Espaço do Diário do Minho

Primeiro passo atrás

30 Jun 2020
Luís Martins

Tinha sido anunciado que podia acontecer, mas podia não ter sido usado se tudo corresse bem. Não está a correr. E a culpa não é só dos jovens, embora a irreverência destes esteja a ter consequências. O presidente e o primeiro-ministro têm maior culpa. Mas, não forem eles os que fizeram maior pedagogia? É verdade, mas vulgarizaram a mensagem. Explico-me melhor… A função pedagógica de um e de outro, que teve importância positiva no início, deixou de funcionar a partir de certa altura, seja pela frequência com que acontecia, seja pelo descuido verbal com que o faziam. E quando foi decretado o desconfinamento, ambos foram imprevidentes ao chamarem os jornalistas e as televisões para mostrarem como eles desconfinavam. Escolheram iniciativas inapropriadas e a vulgaridade fez lembrar as presenças dos concorrentes dos bigbrothers televisivos. Saíram furadas as demonstrações e tendo ambos colocado, de um momento para o outro, a tónica na economia, passaram a ser maus exemplos. E o pior é que isso não significou que os exemplos não fossem imitados… Os maus exemplos são sempre imitados, seja por quem não dá conta disso, seja pelos que vêem no exemplo um escape para dar azo às suas necessidades e vontades. Tendo-se apresentado em ajuntamentos – não importa que fossem considerados culturais – ou aparecido em campanhas de consumismo, sempre abundantemente acompanhados, estragaram a bondade e a pedagogia do recato. Comportando-se como desconfinantes a sério abriram uma brecha de difícil conserto na estrutura do barco. Portugal foi considerado um bom exemplo a nível europeu. Já não é. Foi preciso dar um passo atrás na vida das pessoas e na economia de muitas empresas de Lisboa e Vale do Tejo numa resposta pública, ainda para mais, tardia, quando a experiência anterior permitia fazer melhor e mais oportunamente. Portugal arrisca ficar sem muitos turistas estrangeiros depois de ter estado à frente nos destinos de férias mais seguras. O presidente até pode dizer que Portugal não está pior, mas deixou de ser um caso exemplar. E há o risco da situação de complicar se as regras continuarem a não ser acompanhadas de vigilância mais alargada e persistente. A probabilidade de não serem cumpridas aumentará se tudo continuar na mesma. Mas pode ser que o nervosismo detectado em Costa, atenta a falta de paciência que lhe inquieta a etiqueta, queira significar maior atenção ao problema. Mas, há outras vertentes onde é preciso actuar, como é o caso dos transportes. Para se respeitarem os normativos e ser possível às pessoas acederem aos locais de trabalho, os responsáveis têm que prover a melhoria das condições de mobilidade. As pessoas têm que trabalhar e a maioria não se pode dar ao luxo de utilizar viatura pessoal. Algumas nem sequer a têm. Nota-se isso, particularmente, em Lisboa, mas haverá certamente outras localidades em que o transporte é um problema. Quando os autocarros circulam cheios não se contribui para a segurança das pessoas!

Manifestações, sim, ajuntamentos, não! Não se compreende a dualidade. A política não devia dar o exemplo? Infelizmente há quem insista em gozar com os portugueses, caso de Jerónimo de Sousa, ao insistir com uma festa que vai juntar mais pessoas do que as vinte permitidas e que a reboque da liberdade de expressão foge aos limites que a lei define. Pena que nem Marcelo nem Costa se pronunciem sobre o assunto, se bem que o último já se lhe referiu veladamente, mas para lhe dar calor. Não é de admirar, embora se possa criticar o gesto, tendo em conta que Jerónimo vai continuar a ser preciso para viabilizar os próximos Orçamentos de Estado e como este sabe isso dá-se ao desplante da irresponsabilidade que é prosseguir com a realização do evento. E há quem ache que os partidos de esquerda não têm tiques capitalistas! Mas, pode ser que a procura desenfreada do lucro seja mal vista pelos eleitores e façam um manguito quando Jerónimo lhes voltar a pedir o voto. Tenho para mim que ainda vai acusar a pandemia do insucesso eleitoral do seu partido!



Mais de Luís Martins

Luís Martins - 11 Ago 2020

Não me refiro àquele gesto que nos é recomendado, ainda mais nos tempos que correm, para fazermos com relativa frequência. Mas ao relaxe sobre a Festa do Avante e à aceitação incondicional da sua realização. Não há braço de ferro, nem sequer a dúvida de que a mesma irá acontecer mais ou menos como os […]

Luís Martins - 4 Ago 2020

Já há quem se tenha vinculado – “vou votar em Marcelo Rebelo de Sousa” –, como fez um ex- presidente do Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP). Mas, antes, já o Primeiro-Ministro António Costa tinha convidado o actual Presidente a recandidatar-se, antecipando-se à decisão do seu partido, o que foi entendido, sem grandes dúvidas, de que […]

Luís Martins - 28 Jul 2020

Não tem quase nada a ver um assunto com o outro, a não ser no facto das decisões colidirem com posicionamentos anteriores que a história sempre arquiva para memória futura. 1. Não tenho como negativa a decisão de terminarem os debates quinzenais na Assembleia da República com a presença do primeiro-ministro. Na maior parte do […]


Scroll Up