Espaço do Diário do Minho

Estranhos caminhos

29 Jun 2020
Narciso Mendes

Em 4 de Maio de 1974, o Expresso publicou uma entrevista a Agostinho Neto o qual, num excelente português, afirmava: “o MPLA está pronto a dar todas as garantias de continuidade de uma população branca em Angola desde que, como todos os habitantes do país, se submeta às leis e aos supremos interesses do Estado Angolano independente”.
Bonitas palavras! Só que depois foi o que se viu: a perseguição e a debandada dos colonos que lá faziam as suas vidas; e a seguir, 30 anos de uma sangrenta guerra, entre movimentos independentistas angolanos, que deixara o país abandonado às sortes dos ventos soprados pelo marxismo-leninismo sobre o MPLA, cujo poder exerce até aos dias de hoje. E a Guiné? Essa viraria entreposto de tráfico de droga. E Moçambique? Bem, esse anda a ser minado pelo Jihadismo, com os massacres que se conhecem.
Por tais instabilidades, é que nunca se viram tantos africanos em Portugal como hoje, onde estudam e trabalham. E até eu próprio conquistei amizade com alguns deles, partilhando momentos de sã camaradagem. No entanto – tal como afirmava Neto – “as leis e os supremos interesses de um país” são para serem observadas. Um equilíbrio que vai faltando, por aí, minado pelo extremismo violento, cada vez mais desprovido dos valores humanos, pregados pelo evangelho, em que Cristo manda que nos amemos uns aos outros, sem especificar cores de pele.
Ora, a reação dos movimentos surgidos após a bárbara execução de George Floyd pela Polícia dos Estados Unidos da América, só veio demonstrar que nem o próprio Obama em dois mandatos conseguiu eliminar – ou controlar – o racismo nas autoridades policiais, nem na população. Apenas o adormeceu. Acordando, agora, na vigência deste empalhado Trump que o povo elegeu para Presidente. O que nos faz pensar que mais difícil se torna de riscar do mapa as descriminações – lamentavelmente presentes na cabeça de muitas pessoas – devido aos atos de destruição do património.
Obviamente, que os radicalóides têm aproveitado as manifestações antirracistas, no intuito de provocarem o caos nas sociedades; destruírem as suas referências históricas; decidirem, sumariamente, o que é ou não para ser derrubado e o que pode, ou não ser visto. O que acabou por acontecer um pouco por todo o mundo e no nosso país também, onde foram “mimadas” com pichagens e palavras injustas sobre algumas estátuas de personalidades que fizeram parte da nossa história. E para começo, decidiram fazê-lo na do Padre António Vieira, missionário e defensor dos índios, no Brasil. O que só pode ter sido um autêntico ataque á Igreja Católica por parte do ateísmo que a tenta minar. Numa perseguição aos cristãos, encapuçada de luta antirracial e anticolonial, esta já sem sentido.
Estas ondas poderão derrubar monumentos, espolinharem-se contra o colonialismo exercido pelos nossos antepassados, ou definirem o que deve ser purgado dos livros das nossas escolas. Porém, só não conseguirão esvair o sangue lusitano que nos corre nas veias, herdado dos nossos egrégios avós que deram a vida – aqui ou além – pela pátria; nem a fé. É que por este andar, arriscar-nos-emos a assistir – um dia destes – à perseguição aos combatentes das ex-colónias por terem andado a dar fogo em África, apesar de a mando dos governantes de então.
Uma emenda bem pior de que o soneto, pois a par de banirem o racismo humano passaram a banir a “incómoda” estatuária, a que até Churchill – que derrotou o nazismo e contribuiu para a paz e a liberdade na Europa – não escapou. Nem Lincoln e Colombo. Bem como o filme “E Tudo o Vento Levou” que fez com que uma atriz afroamericana tivesse ganho um óscar pelo seu desempenho. E é a isto que chamam progresso? “Estranhos caminhos” os escolhidos.
Mas o que mais me espanta é que nos países de ditaduras comunistas, como na China ou na Coreia do Norte, nada disso suceda. É que nas escassas imagens – que deles nos chegam – não conseguimos enxergar, por lá, um só cidadão de origem africana.



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