Espaço do Diário do Minho

A palavra e os minhoqueiros
29 Jun 2020
Paulo Fafe

Palavra fora da boca, é pedra fora da mão, diziam os meus mais velhos chamando a atenção para aquilo que dizíamos e muito mais para aquilo que os outros diziam que nós dissemos. Sabiam por experiência que as interpretações dadas pelos maldizentes às nossas palavras inocentes, se poderiam converter em outras: malévolas, repletas de segundos sentidos, lobo vestido de cordeiro, enfim palavras do demónio com asas de anjo. O mesmo aviso nos deixou Vitor Hugo, quando numa composição poética nos diz, “tomai cuidado no que dizeis porque tudo pode sair duma palavra”. Este aviso, do autor de Os Miseráveis, vem reforçar aquilo que os nossos avós, duma maneira mais prosaica, nos deixaram em moldes de ditado popular. Vem isto a propósito das palavras do sr.primeiro-ministro, António Costa, quando se referiu às finais do futebol europeu em Portugal. E, na sua boa e justa vontade de homenagear os médicos e enfermeiros e auxiliares da saúde pela sua abnegada dedicação ao combate da pandemia, quis, deste jeito, prestar-lhe o devido agradecimento. É um facto que uma coisa parece nada ter com a outra e que há quem, olhando para o frigorífico e fazendo uma política de mercearia, pretendesse antes que a homenagem aos servidores da saúde pública se traduzisse em mais bacalhau, mais arroz e mais batatas. As intenções, para estes, resumem-se a coisas; o reconhecimento e satisfação que se experimenta quando o nosso serviço tem reconhecimento público, para eles não conta. É vento que apenas abana a ramaria mas não agita o ego. São assim os que gostam de apanhar as palavras para as transformar em pedras fora das mãos. Não lhes gabo o gosto mas há que aceitá-las na medida da resignação cristã. As palavras só são perigosas para quem as torna perigosas, para quem tem por hábito e costume procurar o lado não dito e torná-lo dito, fazendo da simplicidade e clareza da intenção um lado opaco e sujo de suspeições. A comunicação social, principalmente aquela que obedece ao princípio do escândalo como meio de subsistência e nisto se viciou, procura nas linhas e entrelinhas o veneno com que possa pôr o homem a morder o cão; fazem da minhoca um elefante. Antes que malsinem as minhas deduções desde já aviso estes senhores que não venho aqui defender o sr.primeiro-ministro, nem ele precisa, nem tenho categoria para tanto, nem busco contrapartidas que, por vezes os minhoqueiros (desculpem o coloquialismo), procuram para proveito próprio. São estes os mestres dos ditirambos. Venho aqui porque sempre repudiei essas minhoquices que buscam incessantemente o lugar debaixo das pedras, preferindo as tocas, em vez da grandeza dos ares livres e arejados dos prados. Infelizmente as redações dos órgãos de comunicação, algumas e não todas, são o caldo desta cultura jornalística. E venho aqui, e aproveitando a circunstância das palavras mal interpretadas do sr. primeiro-ministro, para dizer que todas as homenagens que se possam fazer aos profissionais de saúde, que arriscaram a própria vida para combater a pandemia da covid 19, são poucas, são parcas e são pequenas. Talvez um grande acontecimento desportivo, como as finais dos europeus de futebol , em Portugal, tenha dimensão internacional para se ver quanto lhes devemos, e, nessa dimensão e evidente visibilidade, a possamos associar aos profissionais de saúde que deram tudo no altruístico combate, inclusive a vida; é uma justa homenagem porque tem o nível de grandeza que eles merecem. Julgo que deste jeito o percecionou o sr. Presidente da República quando há dias saiu em defesa do primeiro-ministro a respeito desta “grande e enorme questão nacional” sobre a associação do futebol ao agradecimento aos profissionais de saúde. São assim as pessoas que trocam a intenção pela proposição. São assim os minhoqueiros. Sr. Presidente, o génio não basta para chegar aos pobres de espírito. Da mesma maneira que não podemos ter sombras direitas de árvores tortas.



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