fomos havidos e tratados como pares. Se alguns, sonegadamente, nos consideravam párias, outros advogados digníssimos, de que destaco os Drs. José Ferreira Salgado, Óscar Ferreira Gomes, Cunha Coelho, Oliveira Braga, Carlos Magalhães ( filho), e alguns mais, viam em nós verdadeiros companheiros no aprender, no transmitir de conhecimentos e práticas, e no assumir as exigentes responsabilidades da profissão. Ab initio nos tomaram por iguais. Se, por vezes, as suas palavras eram breves, o nosso espírito acolhia-as favoravelmente e elas enrijavam e floresciam em nós que procurávamos a dignidade da sua luz.

Esse solidum do Dr. Lestra Gonçalves com o jovem e inexperiente colega, sem quebra, sempre o vi cultivar no mais alto grau. Depois, vi-o na relação com os colegas que lhe mereciam respeito e consideração pela verticalidade e exemplar cumprimento dos deveres exigidos pelo estatuto de advogado. E também ele, em reciprocidade, passou a ser respeitado e reconhecido por aqueles que encontravam no seu exemplo o aprumo e o prestígio que a profissão reclama e é merecedora. Sempre o recusou mas depressa lhe reconhecemos, ao lado de outros corifeus da profissão, o estatuto de primus inter partes.

Profundíssimo conhecedor das coisas da vida, sagacíssimo na análise, sempre o vi leal com os colegas, sobrepondo a escala de valores em que acreditava, e que sempre cumpriu sem quebra, a quaisquer situações que com eles pudessem colidir. Sempre lhe importou o honrar a palavra dada, a busca da equidade no desequilíbrio, a justiça equitativa no plano geral e no específico e concreto modo de ser realizada.

Na sua presença não se subia aos astros; descia-se à terra! Sempre encontrei no conselho e no seu agir comportamento diametralmente oposto ao de Aríston, o alegre filósofo, evocado por Séneca nas “ Cartas a Lucílio”, que na Roma dos Césares dava as suas lições de liteira, a altura melhor para cumprir as suas obrigações. E conta Séneca: “ Tanto que quando alguém perguntou a que escola pertencia, Escauro, respondeu: Peripatético é que não é de certeza! Também a esse homem notável que é Júlio Grecino perguntaram o que pensava de Aríston. “ Não posso dizer, não sei do que ele é capaz quando anda a pé”, respondeu”. Ora, ao Dr. Lestra Gonçalves sempre o vimos com os pés bem assentes na terra e quem com ele trabalhou ou convive sempre soube com que contar.

Bem sei que naquele plano mais vasto, de mundanal ordenação, divergíamos quanto ao método, quanto ao iter, mas a estrada em que seguíamos era a mesma, ainda que por bermas ou lados diferentes, na senda do mesmo lobrigado desígnio, do mesmo resgatado destino, do fim da obra acabada.

Crescer em direitos e em plena cidadania sempre foi meta que antepôs a cada um no intercâmbio coexistencial. Em contraponto à digna autonomia, a caridade sempre lhe repugnou. Bem sabíamos que lançar um osso a um cão não era caridade. Mas se houvesse que a praticar, caridade era partilhar o osso com o cão quando se tem tanta fome como ele.

Talvez por isso, – e apesar da paixão com que defendia, e defende, as suas convicções-, nunca, durante meio século, entre nós tivesse rompido pendência, atrito ou conflito. O Dr. Lestra Gonçalves é sobre tudo sentimento incontida paixão que sempre reclamou, na esfera comum, viver honesto e honrado para todos. E quem, de boa-fé, nesse desígnio não o deveria, ou não deve, acompanhar?

Lembro-me, como se fosse hoje, de como, no estio ardente de 1975 ou 1976, quando a amizade despontava esta nos fez perigar a vida. Tínhamos tomado café no “Rosil”, no fim do jantar, e encontrávamo-nos na esquina que dá acesso da Avenida da Liberdade à Rua de Diu, junto ao semáforo da passadeira, na companhia do Dr. Cunha Coelho e do saudoso solicitador Francisco Mota Vieira, quando um doido varrido e assecla a soldo, que conduzia um Toyota de cor branca, parou o automóvel, abriu a janela do lugar a seu lado e nos apontou uma pistola-metralhadora durante largos segundos, afirmando que ali mesmo nos matava! Entre nós e o cano da arma não distava mais do que um metro!

Sem vacilar, esperamos a nossa hora que, sabe-se lá porquê, ainda não tinha chegado. Mas eu, que ficara estarrecido, percebi como nos meus companheiros de ocasião não habitava o temor, ou o medo, que não conheciam.

Por esse tempo, com outros outros profissionais do foro, pedibus calcantibus, acompanhei-o numa histórica expedição, desde a Portela do Homem até aos subidos e ermados Carris, nove quilómetros bem puxados, plena de tantas vicissitudes e aventuras, jamais deslembrada. Ainda agora o vejo, de machado ao alto, tumba, catatumba, derrubando esguio eucalipto, que, depois de esgalhado e aparado, nos entregou, a mim e ao Tomé, no qual, encosta acima, entrouxada e à dependura, deveríamos carregar parte indispensável das vitualhas de passadio.

E também me recordo de alguém do grupo ter retirado da mala do automóvel um saco de batatas de 50 kgs, que se propôs alombar pelo festo da quebrada até que nos Carris assentássemos acampamento de semana. E o troar das pedras do dominó que, entre as partidas, no baralhar, giravam em rodízio numa vasta panela de alumínio, na noite de breu, por cotos e valeiras, espantando avejões e almas-penadas que por aí se aguaritassem.

E da sumária investigação que, altas horas da noite, alguém quis levar a cabo num pego do rio Homem, por nele ter sonhado, aos revérberos de altas labaredas, o mergulhado fantasma de um cadáver; o café que, pela alba, engenhei numa cafeteira pousada sobre brasas, que deixou agoniados os que tiveram a desdita de o terem sorvido entre as sombras que desvaneciam e antecipavam o raiar do dia.

E a súbita bruega trazida por inusitada trovoada que, sem se saber como, desabou de um céu azul e fino que nos acobertava nos despenhadeiros, por onde exercitávamos a arte venatória. O tempora! O mores!

E lembro-me também de como entre os quefazeres de S. Ivo e os operosos trabalhos de S. Huberto, batemos as lebres na Soeira, as galinholas em Talhas, os invencíveis desfiladeiros de Penhas Juntas, e calcorreámos as margens declivosas do caudaloso Rabaçal, desmontando do voo perdizes de guizo ao pescoço que se erguiam dos tufos das giestas girando asas que volteavam como pás de helicópteros, ou arpoando do rio trutas de medida que abocanhavam alimento à saída de ressoantes cachoeiras.

E do inaudito episódio de que foi fautor um dos nossos companheiros que, apesar de todo inexperiente, arpoou do Rabaçal, sabe-se lá donde e como, uma dúzia de trutas de kilo com que fez esbordar o cacifo e que nesse dia miraculoso nos levou a palma.

Era nestes momentos, ausentes da sabedoria de compêndio, em que aquela se cingia às acções, que a fraterna convivialidade do Dr. Lestra Gonçalves emergia mais intensamente. Nas expedições que, também em alargado grupo, durante longos anos, fizemos a Vinhais, quer na época de caça, quer na época de pesca, vivemos outros momentos inolvidáveis.

Dono de uma sageza que brotava de um saber de experiência feito, olhar sobressalente, quedado no trepidante fluvial do struggle for life, resoluto no empreender, com sua facécia nos lábios e de todo repentista, ali estava o Dr. Lestra Gonçalves firmando vulto no mundo.

Sempre colhi nele o pensamento conforme à máxima de que a via que conduz à dignidade é extremamente árdua; que, em dadas ocasiões, urge levantar a voz contra a rasoira comum que seduz a multidão, vazado no discurso dominante; que o Direito do Estado não equivale à Justiça, “ao dever-ser-que-é,” intermediada pela sã consciência de advogados e juízes. Sempre foi dele, como em poucos, o reino da liberdade, da justiça e da amorosa afeição aos seus.

Trafulhas e outros do mesmo estalão nunca os vi tratar com mercê. Se ao caso rompiam, vinha a frase áspera, sacudida, taumatúrgica. Nunca tolerou que o desprezo pela moral pudesse ter invadido quase todos os domínios; que nada se considere ignóbil quando se pode pagar o preço. Na sua radical autonomia, vezes sem conta, me fez lembrar o ditame epicurista: “ Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber”.

Desse meio século de convivência, como Vergílio, também o Dr. Lestra Gonçalves poderá dizer: “vivi, cumpri o curso que a fortuna me deu.” Oxalá assim continue por muitos anos e assim nós vivamos para lhos contar.



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