Espaço do Diário do Minho

A lei da arapouca

23 Jun 2020
Luís Martins

Como admiti na última crónica, volto hoje à história do rato que sabia de finanças para precisar um ou outro aspecto e lhe acrescentar outros.

Depois de Teno ter saído pela porta de trás da toca, houve alguns que se movimentaram e quiseram impedir, por lei, que o protagonista transitasse para outra toca. Foi então que se começou a discutir a “lei da arapouca”. O objectivo era apanhar o espertinho numa qualquer curva mais sinuosa do labirinto. Só que a tal lei devia começar a vigorar em tempo útil, o que não era fácil, mas a sua publicação foi sujeita a um calendário de entraves. Não se sabia o que podia acontecer, embora se soubesse que tinha sido tudo combinado com o chefe Tonão. As declarações deste aos jornalistas da toca denunciaram o que todos desconfiavam. Que se tratava de um acordo de bastidores, nunca revelado, apenas adiado por conveniência do Tonão e que este não podia deixar de cumprir. Não que o admitisse expressamente, apenas que a defesa que produziu relativamente ao seu ex-colaborador deixou antever. Teno tinha-se saído mal ao escolher o timming para o abandono da toca, ou melhor, ao mostrar os dentes a sério ao chefe incumpridor e muitos aproveitaram para protestar. Desertar antes de encontrar uma solução para os problemas dos conterrâneos, confrontados com a pandemia, era duro de roer. Mas, a verdade é que importa pouco que a decisão tenha sido concubinada com o Tonão. O acto de abandono é que foi condenável. As histórias de Speedy González e de Mickey mostram que também eram assim, independentemente de diferenças de agilidade e humor. No caso do Teno, depois de anos de convívio na organização que o recebeu, não era de admirar que tivesse aprendido as manias, os vícios dos que o rodearam, absorvido a cultura de aproveitamento da situação e desenvolvido truques para conviver com outros animais sem correr grande risco. Ter incisivos afiados era sempre uma mais-valia e Teno tinha-os assim e mostrou-os quando perdeu a paciência. À luz dos critérios dos humanos, o sacrifício pode e deve ser valorizado, e o egoísmo só pode ser reprovado. Mas, as guerras não são todas iguais. Teno foi egoísta. E irresponsável: não se abandona uma colónia inteira, sem mais nem menos, num momento crítico. E pior, sem dar qualquer explicação razoável para o seu abandono – o fim de ciclo na toca não colhe, que se saiba o tempo de obras não estava para acabar – sendo que o momento de abandono exigia fundamentos importantes mais do que em qualquer outro tempo. A crise económica severa obrigava a algum altruísmo que fosse, apesar dos milhões esperados. Mas, Teno quis deixar a luta colectiva, para se concentrar na experiência individual. Houve quem quisesse intrigar e dissesse que ele e o Tonão prepararam um folhetim. Cá por mim, acho que sim, que foi isso que aconteceu, que houve folhetim que serviu para safar a ambos. Talvez a saída estivesse prevista para o fim das últimas obras do período anterior e Tonão não encontrasse alternativa, tendo adiado e continuado a prometer que um dia pagaria a promessa. Teno e Tonão acabariam por andar de costas voltadas, algo que os impedia de percorrer juntos os labirintos da toca.

O que ficou dito vem a propósito de haver humanos na vida política que se movimentam em corredores sinuosos, muitas vezes subterrâneos, quais os de condenados à procura do queijo mais suculento sem que os donos dêem por isso. A realidade de um país, no que aos senhores do poder diz respeito, assemelha-se, infelizmente, vezes sem conta, a estes movimentos de ratos esquivos e ingratos, embora no caso destes seja da sua própria natureza. No Parlamento, procura-se condicionar a transição directa do cargo de ministro das Finanças para governador do Banco de Portugal e tudo leva a crer que a lei discutida será aprovada por maioria. Contudo, em desrespeito pela opinião maioritária, está a ser preparada a candidatura de Mário Centeno, que deixou o cargo de ministro das Finanças recentemente, ao cargo de governador do Banco Central.



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