Espaço do Diário do Minho

(Re)descubramos também o lado de dentro
30 Jun 2020
João António Pinheiro Teixeira

1. Numa altura em que muitos estão a morrer – e em que tudo parece desfalecer –, não será pertinente olhar também para o que pode estar a nascer?
A vida é um contínuo recomeço. E cada recomeço não há-de ser uma mera sucessão. Terá de procurar ser uma luminosa transformação.

2. Afinal, um simples vírus destapou a nossa pavorosa fragilidade testificando como tudo acaba por ser «desprogramado».
Temos, pois, de dar mais lugar à surpresa, à escuta e à interioridade. São domínios em que nos temos mostrado bastante desatendidos e deficitários.

3. Adolfo Montiel Ballesteros notou com subtileza conspícua: «Só conseguimos encontrar do lado de fora o que possuímos no lado de dentro».
Mas, pela amostra, nem durante o confinamento, cultivámos devidamente este «lado de dentro».

4. A nossa vocação é sair. Mas a experiência mais elementar diz-nos que saímos sempre de dentro.
É sabido que chegámos cá fora, ao mundo, depois de passarmos largos meses lá dentro, no lugar mais seguro do mundo: o ventre da nossa Mãe.

5. É por isso que aquilo que acontece dentro é vital para o que somos fora. Só que, hoje em dia, mostramo-nos muito disruptivos. Cuidamos pouco do lado de dentro.
Temos uma tremenda dificuldade em entrar e em estar. Mas entrar e estar é essencial.

6. É preciso saber entrar e estar: dentro de nós, dentro dos outros, dentro do mundo, dentro de Deus.
Não é por dentro que as coisas são, como sabiamente lembrou Raul Brandão?

7. O actual desconfinamento era inevitável. Mas há quem o tenha aproveitado para fazer tudo o que fazia, mesmo o que era dispensável.
O tempo continua a derramar apelos ao recato possível. Não só para evitar o contágio, mas também para exercitar a escuta, tecida de silêncio e aberta à esperança.

8. Não nos podemos portar como «autómatos» descontrolados e a semear perigos. Aprendamos com o Filho de Deus, que habita eternamente no «seio» («kólpos») do Pai (cf. Jo 1, 18).
Sintomaticamente, em 675, o XI Concílio de Toledo proclama que o Filho foi gerado «do “útero” do Pai» («ex utero Patris»). É, portanto, da interioridade eterna de Deus que o Filho vem ao mundo exterior.

9. Recolhidos não é o mesmo que inactivos.
No meio de tanta adversidade, avultam sempre oportunidades.

10. Num mundo em que tudo se revela descoberto por fora, não terá chegado o momento de empreendermos a – tão imperiosa – (re)descoberta do lado de dentro?
Um pouco mais de pausa – e de menos agitação – não será um óptimo estímulo para o relançamento da missão?



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