Espaço do Diário do Minho

A MORTE: UMA REALIDADE QUE A PANDEMIA OBRIGA A REFLECTIR
6 Jun 2020
P. Rui Rosas

É natural que neste final de tempo de quarentena, e quando, ao que parece, a vida normal vai recomeçar, da nossa parte haja um esforço de reajustamento ao dia a dia. Surpreendeu-nos a rigidez das medidas tomadas. No entanto, se o estilo lusitano não se coaduna muito a este tipo de conduta, pois procura sempre um modo original de dar a volta ao que é estabelecido, a verdade é que, pelo menos segundo as notícias que chegavam, houve um respeito bastante consciente ao que a autoridade determinou, salvo algum alvoroço mais clamoroso provocado por uma pequena celebração duma etnia minoritária, a que a comunicação social não prestou muita atenção, ou mesmo ignorou.Voltar à normalidade exige o esforço de encarar o quotidiano como uma realidade onde o esforço laboral volta aos seus parâmetros normais, a vida em família deixa de estar menos aconhegada e as relações sociais e de amizade, até agora muito procuradas nos meios digitais, requerem da parte de todos um contacto mais real e presencial.

Sendo o homem um ”animal de hábitos”, a quarentena, para alguns, foi mais estranha e custosa; pelo menos nos primeiros dia; para outros, não levantou muitos problemas, porque a adaptação ao meio ambiente é uma característica humana louvável e natural. Seja como for, para todos a pandemia provocou um soluço profundo na vida habitual, obrigando a todos e a cada um de nós a uma adequação forçada a um tipo de situação inusitada e que, para muitos, já não deveria ou poderia acontecer nos tempos que correm.Talvez as pessoas mais idosas recordassem alguma doença que causou bastantes mortes e muita gente acamada, obrigando o mundo laboral a retrair involuntariamente os seus esforços de conseguir satisfazer todas as exigências que os seus consumidores exigem habitualmente.

E esta recordação veio trazer ao presente uma circunstância de carência e de debilidade do homem, que andava bastante esquecida. Afinal, este ser – rei da criação – não domina totalmente natureza e, de um modo especial, não pode deixar de reflectir sobre a sua instável condição terrena. Não é senhor absoluto da vida e, muito menos, capaz de evitar o seu termo. A morte é uma realidade que o afecta, que dele dispõe e a que deve subordinar o seu pensamento. Não para o tornar pessimista e desanimado, mas para lhe fornecer uma visão mais realista em relação ao seu ser. A sua existência, aqui, não é perene. Pelo contrário: acaba sempre com a morte, mais tarde ou mais cedo. E se há objecto sobre o qual devemos pensar é sobre o sentido deste final, que a sociedade actual procurava não ter em conta, como se o tempo de cada um de nós não tivesse barreiras, ou como se a existência só encontrasse sentido se se partisse do pressuposto que o ser humano é apenas aquele espaço do percurso entre o seu nascimento e o seu óbito.

De repente, esse impetuoso vírus que a China exportou, aflige e assarapanta todo o mundo, obriga a tomar medidas drásticas de sobrevivência, muda os modos de estar dos pais com os filhos em família, fecha escolas e empresas, lança prejuízos incalculáveis na economia, leva ao adiamento de eventos desportivos e culturais de impacto mundial há muito esperados e definidos, enfim, tudo o que dávamos por suposto que nunca ocorreria nos nossos tempos, dado o avanço da civilização, as conquistas técnicas permitidas sobretudo pelo desenvolvimento das ciências experimentais, e a própria maneira simplista e pragmática de pensar do homem contemporâneo, são vítimas de um soçobro profundo, que nos obriga a encarar a nossa existência terrena não como um todo único, firme e compacto, mas como um caminho inevitável para um final que não somos capazes de evitar: a morte. O homem aprende, à custa de si mesmo e sem ter capacidade de se alhear desta via, que não pode encarar-se como um ser a quem basta enfrentar a realidade da existência terrena. A morte surge no seu horizonte como um fim inevitável. Qual o seu significado? Tudo se acaba com a sua vinda? Qual o sentido da vida humana? Estas interrogações terão mesmo razão de ser se não houver nada para além da morte?



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