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Entrevista a Victor Hugo Salgado, presidente da Câmara de Vizela

José Carlos Ferreira
14 Mai 2020

O presidente da Câmara de Vizela destinou valor expressivo para ajudar famílias no concelho.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Victor Hugo Salgado (VHS): Nós não podemos analisar e fazer a radiografia do tecido económico e empresarial do concelho sem fazer o respetivo enquadramento. Este enquadramento é muito importante em particular no meu concelho e nesta região do Vale do Ave porque, desde o final do ano transato e o início deste, já se verificava alguma recessão económica inserida nas empresas que mais sustentam, do ponto de vista económico, o concelho de Vizela. Estou a falar das empresas do têxtil e do calçado. Houve já durante este período um conjunto de empresas muito siginificativo, alguma de renome nacional e internacional, que acabou por encerrar no concelho de Vizela. A própria associação responsável pelo setor têxtil deu conhecimento no início deste ano de um estudo que fez onde se afirma que até 2025 se prevê o encerramento de um terço das empresas do têxtil e, previsivelmente, um aumento de na ordem dos 48 mil desempregados até 2015. Nós temos que ver este contexto, que é já, por si só aflitivo, e inseri-lo nesta pandemia que dá origem a uma preocupação reforçada.

DM: Esta pandemia veio dar um empurrão a uma situação que já se verificava?
VHS: Sem dúvida. Eu acho que esta pandemia vem empurrar, claramente, para quase um precipício um conjunto de empresas que se encontravam fragilizadas no concelho de Vizela e nesta região, face a uma crise que já se fazia sentir nestes dois principais setores, no têxtil e no calçado.

Diário do Minho (DM):
E em relação ao comércio que foi obrigado a fechar portas? A situação preocupa-o?
Victor Hugo Salgado (VHS): Preocupa claramente. A Câmara de Vizela, antes deste período, encetou um conjunto de medidas para incentivar o desenvolvimento do comércio tradicional e local. Todos sabemos que este comércio já estava com enormes dificuldades, e a Câmara criou, por exemplo, o “Cheque Bebé” que permite que qualquer família que tenha uma criança receba mil euros, dos quais 500 são obrigatoriamente gastos no concelho de Vizela através de vales. Entre outras medidas, criámos a Loja Histórica, estamos a impulsionar a regeneração dos centros urbanos, estamos a criar um conjunto de medidas para tentar reforçar, apoiar, remodelar o comércio tradicional. Nós sabemos que o encerramento compulsivo que acontece neste período é nefasto para o comércio, e é nefasto também no que concerne à restauração e bebidas. Na verdade, o encerramento destas pequenas e médias empresas, já com alguns funcionários, em que perdem totalmente a receita, continuam a manter grande parte das despesas, o que se torna problemático. Daí que a Câmara de Vizela aprovou, no âmbito do Fundo de Emergência um apoio de medidas ao comércio tradicional, onde a autarquia irá suportar durante o período em que o Estado de Emergência está decretado a água, a luz e a despesa do lixo, com vista a superar, de forma singela, algumas debilidades e algumas despesas.

Diário do Minho (DM):
E as medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
VHS: Não são suficientes. São claramente insuficientes. Acho que o Governo só tem uma medida positiva, que é o facto de ter apoiado a reconversão de várias empresas do têxtil tendo em vista reorientar o seu produto para os produtos de enorme relevância neste momento, que é o caso de máscaras e de fatos. Aí tem algum mérito. Eu tenho no meu concelho empresas que se encontravam saudáveis do ponto de vista económico e aquelas que tinham alguma debilidades. Os empresários das empresas que se encontravam bem o que me dizem é que não vão recorrer a estes empréstimos, a estes apoios. Até porque os empréstimos e apoios que já tinham eram em melhores condições financeiras do que aqueles que o Governo está a dispor neste momento. Por outro lado, aqueles que já tinham as empresas com algumas dificuldades estão a tentar neste momento ir buscar estes apoios. Mas, para estes apoios serem facilitados é preciso que se cumpram um conjunto de burocracias, de regras e um pressuposto de estabilidade financeira e económica, e as empresas que mais precisam nem sempre estão a conseguir estes apoios, o que vai originar um problema bastante grave, que é, hipoteticamente, o encerramento. Na minha opinião, mais do que financiamentos, mais do que mecanismos de apoio transitório com a devolução efetiva num período subsequente, as empresas precisam é de liquidez, que só é possível se houver apoios reais à tesouraria das próprias empresas, se houver apoios a fundo perdido, se houver apoios no âmbito do não pagamento à Segurança Social, da redução substancial de impostos, com a criação de mecanismos que permita as empresas criarem liquidez interna.

DM: As medidas vão ser suficientes para evitar um crescimento da taxa de desemprego?
VHS: Eu acho que é claramente previsível um aumento da taxa de desemprego e, atendendo ao facto das empresas já estarem numa situação debilitada antes da pandemia e agravada com esta, eu acho que é previsível um aumento muito siginificativo da taxa de desemprego.

DM: No setor do turismo, que danos podem surgir com a quebra de receitas?
VHS: Eu acho que são danos incalculáveis. Um dos setores que mais acaba por apanhar com esta pandemia é o do turismo. O que se verifica é a negação de dois pressupostos essenciais. O que se verifica é que o turismo vê vedado duas piossibilidades. Em primeiro lugar o acompanhamento e desenvolvimento de um conjunto de campanhas nacionais e internacionais que a Câmara de Vizela desenvolvia, associada ao investimento transversal nas variadas áreas de consolidação de Vizela como produto turístico. Neste momento estamos inibidos de qualquer tipo de ação de promoção. E, por outro lado, ao contrário do que acontece em muitas empresas que continuam a laborar, no turismo a única saída é o lay off. Mantendo as despesas correntes e efetivas e grande parte das responsabilidades, entre as quais as sociais, eu não sei como será a recuperação das empresas relacionadas com o turismo no concelho de Vizela.

DM: Em termos sociais, é previsível uma maior procura dos instrumentos de proteção social por parte das pessoas?
VHS: Eu acho que é. Neste momento nós já sentimos na própria Câmara. Nós temos um regulamento de apoio social que estamos em processo de revisão, para abrir o leque de apoio e reforçar estes apoios. As proteções sociais são fundamentais e a Câmara de Vizela criou um conjunto de mecanismos ao longo deste período para reforçar estes apoios, desde a distribuição de cabazes, a compras em casa, até apoios de reforço financeiro às IPSS do concelho.

DM: Há verbas que vão ser canalizadas para apoios sociais?
VHF: Nós criámos um Fundo de Emergência na ordem do meio milhão de euros. A Câmara tem um orçamento que anda, em média, em cerca de 15 milhões, o que quer dizer queé um valor muito expressivo e significativo, mas que é fundamental adicionar a este período porque as almofadas sociais são essenciais para colmatarmos as necessidades, as dificuldades e as especificidades de um período tão próprio como este.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
VHF: Eu acho que o que temos de colocar em cima da mesa é claramente o contrário. Nós temos que dividir dois tipos de projetos, que são os do ponto de vista dos apoios dos fundos comunitários. E esses, eu acho, são projetos que têm de ser acelerados, têm de ser objeto de dinamização e de eficácia do ponto de vista da sua execução, para que haja incentivos económicos de uma forma transversal aos vários setores da economia, quer local, quer regional.
Nós iremos fazer tudo para que sejam executados em prazos recorde, para inventivar e desenvolver a economia local. E existem outros projetos que este travão poderá ter limitado. Falo de proje-
tos feitos única e exclusivamente com os fundos municipais, com as re-
ceitas próprias. Aí já temos que ponderar, fazer uma gestão mais cautelosa, numa perspetiva de também não voltarmos a Câmara de Vizela como estava há meia dúzia de anos atrás.



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