Espaço do Diário do Minho

Os 75 anos de Hiroshima e Nagasaki e o reescrever da História

24 Jun 2020
Carlos Vilas Boas

No próximo mês de Agosto completam-se 75 anos desde o lançamento das bombas atómicas no Japão, a Little Boy sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945 e 3 dias depois a Fat Man sobre a cidade de Nagasaki.
Sempre me horrorizei com essa tremenda dark hour do planeta. Tenho de memória a leitura de um livro na década de setenta do século passado, cuja autoria atribuo ao Monsenhor Américo F Alves, Assistente Regional de Braga do CNE, em que o relato duma visita ao Japão, suponho que por ocasião do Jamboree de 1971 junto ao Monte Fuji, continha passagens sobre os relatos dramáticos de sobreviventes que ouviu nessas cidades e que muito me impressionaram.
O que lembra a figura de Baden Powell, uma referência da minha juventude, cujo “escutismo para rapazes” contribui desde 1907 para que os jovens sejam cidadãos ativos na construção de um mundo melhor. Venho a saber que no movimento global de revolta que sucedeu à morte brutal de George Floyd, pela injustificável pressão prolongada no pescoço feita pelo joelho do polícia Derek Chauvin, numa traição ao lema “protect and serve” que jurou cumprir, a sua estátua em Coimbra foi decapitada e a sua estátua em Poole, no sul da Inglaterra, vai ser removida para evitar a vandalização por alegadas simpatias nazis.
A onda de choque gerada pela morte de Floyd não poupou estátuas de figuras históricas até há pouco intocáveis, desde Cristóvão Colombo, passando por Winston Churchill e acabando entre nós com o Padre António Vieira, uma  das grandes personalidades da História do país, progressista para aquela altura, dos maiores escritores e oradores portugueses, como o classificou o Presidente da República.
O movimento de reescrita da História aporta perplexidades. Leio um artigo no “The Guardian” de Charlotte Riley, professora de História na Universidade de Southampton – “não te preocupes com o reescrever da História, pois é o que nós, os historiadores, fazemos”. A autora tem em curso a escrita do livro “Imperial Island” em que se propõe rever a História imperial britânica dos pós guerra.
Pode contrapor-se que a História deve ser assumida como um todo. Eu continuarei a ver em Churchill o político e orador brilhante, vitorioso contra o nazismo, paladino da democracia e não o Winston colonialista. Não que me envergonhe de mudar de opinião, porque não me envergonho de pensar, como dizia Blaise Pascal, mas porque tenho clara a exigência da rejeição da discriminação em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual (artº 13º, nº 2 da CRP). Mas os atos de vandalismo nunca poderão servir para desviar a atenção da importância destes valores.
É neste contexto de reescrita da História que aguardo o debate que seguramente se realizará a propósito dos 75 anos do lançamento das bombas atómicas, sobretudo pelos próprios americanos. A sua condenação nunca foi assumida e o argumento militar que vem sustentando a ética da decisão de Truman, face à alternativa da morte de centenas de milhares de soldados americanos com a invasão do Japão, que não aceitou a declaração de Potsdam, será agora reforçadamente contraditado com a inglória conquista à custa de duas bombas que dizimaram centenas de milhares de vítimas civis inocentes. Entende-se, inclusive, hoje, que nem foram estas nem a própria declaração de rendição radiofónica do imperador que convenceram as forças nipónicas, mas sim a conclusão que seria melhor a rendição aos americanos, que asseguravam a permanência do imperador, que aos soviéticos que tinham acabado de invadir a Manchúria.
Guardo como das melhores recordações de viagens a impressionante visão da Estátua da Liberdade no ferry à chegada a Liberty Island, aprecio o sistema americano do checks and balances, mas apoiaria a petição dos 69 cientistas contra o uso das bombas. O próprio Eisenhower, então comandante supremo das forças aliadas e mais tarde presidente dos EUA, desaconselhou o seu uso.
Interrogo-me se Enola Gay, mãe de Paul Tibbets, comandante do bombardeiro que lançou a primeira bomba atômica, teria estimado ficar para a História como o nome do avião que a transportou.



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