Espaço do Diário do Minho

Para uma gramática da hospitalidade (II)

29 Jun 2020
P. João Alberto Correia

Terminávamos a reflexão da passada semana dizendo que a hospitalidade é um dos traços essenciais da humana forma de ser e de estar. De facto, a identidade humana e cristã articula-se em torno da hospitalidade, trama onde se tece a vida, nas suas diversas formas, momentos e expressões. A inteligibilidade e credibilidade da vida humana, em geral, e da vivência e testemunho cristãos, em particular, dependem da gramática da hospitalidade que, além de categoria vital, é também lugar teológico e uma das melhores ferramentas para a construção da identidade e da comunidade cristã.
É na comunidade crente que a hospitalidade se torna tangível, testemunho eloquente para os de fora e clima caloroso para os de dentro. Estes não pretenderão sair dela e aqueles talvez coloquem a hipótese de nela entrar. A comunidade cristã constrói-se pelas vias da inclusão, do lado da hospitalidade. Não há outro caminho para que ela seja verdadeira comunidade e não haverá para ela melhor designação do que “casa da hospitalidade”, entre os seus, onde é a expressão da fraternidade dos cristãos, e para com todos: “a catolicidade não se manifesta somente na comunhão fraterna dos batizados, mas exprime-se também na hospitalidade assegurada ao estrangeiro, qualquer que seja a sua pertença religiosa, na rejeição de toda a exclusão ou discriminação racial e no reconhecimento da dignidade pessoal de cada um, com o consequente compromisso de promover os seus direitos inalienáveis” (João Paulo II, O acolhimento e a integração do estrangeiro…, p. 7).
Na viagem da vida, integrados numa comunidade, os cristãos são convidados a dispensar acolhimento a todos, dando primado à escuta do outro (Outro) e assumindo-a como instância de epifania. “Escutar o outro quando ele deseja ser escutado é uma exigência ética, um acto de cortesia, mais ainda, é um acto de hospitalidade” (F. Torralba, A arte de saber escutar, p. 32).
Além da escuta, também o caminho, a viagem ou itinerância se assumem como referentes da hospitalidade: sente a necessidade de ser acolhido e sabe acolher quem faz a experiência do caminho, percebe a sua existência como tal e reconhece que o mundo deixa de ser inóspito quando o acolhimento se afirma como imperativo existencial e teológico.
Para além da palavra e do caminho, também a mesa é lugar de hospitalidade e espaço de revelação, porque “todo o hóspede traz como dom a narração da sua história” (M. Vetta, La cultura del simpósio, p. 126). Se todas as mesas dos lares cristãos são espaços de revelação e de aprendizagem da fé, é sobretudo na mesa da Eucaristia que tal acontece. A celebração da Eucaristia – aberta a todos os povos, de todas as raças, culturas e condições sociais – é base imprescindível para o processo da construção da identidade crente e ponto de partida para o anúncio da mensagem cristã.
Reunindo gente das mais diversas procedências étnicas e culturais e preconizando um novo tipo de relações sociais, pela hospitalidade, a comunidade cristã assume-se como inclusiva, tornando-se não apenas acolhedora, mas também fonte de consolação e de cura (H. J. M. Nouwen, O curador ferido…, p. 113). Só nestes registos ela continuará a ser verdadeira comunidade cristã e a dar testemunho do que é. Não há dúvida de que é na comunidade crente que, em atitude de acolhimento celebrativo, se constrói a identidade cristã (Eucaristia) e é no regresso a ela que a identidade ferida se refaz (Reconciliação).



Mais de P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia - 21 Set 2020

A 13 de setembro de 335, o Imperador Constantino e Helena, sua mãe, consagravam, em Jerusalém, a grande Basílica da Anástasis (“ressurreição”, em grego), depois chamada do Santo Sepulcro, pelo facto de ter sido erguida sobre o lugar da sepultura de Jesus. No dia seguinte, 14 de setembro, começou a veneração da Cruz, facto que […]

P. João Alberto Correia - 14 Set 2020

A correção fraterna e o perdão (temas da Liturgia da Palavra dos dois últimos Domingos) são duas realidades tão essenciais à vida, na sua expressão individual e comunitária, que andam de mãos dadas e, talvez por isso, aparecem associadas no “discurso eclesial” (Mt 18). A correção fraterna exige delicadeza da parte de quem corrige e […]

P. João Alberto Correia - 8 Set 2020

É fascinante e, por vezes, misteriosa a figura do profeta bíblico, no momento em que é chamado (assim o atestam os relatos da sua vocação) e, sobretudo, no exercício da sua missão, anunciando a Palavra de Deus e denunciando os comportamentos do povo. Se o termo hebraico nabi’ (profeta) parece ter como significado fundamental “aquele […]


Scroll Up