Espaço do Diário do Minho

A Luz e o Túnel
21 Mai 2020
João Gomes

Pequeno introito sobre a Primeira Liga. Podemos estar a cerca de duas semanas do seu regresso. Um regresso que nada terá a ver com aquilo a que estávamos habituados. E ainda que ninguém saiba como será esse tão esperado regresso, a única certeza que parece haver, além da ausência de público nos estádios, é a enorme incerteza que todos os intervenientes têm, neste momento. E a maior incerteza prende-se talvez com o que poderá acontecer se, após o retomar dos jogos, houver casos de infeção dentro dos clubes, como já ficou provado que houve. Teremos nova interrupção ou determinar-se-á que não há condições para que a presente temporada seja concluída? Ou o que é que vai acontecer se determinados clubes, e estou sobretudo a referir-me aos mais poderosos, tiverem um, dois ou três jogadores influentes infetados? Parar-se-á o campeonato por força da sua importância? E se isso acontecer a um clube do meio da tabela? Parece-me, portanto, que, ainda que havendo alguma luz que possamos vislumbrar, e ela antecipe como possível a conclusão da temporada, estou igualmente em crer que o túnel que comporta as derradeiras 10 jornadas pode ser ainda muito longo, e trazer consigo dificuldades terríveis a estruturas que estarão por certo próximas do abismo. Talvez por isso o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol tenha dito, num jornal desportivo, há dias, que espera que a gestão dos clubes de futebol seja cada vez mais «empresarial».

Pergunto-me se o Dr. Fernando Gomes terá como grande exemplo dessa necessidade aquilo que tem acontecido no nosso clube, nomeadamente com as notícias da adjudicação da nova fase da Academia do SCB à empresa detida por um Vice-Presidente do clube e Administrador da SAD. Devo ressalvar que sou a favor da sua construção, por considerar essencial à sustentabilidade de um projeto que se pretende que continue a fazer crescer o clube. Contudo, há outros pontos que não posso deixar de referir, por me parecerem não só preocupantes como bastante sintomáticos da gestão atual do SCB:

  1. Por que razão são os sócios relegados para segundo plano nas grandes decisões? Haverá algum receio de que não sejam validadas as opções que a direção do clube tem tomado?

  2. Haverá a transparência necessária quando o clube é o maior acionista individual da SAD e isso poder significar que más decisões influenciam irremediavelmente o seu futuro? Não há qualquer tipo de válvula de escape ou de contrapeso, sempre sinónimos de uma transparência salutar e correspondente distanciamento do poder

  3. Não deveriam os sócios, e outras entidades reguladoras, questionar sobre a ética de termos membros da Direção a realizarem avultados negócios com a SAD e com o clube?

  4. Porque é que não houve, em alternativa, um concurso público para as duas obras da Academia, num investimento global de cerca de 40 milhões de Euros? (o investimento que o SLB fez foi de 27 milhões)

  5. É possível saber-se se houve outras empresas interessadas em apresentar propostas, alguma das quais parceiras há longos anos do SCB? Qual o critério de seleção? Como poderão os sócios escrutinar este tipo de investimentos e atos de gestão da Direção e da Administração?

Gostava que o desejo do Presidente fosse uma realidade palpável no curto prazo. Não creio, contudo, que seja um futuro possível se algo de radical não acontecer no nosso clube.



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