Espaço do Diário do Minho

O PEDITÓRIO

29 Jun 2020
M. Moura Pacheco

A TAP (Transportes Aéreos Portugueses) é uma companhia de aviação fundada nos idos da Segunda República/Estado Novo, que, rapidamente, ganhou prestígio internacional pela qualidade do seu serviço, nomeadamente da sua segurança e da gentileza e eficiência do seu pessoal.
Mas o prestígio por aí se ficou (e já não era pouco). Porque no plano económico e financeiro nunca foi exemplo de gestão que prestigiasse ninguém.
Mas como ter uma companhia de bandeira era um berloque na lapela do Regime de então, até Salazar aceitava que um país pobre tivesse luxos de país rico, sustentando com o dinheiro dos contribuintes uma companhia de aviação própria e… deficitária.
Curiosamente, a Terceira República, tão crítica da Segunda, herdou-lhe este tique pelintra de fingir uma fortuna que não tem para manter as aparências de um luxo sem cabedais que o suportem. Herdou-lhe o tique e os argumentos: o prestígio que é para o país; o fomento do turismo que traz divisas; uma rede com a diáspora; uma comunhão com os países amigos; e outras razões do género, igualmente bonitas e atendíveis… se não nos ficassem tão caras.
Porque nos seus 75 anos de vida apenas em meia dúzia, ou menos, a companhia não deu prejuízo. Nos outros, quem a sustentou, quem pagou o luxo, foram os contribuintes portugueses, pobres ou ricos – os que viajam muito na TAP, os que viajam pouco, os que nunca andaram de avião e os que não andarão nunca. Mas é a estes que, todos os anos, através dos seus impostos, se pede mais um «sacrificiozinho».
Foi para se ver livre deste poço sem fundo que o Governo Passos Coelho, bem ou mal, vendeu esta máquina de sorver dinheiro que exauria o erário público. A lembrar aquele nobre falido mas honrado que vende carruagem e cavalos, despede cocheiro e trintanários porque não tem com que os sustentar. Mais vale pobre assumido que pelintra pretensioso.
Não foi esse o entendimento do Governo que se seguiu, que logo acorreu a re-comprar a máquina que continua a sugar o suor contribuinte.
Daí, novo «peditório». Desta vez «só» mil e duzentos milhões de euros! Que, claro, virão dos bolsos dos contribuintes!
Foi com muita pena, com desgosto mesmo, que vi Portugal desfazer-se de uma peça do seu património que o prestigiava, que o adornava e que, enfim era «nossa». Mas que era um luxo que o nosso orçamento dificilmente suportava. Compreendia, e compreendo, que um país com sucessivos «superavit» no seu orçamento possa ter o orgulho, o luxo e mesmo a vaidade de uma companhia sucessivamente deficitária. Mas não é o nosso caso.
Não é que uma companhia nacional tenha que, forçosamente, dar lucro. Mas, num país como o nosso, não pode nunca dar prejuízo. A solução é prescindir desses fumos de importância.
Para a minha terra preferirei sempre a honradez de uma modéstia limpa à pelintrice travestida de novo-riquismo de aluguer.
É por isso que para esse «peditório» eu não dou. A «esmola» vai ser-me, de todo o modo, «extraída» dos meus impostos. Mas não é dada, é «extraída». Assim, não é peditório – é extorsão.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.



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