Espaço do Diário do Minho

Para uma vida cristã centrada em Deus
6 Jun 2020
Carlos Nuno Vaz

A famosa revista dos jesuítas ‘La Civiltá Catolica’ publicou um texto do que foi Padre-Geral da Companhia de Jesus, de 2008 a 2016, Adolfo Nicolás, falecido em 20 de Maio. Embora não tenha sido formalmente redigido por ele, e tenha sido alinhavado no pontificado de Bento XVI para uma possível carta aos jesuítas, expressa claramente o seu pensamento.

A primeira grande afirmação é que, relendo alguns dos clássicos da vida religiosa como: Inácio de Loiola, Francisco Xavier, João da Cruz ou Teresa de Ávila, chegou à conclusão de que o que mais está presente neles como segredo das suas vidas é o seu centramento total em Deus. Papa Francisco, também ele jesuíta, não se cansa de insistir nesse ponto absolutamente fundamental. Só vivendo tudo a partir da experiência pessoal de intimidade com Cristo, na e pela oração, se pode partilhar o fogo do amor e a luz da misericórdia que dele irradiam para a nossa vida.

Padre Nicolás escreve que a distracção na oração, de que tantas vezes se confessava, afinal não estava tanto na sua oração, mas na sua vida. «Estava distraído em quase todas as áreas da vida, o trabalho ou o estudo. Não é de estranhar que a minha oração sofresse o mesmo mal-estar. Como poderia centrar-me na oração, quando a minha mente e o meu coração estavam distraídos com tantas coisas?».

Só a partir do verdadeiro ‘exame de consciência’, muito típico da espiritualidade inaciana, chegou à conclusão de que : «Eu, como muitos dos meus amigos na vida religiosa, não era uma má pessoa. Éramos companheiros decentes, esforçando-nos o mais possível por fazer bem o que nos pediam que fizéssemos, desde a oração até ao ensino, jogar futebol e ajudar na liturgia da Semana Santa. Inclusivamente cantávamos bem. Mas estávamos ‘distraídos’». Geralmente, eram distracções de sentido comum que, se não as aceitas és considerado estranho, pouco fiável, ou até traiçoeiramente desleal ao grupo. Todo o idealismo da juventude nelas colocado acaba, em muitos religiosos nelas involucrados, por os converter em líderes de interesses sociais, étnicos ou culturais muito limitados.

Outra tentação em que se cai facilmente é a identificação emocional com grupos que sofrem algum tipo de complexo e que no passado até sofreram opressão ou injustiça, e que agora usam essa autêntica má experiência como razão para reclamar um «estatuto de ‘vítima’ eterna». E dado «que as pessoas consagradas têm, geralmente, bom coração, são propensas à tentação de ser débeis frente às ideologias e ao pensamento ideológico: «.. projectamos facilmente a verdade total sobre qualquer compromisso a que nos sentimos chamados, e tornamo-nos cegos aos cambiantes, às ambiguidades e, inclusive, às contradições de uma cosmovisão ‘a preto e branco’». Por isso houve divisões e facções dentro das comunidades, entre «os do sector social e os da educação; entre os que servem os pobres e os que servem a elite». Pior: «tentamos justificar teologicamente estas escolhas, sem nos darmos conta de que se tratava, realmente, de uma operação ideológica. Que distracção! Nem sempre entendemos que uma opção preferencial pelos pobres era uma opção por amor, desde o coração, desde dentro, como quando Jesus sentiu compaixão pelas multidões pobres. Uma opção pelos pobres não se pode ‘exigir’ aos outros, porque tem de vir do coração. Sem esta importante ideia, traduzimos ‘opção preferencial’ por ‘obrigação moral’, e sentimo-nos a justificar e a exigir isto a todos, sob a ameaça de os considerar menos cristãos, menos comprometidos, menos evangélicos. Quando levamos isto ao extremo, nem sequer os podemos tratar como irmãos ou irmão; achamos que são traidores à causa do Evangelho». Que distracção insidiosa!

Não menos insidiosa é a distracção do perfeccionismo, a especial preocupação por si mesmo, pela própria imagem, pelas aparências ou pela percepção que os outros têm de mim. Há quem lhe chame ‘narcisismo’. «Estamos distraídos, paradoxalmente, pelo nosso próprio impulso para a perfeição». Isto complica-se ainda mais com distracções anexas como: «a competência, a necessidade compulsiva de estar em dia com a tecnologia, ter equipamentos electrónicos, usar novas possibilidades de comunicação, etc. A instituição (Jesuítas) pode tender a fazer do ‘perfeccionismo’ a norma para um progresso medível e a garantia de um futuro num mundo de mercados difíceis».

Por isso não é de estranhar que tão pouco nos debrucemos sobre os fracassos inevitáveis da vida.

(Continua)



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