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Entrevista a Manuel Moreira, presidente da Câmara de Amares

José Carlos Ferreira
17 Mai 2020

O presidente da Câmara Amares teme o aumento do desemprego no concelho.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento? Qual a radiografia que faz?
Manuel Moreira (MM): A radiografia do nosso concelho é um pouco a radiografia do país. De facto, as empresas estão com grandes dificuldades de trabalhol, o que me dá um mal estar porque cassa dia que passa as situações de desemprego vão se degradando. Portanto, a radiografia que faço é de alguma preocupação porque os nossos empresários, sejam da restauração, sejam de qualquer outro setor da economia, estão a passar grandes difuldades. Esta é a radiografia que tenho em Amares e que espelha um pouco o que acontece no resto do país.

DM: No concelho de Amares existem grandes unidades empresariais?
MM: Nós temos aqui sediadas no nosso concelho várias grandes indústrias. Algumas até são referência nacional e que são responsáveis por muitos postos de trabalho ocupados, por vezes, por pessoas da mesma
família.
DM: Essas empresas continuaram a laborar?
MM: Estão a laborar, embora por turnos e com algumas dificuldades. Mas não pararam e continuam com a sua produção.

DM: Elas souberam adaptar-se a esta nova realidade e aos novos mo-
mentos?
MM: Elas estão a adaptar-se com os problemas e com as dificuldades inerentes ao contexto de pandemia que estamos a viver. Elas tiveram que se adaptar, tal como todos nós que tivemos de fazer o mesmo. Não há outra forma de resolver o problema.

DM: Em relação ao pequeno comércio que teve de fechar portaspor força do Estado de Emergência e da força da lei?
MM: Esse é que me preocupa muito. Este é um comércio caracterizado por ser muito familiar, onde trabalham duas ou três pessoas. Esse é que me está a preocupar imenso. Estas casas comerciais são o sustento de muitas famílias e que têm estado fechadas nestas últimas semana sem poder concretizar negócios e obter qualquer rendimento. Eu espero que a partir de amanhã, dia 2 de maio, quando se levantar o Estado de Emergência no país, passo a passo, paulatinamente e devagarinho se comece a voltar à normalidade para que essas pessoas possam sobreviver.
DM: A Câmara de Amares adotou algumas medidas para ajudar estas pequenas empresas e a restauração do conce-
lho?
MM: Nós temos uma comissão permanente de acompanhamento do Covid-19 que diariamente reúne e toma posições. E a nossa preocupação vai para todas aquelas pessoas que se encontram agora no desemprego. Até hoje, nós andámos a distribui cabazes com bens alimentares mais de 180 famílias do nosso concelho. Nós estamos assim a dar respostas àqueles que estão desempregados e que estão com grandes dificuldades. Este é um trabalho diário de acompanhamento que nós temos levado a cabo.

DM: Mas, que tipo de apoio deu a Câmara ao comércio e à restauração? Aliviou em termos de taxas?
MM: O que nós fizemos em termos de água foi dar mais cinco metros cúbicos a todas as pessoas do concelho, porque sabemos que as famílias estão em casa e gastam mais água. Mas, decidimos também que, quando as pessoas forem pagar e provarem que estão desempregadas, nós vamos isentá-las do pagamento da água e do saneamento.

DM: E isso também é válido para o comércio?
MM: É válido para toda a gente no concelho de Amares. Para toda a gente. Todos aqueles que estejam desempregados ou que tenham visto reduzidos os seus rendimentos, na altura do pagamento, nós vamos isentá-los do pagamento de taxas. A medida não pode ser para todos. Eu, felizmente, estou a trabalhar e posso pagar. Nós temos que dar resposta àqueles que necessitam.

DM: Então, um comerciante se provar que foi obrigado a fechar fica isento?
MM: Tanto a restauração como o comércio vão ser isentados porque, de facto, não estiveram a trabalhar.

DM: A restauração soube adaptar-se? Aderiu ao take away?
MM: Penso que no nosso concelho há dois restaurantes que, depois de fecharem em março, optaram por dar esse passo em abril. Por essa razão é que nós decidimos por uma cantina a trabalhar no centro educativo, a cozinhar para a Cruz Vermelha, para os Bombeiros Voluntários, para a GNR, para os enfermeiros e médicos do centro de saúde. Nós estamos a servir diariamente, de segunda-feira a domingo, ao meio dia e à noite, 70 refeições.

DM: Isso é pago pela Câmara?
MM: A Câmara está a pagar a quem está a trabalhar na linha da frente para dar respostas ao combate a esta pandemia que nos tem destroçado a todos.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para que as empresas se aguentem?
MM: Eu não sei se elas são suficientes. As medidas nunca são suficientes. O que foi feito é uma forma de aliviar e de ajudar e eu penso que se podia ter um bocado mais longe. Mas é sempre fácil falar do lado de fora. Mas, o Governo alguma coisa tem que fazer. E a Europa tem que fazer alguma coisa por Portugal. Se não fizer, nós estamos desgraçados porque estapandemia destroçou o país, a Europa e o mundo. Alguma coisa tem de ser feita.

DM: Até onde é que o Governo podia ter ido?
MM: Há muitas empresas que aproveitaram esta fase para desempregar pessoas. Eu penso que a ajuda devia ter sido muito mais célere, para que as empresas não usassem o despedimento.

DM: Acha que é previsível que haja um aumento do desemprego mesmo com as medidas em vigor?
MM: Vai crescer. Não tenham dúvidas que vai crescer. Eu estive reunido com os meus vereadores e a nossa grande preocupação é o desemprego no concelho de Amares, o que fazer e como é que a Câmara pode ajudar. Nós temos estado perto dos nossos empresários para lhes dar a mão e dizer-lhes que estamos aqui. Agora, o Poder Central tem que fazer chegar aos nossos empresários a alimentação, que é o dinheiro.

DM: O turismo é um dos setores que mais sofre com a pandemia. Que danos sofreu o turismo no seu concelho?
MM: Um dano enorme. Amares é um concelho que apostou fortemente no turismo. As nossas pensões, as casas de alojamento local estão todas fechadas, o que me dá uma preocupação tremenda e alguma coisa é preciso fazer. O nosso Primeiro-ministro já apelou que se faça turismo cá dentro e eu concordo com ele. É preciso que o país dê um passo em frente comece de novo a levantar o turismo.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos de proteção social?
MM: Vai, e já começa a haver. Nós já estamos a dar cabazes a 180 famílias que se encontram em dificuldades financeiras, fruto do desemprego e de outras situações. Isto começa a preocupar. O desemprego leva-nos para problemas sociais.

DM: Isto vai obrigar a reforçar o orçamento para a área social?
MM: As verbas que estavam afetas às festas de Santo António, à feira franca, ao Vira Pop, que não se vão realizar, já estão a ser canalizadas para o combate ao Covid-19. E todas as verbas que pudermos vamos encaminhá-las para a parte social. Um trabalho que temos de fazer é uma retificação do orçamento. Temos que nos ajustar e tudo fazer para combater esta pandemia e acudir às questões sociais.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
MM: Se calhar. Provalvelmente um ou outro, mais concretamente aqueles que são financiados, vão ter que ser empurrados para mais à frente. O nosso grande objetivo hoje é combater a pandemia, é lutar pela vida das pessoas. Portanto, há um ou dois projetos, sobretudo o da mobilidade e outros que se podem concretizar muito mais tarde, que teremos que empurrar para 2021 ou mais para diante. Hoje, a luta é a questão social. Esta é a luta que nos tem de mobilizar a todos. Por isso, vamos fazer isso com toda a certeza.



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