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O presidente da Câmara de Fafe afirma que, desde a última crise, o município tem programas de apoio às famílias que continuam prontos a ajudar quem necessitar.   Diário do Minho (DM): Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento? Raul Cunha (RC): O meu concelho não é exceção em relação […]

José Carlos Ferreira
12 Mai 2020

O presidente da Câmara de Fafe afirma que, desde a última crise, o município tem programas de apoio às famílias que continuam prontos a ajudar quem necessitar.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Raul Cunha (RC): O meu concelho não é exceção em relação ao panorama nacional. Nós temos um forte impacto na generalidade do tecido económico do concelho, com maior relevo no pequeno comércio e serviços. Estou a referir-me aos restaurantes, aos cafés, ao comércio local, aos cabeleireiros, aos barbeiros, a um conjunto grande de empresas que, por via do Estado de Emergência, tiveram de encerrar. Embora no tecido industrial esse encerramento não tenha tido tanto impacto, o que estamos a assistir é a um conjunto grande de empresas têxteis aqui da nossa região a procurarem reorientar a sua produção no sentido de responderem às necessidades atuais, nomeadamente da confeção de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

DM: Isso quer dizer que a idústria no seu concelho soube adaptar-se a este novo momento?
RC: Todos foram atingidos. A parte industrial conseguiu acomodar melhor as dificuldades e ultrapassá-las. O comércio foi impossível porque, estando encerrado, não consegue ter negócio. Por isso, nós tomámos um conjunto de medidas mais viradas para o apoio a este tipo de empresas, no sentido de procurar aliviá-las dos encargos e das responsabilidades que têm e com a esperança de que, melhorando esta crise, possamos ter condições de poder retomar a ativi-
dade.

DM: Quais são essas medidas?
RC: Nós tomámos um conjunto de medidas que passam por, nas empresas que foram forçadas a encerrar, isentar a cem por cento a tarifa fixa do fornecimento de água, de recolha de resíduos e do saneamento, das rendas dos estabelecimentos que a Câmara de Fafe tem arrendados. Insentámos ainda o pagamento, por exemplo, das esplanadas, da ocupação do espaço público, da publicidade. Enfim trata-se de um conjunto grande de medida que vão no sentido de procurar ajudar a ultrapassar este momento. Para além da isenção total, reduzimos esses custos do fonrecimento da água, do saneamento, da recolha de resíduos e das rendas a empresas que tiveram um impacto grande, ou seja, mais de 40 por cento de redução da faturação, na sua atividade. Passámos a cobrar só 50 por cento. Este é um esforço grande para o município, mas muito orientado para no sentido de ajudar as empresas a enfrentar esta situação, que esperemos termine em breve, que não se prolongue por muito mais tempo. É claro que, em primeiro lugar está a vida.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
RC: Eu acho que as medidas que o Governo tem tomado têm vindo a ser tomadas com alguma prudência e adaptadas ao evoluir da situação. Portanto, eu penso que forma as medidas possíveis naquela altura em que foram tomadas, mas acredito que vão sendo calibradas e reforçadas, ou não, conforme o evoluir da
situação.

DM: Um dos problemas apontados pelas empresas é a falta de liquidez. Acha que medidas como o lay off ou os empréstimos ajudam a haja esta liquidez nas empresas?
RC: Eu acho que as moratórias e os empréstimos ajudam seguramente. Agora, podem é não ser suficientes. E há um aspeto que eu acho que é muito importante e que se tem verificado. É o atraso entre a decisão política e a concretização no terreno. Este é um velho problema nacional, que é entre a delibração e depois a concretização da mesma no terreno há sempre um atraso siginificativo. E, agora, estes tempos não se compadecem com atrasos, porque as empresas acabarão por entrar em incumprimento se não conseguirem ter a liquidez necessária para cumprir os seus compromissos.

DM: E neste caso as prejudicadas são mesmo as empresas?
RC: Claro. As empresas não são as paredes, são as pessoas, e, portanto, são as pessoas que acabam por ficar em situação difícil.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
RC: Tudo leva a crer que sim. Se as empresas, quando esta situação se for aliviando, não tiverem condições de retomar a atividade normal, obviamente que o desemprego irá aumentar. Mas, neste aspeto, eu acho que estamos a fazer todos um exercício de adivinhação. Isto é tudo novo. Nós não sabemos como é que a dinâmica económica e a dinâmica social se vão comportar. E estamos todos a fazer cenários. É com isso que temos de trabalhar e não conseguimos adivinhar o futuro. Mas temos é que ter a capacidade de ajustar as nossas medidas, as nossas reações e as nossas atitudes ao evoluir da situação e conforme aquilo que se for verificando.

DM: O facto de esta não ser uma crise estrutural, como as últimas que vivemos, mas uma crise provocada por algo de novo pode ser uma vantagem?
RC: Como já disse, isto é algo de novo. Eu não lhe chamaria vantagem. É uma situação diferente. Primeiro porque tem uma dimensão mundial e o mundo inteiro fechou. Se ao fim de um ou dois meses isto abrir, não sabemos como é que a economia se vai comportar quando se soltar a tampa. Portanto há aqui toda uma aprendizagem que tem de ser feita porque não há propriamente um histórico para sabermos como é que as populações e a economia se comportam em situações deste
tipo.

DM: Que danos causou esta pandemia ao turismo no seu concelho?
RC: O turismo é um dos setores mais atingidos.O nosso município assenta muito a sua capacidade hoteleira no turismo de habitação rural e também está a sofrer muito com isso. Nós esperamos que isto seja transitório. Enquanto que a atividade comercial de rua poderá retomar a sua atividade quase normal quando isto cessar, o turismo vai demorar mais algum tempo a recuperar. Não consigo fazer a distinção entre aquilo que desejo e aquilo que eu acho que vai acontecer. Eu desejava que isto se resolvesse rapidamente, mas não prevejo que nos próximos tempos seja possível.

DM: Acha que anos de trabalho podem estar em causa?
RC: Desde de 2014 dotámos o município de um conjunto de programas especiais que, na altura, em plena crise, continuam hoje em vigor e nos permitem responder de forma ágil, sem criar grandes medidas extraordinárias, à situação de carência das pessoas. Portanto, as pessoas e as famílias em Fafe estão relativamente protegidas por um conjunto de ferramentas que permitem ir valendo às situações que vamos encontrando. Precisa, obviamente, de ser reforçado e canalizado um conjunto de recursos financeiros que já não estavam aí colocados, mas que têm de ser aí alocados novamente. Esse tipo de trabalho existe, permanece e irá continuar.

DM: Acha que pode haver uma maior procura dos instrumentos de proteteção social?
RC: Obviamente. Já estão a acontecer. Neste momento nós estamos a reforçar o apoio às crianças através do fornecimento de refeições, a reforçar a distribuição de alimentos através do Banco Alimentar. Nós temos um programa municipal de apoio à renda que estamos a alterar no sentido de se prolongar no tempo para ajudar as famílias e aliviar os seus orçamentos, temos um programa municipal de emergência que permite a suportar despesas imprevistas ou despesas regulares impossíveis de manter. É todo um conjunto de medidas para dar condições às pessoas para ultrapassar esta fase, esperando que isto dure o menos possível.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
RC: Ainda não temos isso definido. Eu não diria cancelar, nem esperar. Eu diria que as obras todas elas, estão a sofrer alguns atrasos. Os empreiteiros estão com dificuldades em conseguir o fornecimento de materiais, eles têm os seus trabalhadores também a trabalhar por turnos e, portanto, têm menos trabalhadores a trabalhar ao mesmo tempo. Portanto, todas as obras estão a ter uma execução mais lenta. Ora, uma execução mais lenta obriga a uma programação diferente. Assim, uma obra que se iniciaria e acabaria este ano, naturalmente o que vai acontecer é começar e acabar no próximo ano, ou começar este ano e acabar no próximo ano.



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