Espaço do Diário do Minho

Recordar S. João Batista

24 Jun 2020
Silva Araújo

Sem o espalhafato habitual, S. João Batista não deixa de ser celebrado. E a melhor forma de o fazer é recordar o testemunho de vida que nos deixou e de que vou recordar alguns traços.

1. É chamado o Santo Precursor. Teve como grande missão preparar as pessoas para receberem o Messias na pessoa de seu primo, Jesus (Lucas 1, 13-17; João 1, 19-34). Foi, diríamos hoje, um grande evangelizador e um grande catequista. Um homem que pregou sem se pregar. Sem se exibir. Moveu-o a preocupação de levar as pessoas a seguirem Jesus. Face ao ciúme de discípulos seus, receosos pela concorrência da pregação de Jesus, a sua reação foi esta: que ele cresça e eu diminua.
É desejável que o catequista seja uma pessoa simpática e que os catequizandos sejam amigos seus, mas o grande trabalho do catequista é procurar que os catequizandos sejam amigos de Jesus.

2. Quem tem a tentação de sobressair apoucando os outros, recorde o seu exemplo. Soube reconhecer a superioridade de Jesus, considerando-se indigno de lhe desatar as sandálias (Marcos 1, 7-8; João 4, 25-30). Foi imune aos vírus da vaidade e do orgulho, levando uma vida simples e humilde. Não soube o que era pôr-se em bicos de pés.
Soube sair no momento próprio. Não esteve preso ao cargo. Quando entendeu que devia sair, apagou-se. Simplesmente.

3. Praticou João Batista uma grande austeridade de vida (Mateus 3, 4). Não andou à procura de grandes costureiros nem de roupas de luxo: pêlos de camelo e cinto de couro. Soube ver que o prestígio não estava no sumptuoso das vestes. A sua alimentação foi de uma frugalidade a toda a prova: gafanhotos e mel silvestre.
Isto de andar preocupado com vistosas fardetas e de alertar constantemente para as situações de pobreza não se dispensando de ter a própria mesa muito bem provida…

4. João Batista não teve dois discursos: um para os homens do poder e outro para a arraia miúda. O que em consciência devia dizer dizia-o, fosse diante de e a quem fosse. Soube chamar erro ao erro, independentemente da qualidade ou do estatuto da pessoa que o cometia. Para ele os crimes cometidos por pessoas de colarinho branco não deixavam de ser denunciados (Lucas 3, 19). Não hesitou em dizer a Herodes que lhe não era permitido viver maritalmente com a cunhada.
Este amor à verdade teve um preço: despertou a vingança de Herodíade; fê-lo conhecer a prisão na fortaleza de Maqueronte; a sua cabeça foi servida numa bandeja (Marcos 6, 17-29). Mas não se acobardou.

5. Apelando à conversão, pregou a justiça e o amor ao próximo: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo». Aos cobradores de impostos recomendou: «nada exijais além do que vos foi estabelecido». Disse aos soldados: «não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo» (Lucas 3,10-14).

6. João Batista cumpriu e prestigiou a missão que lhe foi confiada. Pregou a penitência e ele mesmo a praticou. Não se serviu do cargo para sua promoção pessoal. Não foi, em linguagem de hoje, um carreirista nem um oportunista. Por isso, dois mil anos depois, o recordamos e veneramos.
Começou a pregar quando Tibério era imperador romano; Pôncio Pilatos, governador da Judeia; Herodes Antipas, tetrarca da Galileia (Lucas 3, 1-2). Quem hoje os recorda e lhes faz festa?

7. Neste relativo silêncio imposto pela pandemia do Coronavírus importa saber ouvir a mensagem de João Batista. Seguir, nos tempos de hoje e junto dos homens de hoje, o exemplo que nos deixou. Morto por quem detinha o poder, não deixou de ser elogiado por Jesus: «entre os nascidos de mulher não há profeta maior do que João» (Lucas 7, 24-28).



Mais de Silva Araújo

Silva Araújo - 6 Ago 2020

1. Recordo palavras do Papa Francisco proferidas no Dia dos Avós: «Na memória dos Santos Joaquim e Ana, os “avós” de Jesus, gostaria de convidar os jovens a fazer um gesto de ternura para com os idosos, especialmente os que vivem sozinhos, nos lares e residências, aqueles que não veem os seus entes queridos há […]

Silva Araújo - 30 Jul 2020

O programa pastoral da Arquidiocese Para 2020/23 tem por título «Uma Igreja Sinodal e Samaritana». Proponho-me fazer uma reflexão sobre cada uma destas três palavras. 1. Igreja. O vocábulo deriva, através do latim, do grego ekklesia e pode traduzir-se por assembleia convocada e reunida. Hoje pode designar realidades como: a assembleia litúrgica convocada e reunida […]

Silva Araújo - 23 Jul 2020

1. Escrevo a pensar no Dia dos Avós, que se celebra no dia 26. Estou persuadido de que a presença dos avós na família deve ser refletida numa dupla perspetiva: na do que os avós são para a família e na do que a família é para os avós. É o que – com lacunas, […]


Scroll Up