Espaço do Diário do Minho

«C’est une révolte? – Non, Sire, c’est une révolution»

18 Jun 2020
Carlos Aguiar Gomes

Todos conhecemos este diálogo entre o Duque de La Rochefoucauld-Liancourt e o Rei de França, o mártir, Luís XVI. Este, quando a 15 de Julho de 1789 foi informado que na véspera tinha sido invadida a Bastilha e de lá tirados os poucos malfeitores presos, entre eles um célebre marquês de Sade, perguntou ao duque se era uma revolta e obteve a resposta certa e certeira: “Não, Majestade, é uma Revolução”. Sim tinha-se iniciado a Revolução Francesa naquele dia 14 de Julho de 1789. É este o marco inicial, mas a dita Revolução tinha começado muitas décadas antes com os filósofos e as ideias que difundiam livremente mesmo entre a nobreza de alta estirpe. Esta tinha aderido total e entusiasticamente. Os seus salões eram frequentados e animados por aqueles que haveriam, directa e indirectamente, de lhes cortar a cabeça ou forçá-los ao exílio. Ninguém queria pensar na força das ideias. No seu poder transformador. E nada ficou como dantes. Em França e por todo o mundo. A Igreja, os costumes, a política, os bens fundiários e os bens da Igreja saqueados e vandalizados.
O primeiro trabalho dos filósofos foi a demolição dos valores em que assentava uma civilização. Recordo, o que todos sabem, que os Reis de França eram ungidos, um sacramental, na Catedral de Reims e que todos se intitularam “Rei de França”, excepto Luís Filipe, fruto da Revolução e de um Orleães regicida, que se intitulava Rei dos franceses, o que, no campo espiritual e político, é diferente.
Conhecem, os meus possíveis leitores, que com a Revolução Bolchevique, em 1917, se passou um fenómeno idêntico. Primeiro a destruição das ideias e , a seguir, as marcas desse património.
Também se lembram da “Revolução Cultural” de Mao Tsé Tung, na China, que destruiu tudo o que eram raízes culturais e espirituais e depois os marcos materiais. Tudo guiado pelo vademecum tutorial das mudanças a fazer e do que havia de demolir-se. O célebre “Livro Vermelho” que teve tradução e devotos nas democracias ocidentais, sobretudo nas camadas cultas que se deleitavam com tal literatura. Lembram-se do MRPP entre nós e outros movimentos similares cujos corifeus estão hoje sentados nas cadeiras do Poder político ou mediático?…
Como escreveu Victor Hugo, em “Histoire d`un crime”: «Resistimos à invasão dos exércitos; não resistimos à invasão das ideias”. A História tem dado razão a Victor Hugo e vai continuar a dar.
O que se tem passado por todo o Ocidente decadente, decadente porque foi invadido por ideias a que ninguém se opôs, salvo excepções que foram e são insultadas e anatematizadas como da Extrema-direita, fascistas, nazis e quejandos “mimos” segregadores e postergadores para o inferno das ideias permitidas pela tirania cultural que nos lava a cabeça todos os dias e a toda a hora. Vivemos, não tenho dúvidas, um tempo (já com décadas!) de terrorismo cultural e nenhuma sociedade humana escapa a este exercício (da Igreja, à Política ou à Cultura) de demolição insultuosa do nosso património mais respeitável pela idade, valor intrínseco e simbólico. Nada escapa a este furor.
Os últimos dias foram palco de vandalismo generalizado por todo o Ocidente. O nosso tão querido e Mestre Maior da nossa língua, o P. António Vieira, não escapou a esta fúria, perante o silêncio de tanta gente importante que não perde oportunidade nenhuma de se mostrar e de perorar sobre tudo, a começar pelo Chefe de Estado que deveria ser o garante da nossa Cultura e dos nossos valores e símbolos. No Brasil, por exemplo, vandalizaram uma estátua da maior Mulher brasileira na luta contra a escravatura, a Princesa Isabel, a que assinou a Lei Áurea e com este acto maior da nossa civilização cristã e ocidental perdeu o trono. Na Grã-Bretanha, atingiram Wiston Churchil, estadista de primeira grandeza. Na Bélgica, por exemplo, “atiraram-se” a uma estátua do Rei ímpar que foi Balduíno daquele país. Podemos apagar a nossa História? Não. Não o devemos deixar fazer seja em nome do que for. Se alguém, alguma pessoa, não agiu do modo mais correcto em tudo o fez quando era vivo, a nossa atitude não será apagá-lo da História, mas chamar a atenção do que não fez tão bem e sempre com o cuidado de se falar do contexto cultural, político e espiritual da época em que essa personalidade viveu.
Não me venham dizer que são os ignorantes que vandalizam os nossos monumentos ou pedem a sua demolição e que sejam arrasados até abaixo dos alicerces! Não, não são um bando ignaros. É gente que saiu ou está nas Faculdades (maioritariamente da área das Ciências Humanas, como convém ideologicamente falando) que o povo português paga com os seus impostos.
O que tem sucedido não é uma revolta. É a Revolução em marcha. Estamos preparados?



Mais de Carlos Aguiar Gomes

Carlos Aguiar Gomes - 13 Ago 2020

Maria João Rodrigues, Economista escreve às 4.ªas feiras no Público. Assim fez a 29 de Julho p.p. , na página 8. Esquerda. O título do seu artigo, completo, era : «As mortes não são racistas, os filhos não podem ter educação sexual e o país do bafio». Um título comprido. Vou contraditar a dita senhora […]

Carlos Aguiar Gomes - 6 Ago 2020

Quem me conhece sabe que sou adepto e sempre defendi que as obras de arte (e outros bens!) roubadas a terceiros devem voltar à posse de quem delas foi desapossado por roubo. Já escrevi muitas vezes que as obras de arte, sacra ou não que enchem os nossos museus e que são, muitas vezes, peças […]

Carlos Aguiar Gomes - 31 Jul 2020

São frequentes em alguns países da Europa a perseguição, clara ou camuflada, aos cristãos, sobretudo aos católicos. Na França, quase não há semana em que se constatem ataques a igrejas, destruição de imagens de santos em espaços privados ou de sepulturas de cristãos. Basta, dia a dia, ir consultar o sítio : Observatoire de la […]


Scroll Up