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Entrevista a Joaquim Mota e Silva, presidente da Câmara Municipal de Celorico de Basto

José Carlos Ferreira
15 Mai 2020

O presidente da Câmara de Celorico de Basto defende que, para sair da crise provocada pela pandemia vai ser necessário um esforço conjunto da União Europeia.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho de Celorico de Basto neste momento?
Joaquim Mota e Silva (JMS): Neste momento, como em termos gerais no nosso país, temos muitas empresas em lay off, temos muitas atividades paradas, seja na indústria, seja no comércio, seja nos serviços, seja no turismo. Eu diria que a economia neste momento está, em grande parte, parada. O setor agrícola ainda vai mexendo. Para já, é, evantualmente, um setor que sofre alguns problemas, mas não tanto como os outros. Veremos adiante com a questão das encomendas e da exportação, nomeadamente no setor vitivinícola. Mas, efetivamente, nós, concelho de Celorico de Basto, não escapamos àquilo que é a realidade regional e nacional, que é um crescendo de paragem da atividade das empresas, que, por um lado, têm dificuldade em encontrar matérias primas e, por outro lado, fruto da paragem do mercado, a falta de encomendas faz com que não haja produção.

DM: Em relação ao comércio e à restauração que foi obrigada a encerrar portas, a Câmara de Celorico de Basto está preocupada com a situação que vivem? Adotou medidas?
JMS: Quando falo do comércio e do turismo, estou a englobar a componente do alojamento, produtos regionais e restauração. Estas medidas que existem hoje em dia são um bocado de leilão em que algumas entidades embarcam que é para ver quem é que dá mais meia dúzia de euros e, que, na minha perspetiva, em nada contribuem, ou muito pouco contribuem, para a resolução dos problemas destas empresas. Aquilo que se pede e as intervenções que se pedem não é ao nível das autarquias, com meia dúzia de euros de poupança numa cobrança da água ou da eletricidade. O que se pede é, efetivamente, um plano forte a nível europeu, com uma incidência a nível nacional, com a injeção direta de recursos financeiros nas empresas, para que elas possam sobreviver. Quando ao resto, são apenas analgésicos de ocasião dos quais nem sequer se sente os efeitos.

DM: Mas acha que as medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
JMS: O problema de tudo isto é aquele que todos nós sabemos. Este é um problema mundial, é um problema europeu, à nossa escala, e só se sai disto se sairmos todos também em conjunto, nomeadamente a Europa. Imaginemos que, se Portugal conseguir sair e os outros países à volta, como a Espanha, saírem mal, todos nós sabemos que a nossa produção não vai ter escoamento. E, por isso, é importante que os países com quem nós temos parcerias em vários enquadramentos possam ter também uma saída com crescimento económico, para que nós consigamos ter sítios para escoar as nossas produções e exportar, que é aquilo que nós fazemos. Espero também que possa haver a possibilidade da retoma da circulação de pessoas e bens, porque as pessoas sabem perfeitamente que um dos setores mais fortes da economia portuguesa é o turismo. Este setor tem a relevância fundamental na criação de postos de trabalho, na criação de riqueza e no arrecadar de impostos por parte do Estado para depois poder investir naquilo que é fundamental para o nosso país. Por isso, é muito importante que haja esta recuperação com um plano forte da União Europeia, que seja articulado com aquilo que é essencial em cada Estado membro. No nosso caso, em Portugal, penso que aquilo que foi feito numa primeira linha resultou curto, no sentido em que as coisas não estavam a funcionar em termos burocráticos. Mas, depois, tanto a questão do lay off, como os empréstimos, como a questão dos profissionais independentes, e outras medidas já vão funcionando melhor. Mas, pede-se é um plano forte para que, nós e os nossos parceiros, consigamos recuperar para fazermos comércio internacional, que é aquilo que mos traz dinheiro para o país

DM: Deixa-o preocupado uma aparente falta de entendimento na UE para este plano forte?
JMS: Claro que sim. A Europa existe com o princípio do Mercado Comum, mas também com o princípio da solidariedade e sempre com as causas sociais que devem juntar os parceiros europeus. Eu espero que se atue num modelo em que não sejam dois ou três países a decidir por 27 e que seja possível que o futuro se construa com base no princípio da solidariedade, porque ninguém no mundo, e especialmente na Europa, quis este vírus, ninguem com certeza o incomendou, muito menos quis ter os problemas que estão a ter do ponto de vista da saúde e do ponto de vista económico. Portanto, as pessoas têm que se sentar à mesa e, de uma vez por todas, porem de lado as questões da doutrina económica e assumirem que o importante é retomarem a atividade tal e qual nós tínhamos há algum tempo. Isso, sim, é a garantia de que a Europa funciona em termos de motor económico e, obviamente, em termos de progresso, que é o que nós queremos.

DM: É previsível que, mesmo com as medidas adotadas pelo Governo, seja inevitável um aumento da taxa de desemprego?
JMS: O processo vai andando e vamos verificando até onde é que isto vai evoluindo. Se vai demorar mais tempo, ou menos tempo, se a retoma da atividade económica pode ser feita com segurança de forma progressiva. E acredito que o Governo está a fazer a análise da economia, para verificar a cada momento se as medidas são as mais adequadas para garantir que não tenhamos aqui uma quebra enorme daquilo que são os rendimentos das famílias e das pessoas. Na economia há que cuidar de dois vetores. Por um lado, a sustentabilidade das empresas e, por outro, o rendimento das famílias, para que não se tenham aqui problemas sociais mais complexos e graves. Parece-me que está a haver um acompanhamento com atenção no sentido de evitar que, quer empresas, quer famílias caiam.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor no seu concelho?
PC: São danos, para já enormes, brutais, porque as pessoas não viajam. Por outro lado, as pessoas pretendem estar o máximo possível nas próprias casas e, por isso, os danos vão ser, inevitavelmente, neste ano enormes. Tenhamos essa consciência que, de facto, aquilo que poderá amenizar um pouco o turismo nacional é o turismo interno, isto é, os turistas na mobilidade interna, sempre com muitos condicionalismos porque não haverá margem para férias em massa, com destinos como conheciamos. Portanto, será um turismo este ano com um abrandamento muito maior que a economia no seu geral.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
JMS: Se não se garantirem fontes de rendimento às pessoas que estão a passar dificuldades no âmbito das empresas em que estão inseridas, e se não se garantir a sustentabilidade das próprias empresas e a capacidade que seja pago um salário aos funcionários, vamos ter consequências sociais bastante gravosas. Mas, eu quero acreditar que se está a fazer tudo para que não se chegue a esse ponto. E é certo que hoje em dia não é a própria emigração que vale de sustento às pessoas porque os outros mercados estão com taxas de desemprego elevadas.

DM: Vai canalisar verbas para reforçar os apoios sociais?
JMS: Sim. Desde que percebemos que a pandemia estava a avançar no país, nós avançámos com um conjunto de medidas, nomeadamente, o nosso setor da “Câmara Amiga”, ajudando as pessoas idosas e mais desprotegidas a fazer compras. Criámos um conjunto de medidas discretas no sentido de apoiar aquelas pessoas que são mais frágeis e desprotegidas.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
JMS: Não. Eu sou um otimista. No município de Celorico de Basto nada daquilo que estava previsto vai parar. Nós vamos continuar e avançar com o que tínhamos previsto. Eventtualmente, podemos fazer uma reafetação de uma verba ou de outra, de um projeto ou outro, mas não de algo central que seja projeto de crescimento de desenvolvimento.



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