Espaço do Diário do Minho

O rato que sabia de finanças

16 Jun 2020
Luís Martins

Era uma vez um rato que um dia foi chamado a funções no governo duma toca nacional. Foi num tempo de aparente prosperidade que sucedeu a outro de grandes saques. O tal rato, que era novo, ficou inicialmente em quarentena, afastado do ninho principal, até garantir que era saudável e que sabia roer bem. Veio a provar que sabia e até que possuía outras qualidades. Ultrapassada a fase do stress inicial, e quando os números foram batendo certo, o dito-cujo teve a compreensão dos pares e ganhou peso dentro do governo, mas não convenceu muitos dos outros animais. Reestruturou as receitas dos vários ninhos, tirou disfarçadamente dum lado para dar às claras do outro e transmitiu a ideia de recuperação da crise por que passara a colónia na era anterior. A pouco e pouco, tornou-se um rato mais seguro e tornou a ninhada mais feliz. Ele próprio estava feliz. Tal foi a sua fama em todos os labirintos da comunidade que o convidaram para um cargo supranacional, tendo recebido o epíteto de róró das finanças. Como rato de telhado, era muito ágil e bom escalador. Foi então que o aumento dos hormónios o fizeram crescer repentinamente e chegou a uma posição alfa, sem passar pelas posições mais modestas, a beta, a gama e a zeta. Alfa é a posição mais importante num grupo de ratos, significando maior domínio sobre os restantes ratos da colónia. No pedestral, o rato das finanças aproveitou para construir caminhos ainda melhores para ter fácil acesso a boa e suculenta comida e ao abrigo ideal e mais seguro, ao mesmo tempo que aprimorava a sua capacidade de cheirar. O odor é sempre um componente para promover o reconhecimento. A certa altura, esticou-se mais um pouco e o esforço produziu nele algumas alterações orgânicas que o fizeram apurar ainda mais o odor, passando a cheirar muito frequentemente e em todo o lado. E tornou-se dominante na hierarquia de cá, mais do que na de lá. Não era ele o chefe, mas às vezes até parecia. Chegou a transferir para outro ninho uma soma enorme de notas do erário da colónia sem as formalidades exigidas. O chefe do governo não gostou da altivez e passou a dar-lhe para trás, o que lhe acicatou a vontade de mudar. E é aí que a história acaba mal. Pelo menos, até ao tempo relatado nesta crónica. Teve que sair pelo buraco traseiro do ninho. Ah, mas antes de deixar a governação da colónia com o registo do primeiro excedente orçamental e ficar conhecido como o rato do orçamento, por causa da sua habilidade para as contas e do sucesso relativo que teve ao comando das finanças do ninho, ao ponto de alguns do seu núcleo mais próximo terem afirmado que tinha sido o melhor rato das finanças de sempre, veio uma pandemia que lhe estragou a escrita. Deixou o ninho e depois a colónia quando mais se tornava necessário, justamente, quando se começou a conhecer a real dimensão do buraco financeiro que a pandemia estava a produzir e do perigo real de bancarrota na toca. Avistando melhor que outros – camundongos e também rattus rattus como ele -, as dificuldades que se avizinhavam, pôs-se ao fresco para se proteger da pandemia por que passava a grande comunidade. Ainda se fugisse de rentokil, racumin ou outro raticida, compreendia-se! Mas, não. O róró das finanças fugiu por desconfiança de si próprio, com suspeitas consistentes – quem melhor do que ele dominava os dados? – de que precisava de capacidade que talvez não tivesse para gerir as contas da toca em situação de falência técnica. Os ratos em geral, mas os rattus rattus em particular, fogem do barco quando ele se afunda. Perante a gravidade que veio à tona e se tornou pública, o rato da crónica entendeu que a hora tinha chegado: ou saía ou não teria mais condições para se safar. Depois da sua decisão, pelos vistos concatenada com o chefe da toca – que não quis ficar mal, nem arranjar um berbicacho que lhe retiraria concentração – chegou-lhe uma má notícia: a maioria não o quis, por uma questão de ética, e bem, nas funções de supervisão, as que teve a petulância de escolher e exigir. Mas, a crónica é capaz de continuar, em próximas edições, a falar do caso.



Mais de Luís Martins

Luís Martins - 11 Ago 2020

Não me refiro àquele gesto que nos é recomendado, ainda mais nos tempos que correm, para fazermos com relativa frequência. Mas ao relaxe sobre a Festa do Avante e à aceitação incondicional da sua realização. Não há braço de ferro, nem sequer a dúvida de que a mesma irá acontecer mais ou menos como os […]

Luís Martins - 4 Ago 2020

Já há quem se tenha vinculado – “vou votar em Marcelo Rebelo de Sousa” –, como fez um ex- presidente do Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP). Mas, antes, já o Primeiro-Ministro António Costa tinha convidado o actual Presidente a recandidatar-se, antecipando-se à decisão do seu partido, o que foi entendido, sem grandes dúvidas, de que […]

Luís Martins - 28 Jul 2020

Não tem quase nada a ver um assunto com o outro, a não ser no facto das decisões colidirem com posicionamentos anteriores que a história sempre arquiva para memória futura. 1. Não tenho como negativa a decisão de terminarem os debates quinzenais na Assembleia da República com a presença do primeiro-ministro. Na maior parte do […]


Scroll Up