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Entrevista a Miguel Costa Gomes, presidente da Câmara Municipal de Barcelos

José Carlos Ferreira
18 Mai 2020

O presidente da Câmara de Barcelos faz a radiografia do tecido económico concelhio.

 

Diário do Minho (DM):
Qual a radiografia do tecido económico e empresarial que faz do concelho de Barcelos neste momento?
Miguel Costa Gomes (MCG): A perceção que tenho, e dos contactos que tenho tido, quer institucionais quer com alguns empresários, é que a situação é muito difícil. E é fácil de ver porque é difícil. O consumo não existe, as limitações que os cidadãos têm de vir à rua, as limitações que existem no mundo e, em especial, na Europa. E, o nosso tecido empresarial, pelo menos o produtivo, tem uma vocação muito exportadora e, portanto, está com dificuldades muito acrescidas. Empresas que eu conheço, que eram perfeitamente estáveis, produtivas, com grandes rendimentos e com grupos de trabalhadores bastante grandes começam agora a sentir as dificuldades, não só por aquilo que está a acontecer no mundo resultado do isolamnento a que todos estamos obrigados, mas por estarem muito preocupadas com o futuro próximo. Enquanto não houver vacina a instabilidade, o receio e o pânico vão existir e o setor produtivo sofre bastante com isto. Neste momento começa a haver clientes do exterior que estão a anular encomendas. Aquilo que se chamava época de verão e época de inverno já está trocado e adivinha-se num futuro muito próximo dificuldades acrescidas em relação àquilo que se passa hoje. Se falarmos do setor de retalho e no setor de prestação de serviços, o problema é ainda mais grave.

DM: Estamos a falar do pequeno comércio?
MCG: Exatamente. Estamos a falar a vários níveis. O pequeno comércio, ou chamadas micro empresas, estamos a falar de um problema que tem de ser ultrapassado pela Administração Central que recorrentemente me tem sido posto por escrito por sócios gerentes de micro empresas que não têm apoio absolutamente nenhum. É também o comércio a retalho que está a sofrer bastante, e a restauração, embora um ou outro restaurante tenha feito uma adaptação ao nível do “take-away”, arranjando alguns rendimentos para suportar o mínimo possível. Portanto, eu diria que a perceção que eu tenho é de extremamente má, e temos que começar a pensar seriamente como é que vamos ultrapassar isto, porque os setores sofrem do ponto de vista financeiro e económico de forma completamente diferente. Há empresários que tinham empréstimos bancários e que podem beneficiar das moratórias. Mas o problema mantém-se porque mais à frente estas moratória vão ter que ser liquidadas. E muitas vezes as empresas que passaram no passado recente dificuldades de financiamento foram contrair empréstimos e agora nem têm condições de os liquidar, nem têm sequer condições de os recuperar, uma vez que são afetados duas vezes por essas circunstâncias. É um problema muito grave que eu espero que o Governo analise de forma mais profunda. O nosso dever, e é aquilo que eu tenho feito, é transmitir estas preocupações e necessidades. A análise tem que ser a nível nacional, mas essencialmente a nível europeu porque isto tem que passar forçosamente pela União Europeia. A economia é o motor de qualquer município e de qualquer país, portanto, tem que se lhe dar uma atenção especial. Eu diria que, do ponto de vista do diagnóstico, estaríamos quase numa calamidade económica no concelho.

DM: A autarquia tem adotado medidas para ajudar?
MCG: É muito difícil. Nós temos vindo a pensar formas de apoiar. A nossa vocação é a do apoio social, às famílias necessitadas, não por força da pandemia, mas por circunstâncias adversas, e esses apoios mantêm-se e até subiram. Nós começámos agora a notar que as pessoas recorreram um pouco mais a apoios sociais que já tínhamos. Do ponto de vista do setor empresarial, é muito difícil a Câmara ter instrumentos financeiros que possam ajudar as empresas. Nós não estamos a falar de um único setor, estamos a falar de uma diversidade enorme de setores. Mas, acrescentaria ainda outros setores com dificuldades enormes, que são as IPSS, os bombeirose as instituições que desenvolvem a sua atividade voluntária. Os pedidos que temos são imensos. Nós estamos a dar todo o apoio do ponto de vista da saúde, que é onde está neste momento o nosso foco. Mas, posso dizer que estamos preocupados com o setor económico. Podíamos resolver alguns casos, mas tem de haver uma medida nacional, articulando com os municípios, que já estão a ter um sacrifício financeiro muito grande para apoiar o combate à pandemia.

DM: Acha que as medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
MCG: Do que conheço, leio e ouço, na minha opinião, claramente não. Mas eu penso que as medidas iniciais que o Governo adotou, num horizonte que tinha num determinado momento da pandemia, vão ser reforçadas em medida das necessidades. Penso que o Governo também já chegou à conclusão que as medidas que lançou são boas, são forma de apoio, mas estão longe de serem suficientes.

DM: Permitem liquidez às empresas?
MCG: Alguma, mas a grande dificuldade neste momento é saber como se resolve o problema dos empresários em nome individual e como é que se resolve o problema dos sócios gerentes das micro empresas, que não têm qualquer tipo de proteção, embora do ponto de vista das suas obrigações para a Segurança Social, seja praticamente igual à de um trabalhador.

DM: É previsível, mesmo com as medidas adotadas pelo Governo, um aumento da taxa de desemprego?
MCG: Não tenho dúvida. Se a memória não me falha, o último índice que li já vai em 14 por cento. Eu diria que duplicou em relação àquilo que era o índice de desemprego nacional no país. Aqui em Barcelos nós tínhamos o que se chama praticamente o desemprego zero e agora já estamos em taxas mais elevadas. E é preciso peceber aqueles que ainda não se foram inscrever no desemprego porque aguardam que alguma medida venha a ser tomada.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. A pandemia vai trazer danos ao setor no seu concelho?
MCG: Claramente. Eu posso dizer que a hotelaria e a restauração, em complemento com o comércio tradicional, aqui em Barcelos neste momento é zero. Não existe. As pessoas, com os receios da contaminação e pelo que está definido pelo Estao de Emergência, não se deslocam. Nós tínhamos uma ocupação média na hotelaria na ordem dos 84 por cento, neste momento está praticamente a zero.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
MCG: Já aconteceu. Já se começa a sentir uma procura maior dos pedidos de apoio ao município a vários níveis. O município tem vindo a disponibilizar esses instrumentos, desde apoio à renda, à distribuição de cabazes alimentares. O que me preocupa e é um problema que não é fácil lidar é a chamada pobreza envergonhada. O pelouro da Ação Social está a tentar perceber essa dificuldade. Nós criámos um “call center” onde as pessoas nos podem abordar de forma discreta.

DM: Vai canalisar verbas para reforçar os apoios sociais?
MCG: Nós temos que criar aqui uma espécie de engenharia financeira para reavaliar aquilo que estava orçamentado. Teremos, naturalmente, que fazer uma reorçamentação do que estava previsto para 2020 a vários níveis, reforçando os apoios sociais e os apoios de saúde, no âmbito das nossas obrigações. O meu maior problema é o que vai acontecer em 2021. Os municípios recebem transferências do Estado em função da riqueza produzida. Este ano a nossa riqueza desceu consideravelmente, os impostos vão descer por força da falta de emprego e da atividade económica, e teremos as consequências em 2021.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
MCG: Em teoria, eu diria que sim. Nós estamos a tentar fazer um esforço para que isso não venha a acontecer. Mas, provavelmente, há projetos que poderão vir a ter que estar suspensos por força destas circunstâncias, porque o dinheiro não estica e temos que gerir prioridades.



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