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Entrevista a Manuel Tibo, presidente da Câmara de Terras de Bouro

José Carlos Ferreira
20 Mai 2020

O presidente da Câmara de Terras de Bouro afirma–se preocupado com o futuro do turismo, a principal atividade económica no concelho.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento? Qual a radiografia que faz
Manuel Tibo (MT): É uma radiografia negra que mostra um concelho afetado. Terras de Bouro, como é sabido, vive única e exclusivamente, do turismo. Não temos nenhum tecido empresarial em termos de empresas industriais, como existem noutros concelhos no distrito de Braga. Mas ainda temos algumas empresas de construção civil, da hotelaria, do comércio. E toda esta dinâmica foi muito afetada, ou seja, este é um concelho onde o desemprego é considerável por força de não haver muitas zonas empresariais. Só na altura do Verão é que temos uma quantidade enorme de postos de trabalho, com a abertura das termas, com a marca turística nacional fortíssima que é o Gerês. Agora estamos com o coração nas mãos porque percebemos o que vai acontecer. Sabemos que vamos passar por tempos difíceis e, por isso, o retrato que faço é de muita preocupação no futuro próximo.

DM: Está preocupado em relação ao pequeno comércio e à restauração que tiveram que, por força da lei, fechar portas?
MT: Essa é uma situação que me preocupa mesmo muito porque também tenho a minha experiência pessoal, ou seja, acabo por ter uma sensibilidade muito maior porque, como todos sabem em Terras de Bouro, eu tenho uma empresa hoteleira. Por isso tenho uma sensibilidade mais profunda das dificuldades como o ter que pagar ordenados, ou compromissos e os impostos. Por isso, a Câmara isentou todas as pessoas, inclusive o comércio, do pagamento de água, saneamento e resíduos. Não havendo receitas, o comércio e a hotelaria tem sempre as despesas e isto acaba por criar muitas dificuldades a todos, o que me preocupa muito.

DM: Quais as medidas que a autarquia implementou para este setor?
MT: O pequeno comércio, neste momento, tem a ajuda em duas vertentes. A primeira é o cálculo da média dos metros cúbicos de consumo de água em 2019, sendo que as pessoas e o comércio, de março até junho, não pagam o valor dentro da média, não pagam os resíduos e o saneamento. Depois, há outras medidas como não pagar a utilização da via pública na colocação de esplanadas e o não pagamento da publicidade. Por outro lado, àquelas empresas e comércio que são inquilinos do município, o executivo da Câmara aprovou uma proposta no sentido em que elas só terão de pagar 50 por cento do valor da renda no mês de março e, durante o Estado de Emergência em que foram obrigados a fechar não será feita qualquer cobrança. E quando houver a retoma, com a determinação da abertura, estes inquilinos só pagarão 50 por cento das rendas de maio e junho. Estas medidas não acabam aqui. Depois faremos uma nova avaliação para ajudarmos as pessoas que vão ter dificuldades. A Câmara de Terras de Bouro não tem muitos recursos, por isso só pode ajudar dentro das suas medidas

DM: A Câmara de Terrasde Bouro tem preocupações em espcial?
MT: Nós temos três situaçoes. A primeira diz respeito à zona do Vale do Cávado e tem que ver com a abertura das termas, que é fundamental para o desenvolvimento económico daquela zona. Isto cria ali centenas de postos de trabalho, nem que sejam sazonais. Depois, temos o período das férias e percebermos se efetivamente as pessoas podem vir até ao Gerês, até Terras de Bouro, para passarem as suas férias, ajudando a economia local. A outro situação que me preocupa é a questão do desemprego que pode vir por parte das muitas pessoas que trabalham fora do concelho. Se algumas delas, nesta fase, já estão em lay off, outras no desemprego, no futuro outras que fiquem desempregadas será uma catástrofe para o desenvolvimento económico de Terras de Bouro.

DM: Acha que as medidas que o Governo implementou são suficientes para que as empresas se aguentem?
MT: O Governo tem lançado dezenas de medidas e dezenas de propostas. Mas, o que mais preocupa é a burocracia para as pessoas terem acesso a essas medidas. As pessoas precisam de ser ajudadas é agora. Todas as outras que tenham reflexo para o ano de 2021 é prematuro ter que as tomar agora. Neste momento, estas empresas precisam efetivamente é de ter apoio nas suas tesourarias, para o dia a dia, para depois haver uma retoma, para que não fechem e não passem por situações complicadas. Por isso é que eu acho que os processos deviam ser agilizados, mais próximos, mais rápidos e com uma linguagem mais correta, para que os nossos pequenos empresários possam acorrer às medidas.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
MT: É garantidamente. E aqui o Governo terá que tomar as medidas efetivas para se poder ultrapassar a situação. Mas, também é preciso perceber aqui uma coisa. Os encargos dos impostos indiretos têm que diminuir, ou seja, esta é também uma forma de ajudar todas as pessoas, para haja uma maior rentabilidade nos orçamentos das famílias.

DM: Que danos causou esta pandemia ao turismo no seu concelho?
MT: Esta pandemia já trouxe, como todos nós sabemos, uma dificuldade grande e um prejuízo enorme ao setor. Porquê? Em primeiro lugar porque nós temos muitos empreendimentos de turismo rural, muitos hotéis, residenciais que estão todos fechados porque as pessoas não se deslocam de casa. Tem que haver uma questão fundamental que é a questão da saúde pública, de termos aqui nos próximos meses alguma garantia que vai existir uma vacina, para devolver a confiança às pessoas, para que elas saiam de casa. Estou certo que as pessoas, se puderem sair de casa, têm que sentir que há o mínimo de segurança nos territórios para onde vão. Se existir essa confiança, as pessoas voltam a sair de casa, vêm até Terras de Bouro ou outros concelhos vizinhos e acabamos por ter alguma dinâmica. Mas prevejo que vamos ter tempos de muita dificuldade e isso preocupa-me muito.
DM: Enquanto houver medo as pessoas não saem?
MT: Enquanto houver medo as pessoas vão ter muita dificuldade em sair. Uma coisa é sair de casa até à rua, outra coisa vai ser fazer viagens e passar férias. As pessoas vão-se retrair muito, a não ser que haja alguém, das autoridades de Saúde, perceba e que possa transmitir essa confiança à população.

DM: No seu orçamento vai canalizar mais verbas para os apoios sociais?
MT: Nós temos feito um trabalho em parceria com as Juntas de Freguesia no sentido do apoio diário às pessoas que estão mais isoladas, mais vulneráveis, aos idosos, num olhar atento sem esquecer ninguém. Nós temos uma equipa de trabalho no terreno que, nesta fase, vai ao encontro das pessoas para, por exemplo, entregar cabazes alimentares e solidários, ir buscar as receitas médicas ao médico, comprar os medicamentos e levá-los a casa, fazer transportes para consultas. Temos uma linha de transportes públicos gratuita até Braga, passando por Amares, fazendo a linha do Gerês até à sede do concelho, Nós temos estado e vamos continuar a estar atentos e próximos das pessoas. A Câmara de Terras de Bouro tem muitas medidas sociais, como o apoio à habitação condigna, o apoio à alimentação, que é fundamental para as pessoas que, muitas das vezes, andam a trabalhar nos nossos territórios ao dia e que, não podendo sair de casa, acabam por não ter aquele rendimento e acabam por passar mais dificuldades. São essas pessoas, que estão sinalizadas que a Câmara Municipal está atenta, está no terreno, está a apoiar e vai continuar a apoiar. É com estas pessoas que perderam efetivamente rendimentos que estamos realmente preocupados,.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
MT: É uma excelente pergunta. Eu acho que há projetos que vão ter que esperar, porque a primeira prioridade são as pessoas e depois é que trataremos das obras. Nós sabemos que as obras são importantes, mas em primeiro são as pessoas e depois, sem perder a responsabilidade e os compromissos que já temos de fundos comunitários, os projetos. Se houver projetos que possam pôr em causa o apoio à população, perfiro apoiar a população.



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