Espaço do Diário do Minho

Ganhar confiança

19 Jun 2020
Carlos Dias

O Coronavírus tomou conta das conversas, fez parar a economia, fechou a alegria e a festa, desmobilizou algumas atividades humanas, atacou em força, tem feito sucumbir muitas pessoas, mas não deverá fazer parar os sonhos, as forças da humanidade e a razão da nossa própria existência.

Neste sentido, não concebo que, depois de passar esta fase estranha e difícil da raça humana, se deixe de fazer o que antes era muito estruturante da sociedade e, também, não se aprenda com o que estamos a viver. O que seria de nós sem os outros? O que será do Desporto sem assistência?

O que será da sociedade sem Desporto? Que interesse teria a Escola, somente, através de um meio de comunicação? Na situação atual é fácil percecionarmos a enorme falta que nos faz correr, saltar, abraçar, cooperar, jogar, mas, igualmente, perceber que a assistência e os adeptos têm um papel extremamente importante naquilo que representam para os atletas.

Não estou, obviamente, a falar de questões económicas, mas de aspetos relacionados com a socialização, questões emocionais, das forças e da energia que isso pode fazer acontecer. A mim, está a fazer-me falta sentir o calor, a voz, os risos, as palmas, o confronto, o som da bola a bater no chão e das sapatilhas a chiar no piso, num som muito característico de algumas modalidades. Como costumo dizer, está a fazer-me falta “sofrer e marcar golos”. Treinar e jogar é muito mais do que um momento de diversão. É um momento fortíssimo de formação. Devolve o gosto por tentar e ser melhor, de sentir aquilo que não se consegue expressar, mas tem a ver com a partilha do suor, do esforço, do amor comum do que gostamos de fazer. Há aqueles que jogam por interesse, sem grande prazer. Mas, aqueles que sentem a vertigem dos sentimentos, a pureza do esforço conjunto, as sombras dos saltos, a força da nossa ação, esses estão muito mais pobres e tristes.

Na nossa sociedade, assiste-se, numa certa franja de pessoas, a uma tendência em pensar e dizer que: “Afinal a telescola não é assim tão má…eventualmente, a escola do futuro até podia assumir este cenário.” Viver a vida pela metade é mais cómodo e seguro, mas não deixa de ser apenas “meia-vida”. Há um vazio muito grande neste cenário que vivemos atualmente. A Escola não é só instrução e conhecimento.

A Escola e o Desporto não são caprichos de uma elite, são a fundamentação de querer arriscar em viver com mais intensidade, emoção, liberdade e de coração mais aberto. São duas áreas nucleares que podem e devem ser alvo de ajustamentos e atualizações, mas nestes dois contextos temos que perceber a importância que ambos têm na capacitação social e humana que aportam, enquanto contextos que formam, educam, instruem e produzem seres humanos muito mais completos.

Claro que ainda é preciso ter atenção a um protocolo que a vida segura exige. Há, naturalmente na condição humana, a tentação de proteger o sofrimento, mas, o mais rápido possível, temos que ir ao encontro daquilo que é preciso fazer e o que é essencial, para voltar a dar dimensão à vida. Por inteiro.

Demos um tropeção enorme neste vírus, agora importa levantar, olhar em frente e seguir com mais força e solidariedade. Recuperar de uma queda pode ser intenso e duro, mas também pode e deve ser um tempo de aprendizagem.



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