Espaço do Diário do Minho

Cartaz neorracista… com frase manipuladora?

22 Jun 2020
António Sílvio Couto

No contexto efervescente da comunicação global, por ocasião do momento e dos tempos posteriores àquilo que designam de pandemia, fomos vendo surgirem slogans e cartazes reveladores mais ou menos da situação a que estamos submetidos… mesmo que nem sempre compreendamos totalmente o que está a acontecer.

Depois da tentativa de assalto aos monumentos, estátuas e outros sinais ao passado – nosso e de outros países/nações – emergiram propostas do subconsciente freudiano coletivo, onde poderemos tentar ler quem assim se manifesta e, pior, quem se aproveita para acirrar sentimentos nem sempre pacíficos, pacificados e pacificadores. 

= O tal cartaz que vimos espalhado pelas ruas e enclaves ideológicos de certas autarquias apresenta-nos a mão de um negro a estender-se em socorro de uma outro/a de cor branca. Porque se não inverteu a sugestão? Houve lisura na intenção ou quis-se chocar quem vê de forma diferente? Para dar melhor conteúdo ao slogan: ‘ninguém pode ficar para trás’ não teria sido mais adequado colocar mais do que uma mão de cada lado…da pseudo-trincheira? Por que tiveram certas figuras eclesiais de fazer recurso a esta frase, se já a sabiam usada por forças trotskistas? Não há mais capacidade de invenção do que usar ‘coisas’ que cheiram a provocação e podem contribuir para a não-unidade? Quem assessoria os responsáveis da Igreja, não deveria ter maior sentido de discernimento e qualidade de exigência na hora da exposição pública daqueles a que devem e podem ajudar? 

= Por muito que isto custe de dizer e de ouvir, vivemos numa época em que compensa ser preguiçoso, dá jeito favorecer quem vive de expedientes e de subsídios, com facilidade se pode comprar favores com benesses saídas da não-produção, pois ‘alguém’ há de pagar o que recebemos sem produzir e o que ganhamos sem esforço nem trabalho.

Desgraçadamente continua-se a querer lançar dinheiro para que possa haver consumo, mesmo que não se tenha cuidado em prever claramente quem vai pagar a fatura a curto e a médio prazo. Não é possível continuarmos a fazer-de-conta de que somos um país rico, enquanto vivermos dos expedientes do turismo e de balelas da comida servida em restaurantes patrocinados com dinheiros suspeitos e sob a alçada de gestores de circunstância. O tecido económico – se é que ele existe e tem credibilidade – do país não pode continuar a reger-se pelas estrelas ‘michelin’, quando o melhor sabor é servido nas tabernas recônditas de cada localidade e onde os preços são pagos por fora da conta registada e sem número de contribuinte. Os milhões da economia paralela continuam a mover, de facto, maiores interesses de autarquias, associações, coletividades e de outras agremiações até eclesiais… Se, assim, não fosse seriam capazes de sobreviver com a taxação cega e implacável das autoridades de finanças? 

= Por mais do que uma vez contestei a frase bacoca – ‘vai ficar tudo bem’ – com que nos quiseram ludibriar desde o início do confinamento em meados de março passado. Cantigas de mau gosto, vozes de fugir e mensagens histéricas foram algumas das diatribes com que tivemos de conviver durante o tempo de estar em casa. Pela minha parte tive de tolerar que uns certos espertalhões impusessem – semanas a fio – ao resto do bairro ‘modas’ cançonetistas de duvidosa qualidade com luzes, acenos e aplausos a contento… Diante do medo em sair de casa, aquilo parecia ser o menos mau para aguentar o constrangimento ou uma espécie de lenitivo a contragosto.

Dizem que caminhamos para uma espécie de nova normalidade. Mas será que não iremos recauchutar pouco mais do que o já visto? Nada poderá ficar igual, tanto na mentalidade como no comportamento. Estaremos capazes de mudar, de verdade?

Até quando vai continuar a imperar a ditadura democrática da imbecilidade, sem que lhe não respondamos com frontalidade, tolerância e verdade? Basta de pacifismo cobarde!        



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