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Entrevista a Manoel Batista, presidente da Câmara de Melgaço

José Carlos Ferreira
19 Mai 2020

O presidente da Câmara de Melgaço sabe que o momento não é fácil, mas defende que é tempo de começar já a ajudar os empresários a olharem para o futuro.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho de Melgaço neste momento? Que radiografia é que faz
Manoel Batista (MB): Preocupante. Bastante preocupante, porque temos um tecido económico que assenta em duas grandes vertentes. O turismo e a produção de vinho. É claro que depois temos um conjunto de outras atividades económicas importantes. Mas estes são os dois pilares fundamentais que, com este processo pandémico, vivem dias muito difíceis. Portanto, a radiografia é esta, a de um município que de repente parou e que vai ter aqui dificuldades em voltar a fazer a retoma da sua atividade. Mas temos esperança em relação a estes próximos dias, em relação a estas medidas que o Governo vai anunciando de uma abertura moderada, gradual e, assim sejamos capazes de fazer uma retoma nestas duas áreas e nas outras, de forma a que a economia volte a fluir, a ganhar dinâmica e, por ventura, as coisas comecem a retomar alguma normalidade.

DM: Em relação ao comércio e à restauração que foi obrigada a encerrar portas, a Câmara de Melgaço está preocupada com a situação que vivem?
MB: Sim. As gentes da restauração, setor muito ligado à área do turismo, foram as primeiras a tomarem medidas e a fechar sem qualquer obrigatoriedade, porque perceberam que era fundamental fazê-lo. Agora estão a sofrer e com necessidade de fazer essa reabertura lenta para reanimarem a economia de cada uma das suas empresas.

DM: E o pequeno comércio?
MB: No pequeno comércio há nuances muito engraçadas. Há um comércio de bens não essenciais que está a sofrer e está relativamente parado. Mas há um comércio dos bens essenciais e até de algum material de construção e ligado aos eletrodomésticos que tem tido um crescimento. As pessoas, pelo facto de estarem mais confinadas, viraram-se para o comércio local e há hoje pequenos comércios que têm crescido no volume de faturação e que estão a fazer um bom percurso. Isto é muito interessante e espero que esta redescoberta da população e dos públicos melgacenses em relação ao seu comércio local seja uma redescoberta para ficar e que, passada esta situação, as pessoas sejam capazes de voltar a perceber e sejam capazes de continuar a consumir no seu comércio, que neste período se adaptou, foi capaz de inovar, foi capaz de fazer entregas em casa, foi capaz de começar a fazer vendas recebendo encomendas por SMS, por telefone ou mesmo online, e foi capaz de se reiventar e de criar respostas às necessidades das pessoas. Eu espero que os públicos agarrem esta nova forma de olhar para o comércio local.

DM: A Câmara criou medidas para o comércio e a restauração que tiveram que fechar portas?
MB: Sim. Nós, logo na fase inicial deste processo pandémico, a autarquia decretou um conjunto de medidas no sentido de reduzir um pouco aquilo que são as implicações em toda a estrutura empresarial do nosso município. Por exemplo, reduzimos a zero durante os meses de abril a junho a fatura da água e serviços urbanos para todos os empresários e todo o comércio. Foi uma das medidas que fizemos a conjugar com um conjunto de outras pequenas medidas que procurámos tomar para diminuir o impacto que as empresas iam tendo. Agora, procuramos começar já a olhar para o futuro e começar já a rasgar aquilo que poderão ser horizontes de futuro para o nosso território e para os empreendedores do território. Isto faz-se com uma perspetiva inovadora, trazendo novidade para a promoção e a apresentação do produto e, por ventura, até a própria comercialização dos produtos de que o território é rico. Queremos encontrar alternativas de forma que os nossos produtores possam recuperar algum do seu élan e alguma da sua faturação.

DM: Acha que as medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
MB: Julgo que o Governo tem sido audacioso nas medidas que tem feito e que tem implementado e, sobretudo, tem sido bastante audacioso na forma como se posiciona em relação à União Europeia e à necessidade da União Europeia ter uma postura solidária para com todos os países da UE que estão a sofrer imenso com todo este processo pandémico, que se vai manter, que se vai esticar no tempo. O Governo tem-se posicionado bem, tem sido capaz de criar soluções internas, tem sido capaz de lutar por soluções externas. É claro que estas coisas têm sempre uma dupla análise. A análise de quem constrói soluções, as apresenta e acha que são credíveis, e a análise de quem está sujeito a essas soluções, que são os empresários e que, com certeza, esperariam mais e que, por ventura, consideram ser justo a criação de mais e de outro tipo de soluções. Será na conjunção destas duas perspetivas que teremos de fazer o futuro e de avançar nos próximos tempos. Espero que haja solidariedade europeia, espero que o Governo seja capaz de lutar por isso e de dar todas as respostas possíveis para minorar o impacto deste processo pandémico na economia das nossas empresas.

DM: É previsível que, mesmo com as medidas adotadas pelo Governo, um aumento da taxa de desemprego?
MB: O crescimento da taxa de desemprego já está a acontecer, embora um crescimento bem menor do que muitas economias ditas mais desenvolvidas e de maior consistência. Eu espero que, com a retoma que se prevê a seguir, consigamos contê-la e consigamos poder dar à população este instrumento fundamental para a vida de cada um de nós, que é um posto de trabalho, que é termos a capacidade de colaborar ativamente no desenvolvimento e de sermos parte disso mesmo.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor no seu concelho?
MB: Nós temos trabalhado de forma muito dedicada e de forma muito profissional na questão do turismo no nosso município, com um plano estratégico muito bem estruturado, com produtos muito bem definidos e com comunicação e marca também bem definidas. E temos tido resultados. Até ao início deste processo, alguns dos empresários disseram-me que o crescimento em 2018 foi brutal em Melgaço. Em 2019 houve um excelente crescimento também que nos primeiros meses de 2020 se estava a exponenciar. Isto quebrou e houve uma paragem quase absoluta do turismo no nosso município. Em relação ao futuro, se o país fizer um bom percurso e uma boa reabertura à sociedade, os destinos turísticos com a dimensão do nosso e com as características muito específicas do nosso, são destinos que rapidamente se poderão refazer. É essa a perspetiva que tenho e essa a orientação que recebi de quem trabalha connosco de forma muito profissional e próxima a questão do turismo. O turismo de natureza que afirmamos e o destino natureza mais radical de Portugal, marcas que comunicamos, acho que poderão e deverão ser uma alavanca para uma retoma rápida.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
MB: Acredito que sim.Já acontece. No apoio alimentar, não só deitamos mão daquilo que é o tradicional apoio através do Banco Alimentar, como criámos um cartão que permite às famílias ter acesso a um plafond de aquisição de alimentos numa superfície comercial de Melgaço. Estamos a trabalhar também em medidas para acautelar a questão da habitação, sobretudo quando se trata de arrendamento. Temos que ter uma perspetiva social aberta e não a perspetiva apenas da entrega do cabaz de alientos que tanto se vê na comunicação social por estes dias.

DM: O travão económico vai obrigar a adiar projetos?
MB: Eu espero que não. Há coisas que suspendemos como a Festa do Alvarinho. A pandemia já mexeu naquilo que são as nossas dinâmicas consagradas. Eu espero que os outros investimentos do ponto de vista estrutural possam manter-se e estamos a fazer tudo para que se mantenham.



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