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Entrevista a Fernando Nogueira, presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira

José Carlos Ferreira
11 Mai 2020

O presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira fez a radiografia empresarial e industrial do concelho neste momento
de pandemia.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Fernando Nogueira (FN): O tecido empresarial foi um dos setores mais afetados no concelho. Tínhamos grandes unidades industriais a funcionar, algumas delas com muito mais de um milhar de trabalhadores, muitos deles trabalhadores transfronteiriços, e estas empresas numa primeira fase encerraram. As do setor da alimentação reduziram muito a sua atividade, mas as outras encerraram e puseram em lay off ou mesmo no desemprego muitas centenas, senão milhares, de trabalhadores. O universo dessas empresas em Vila Nova de Cerveira deveria corresponder, em “grosso modo”, a mais de quatro mil pessoas. Claro que, destas quatro mil, 60 por cento não são do concelho, mas diria eu que 80 por cento dos trabalhadores deixaram de trabalhar. Eles estão agora a retomar lentamente e vai levar muito tempo. Portanto, o panorama em termos empresariais no concelho é catastrófico.

DM: E em relação ao pequeno comércio que foi obrigado a fechar as portas por força da lei?
FN: Muitos deles com certeza, ou não irão reabrir, ou vão ter muita dificuldade em reabrir. Neste pequeno comércio trabalham famílias, duas a quatro pessoas, em muitos deles apenas uma pessoa, e estes foram os que tiveram o impacto imediato. Todo este pequeno comércio trabalha para o dia a dia. Não tem grande “pé de meia”, como se costuma dizer. Estes foram extremamente afetados logo no início, a não ser aqueles comércios de bens essenciais que podiam, e podem, estar abertos. Na restauração, algumas casas reinventaram-se com o “take away”, mas numa escalar muito reduzida. Portanto, um setor que estava em franco desenvolvimento e que estava com uma projeção muito interessante no concelho sofreu um abalo enorme. Eu diria que é um abalo telúrico elevado na escala de Richter.

DM: A Câmara entendeu este momento. Implementou medidas para suavizar este abalo sísmico?
FN: Das primeiras medidas que procurámos tomar foi precisamente para o pequeno comércio. Mas, essas medidas são um mero paliativo. Nós não temos muita margem de manobra para uma ajuda imediata, Nós propusemos, a Câmara aprovou e vai ser ratificado na Assembleia Municipal, a redução das tarifas fixas através das Águas do Alto Minho para o pequeno comércio, a isenção das tarifas de resíduos sólidos urbanos, suspendemos até ao final do ano o pagamento de tudo quanto eram taxas municipais referentes a esplanadas ou publicidade, entre outras. No fundo foram medidas de imediato que estão ao alcance das Câmaras e que as autarquias tiveram em atenção. Nós aqui, logo numa primeira ação, fomos também por aí para dar este sinal e este apoio. Mas, isto, claramente, é um paliativo para esta gente.

DM: Tem recebido as queixas dos trabalhadores transfronteiriços que, só por poder em entrar ou sair por Valença, têm que fazer mais 50 quilómetros?
FN: Sim, temos recebido pelas redes sociais essas reclamações. Nós temos muitos galegos a trabalhar em Vila Nova de Cerveira, mas também temos muita gente do concelho a trabalhar na Galiza. Muita gente nossa que trabalha nos concelhos do outro lado do rio. Cerveira e Tomiño são muito próximas, têm muita afinidade e, em termos empresariais, não são concorrentes, são complementares. Nós temos trabalhadores municipais que moram do lado de lá. E, agora, isto corresponde a ter que ir a Valença, ou seja, a um incremente de mais de 50 quilómetros diários, agravados com o problema de ter que atravessar uma fronteira, com controlos e tempos de espera. É um transtorno. Aproveito para dizer que Vila Nova de Cerveira deu um salto qualitativo muito grande, em termos económicos, com a ponte inaugurada em 2005. Em relação à medida de encerramento das fronteiras, eu não digo que não foi importante. Mas é um transtorno enorme para os trabalhadores transfronteiriços.

DM: Acha que as medidas implementadas pelo Governo são suficientes para que as empresas se aguentem?
FN: Eu comungo da ideia de que podem aparecer muitos milhões, mas o que as pequenas e médias empresas precisam é de liquidez imediata, ter dinheiro para pagar aos trabalhadores ao fim do mês e pagar as matérias primas que recebem. Caso contrário, isto entra numa cadeia em que ninguém paga a ninguém e então é que colapsa totalmente. Nós temos sentido em todas as medidas que os sucessivos Governos vão implementando é que há muita burocracia. Nós sabemos que o rigor é importante, tal como é importante ser sério e não haver aproveitamentos. Mas, as empresas precisam de liquidez, eu diria, na hora. E estas burocracias todas ainda agravam mais a situação das empresas.

DM: Então o grande problema é a demora da entrada do dinheiro nas empresas?
FN: Para mim, é. E eu não sou empresário, mas é o que me vou apercebendo.

DM: Mesmo com estas medidas implementadas pelo Governo, acha que é inevitável o aumento da taxa de desemprego?
FN: Claramente e exponencial. Eu diria que Vila Nova de Cerveira durante ultimo período complicado da nossa economia, entre 2009 e 2015, foi um concelho favorecido, que sempre teve uma taxa de desemprego abaixo da média nacional. Os nossos empresários sempre foram espetaculares, dinâmicos e conseguiram manter a empregabilidade muit acima da média nacional. eu espero que nesta crise eles também consigam fazer esse prodígio. No entanto, a minha expectativa é que a redução dos postos de trabalho será de cerca de 20 por cento nas nossas empresas, com trabalhadores dos dois ladosdo rio, e esta é uma visão francamente otimista, o que poderá representar um crescimento de oito por cento da taxa de desemprego para nosso concelho. Esta é uma estimativa muito empírica, mas um risco muito real.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor no seu concelho?
FN: O turismo era um dos setores mais emergentes no nosso município e na região, com uma dinâmica muito interessante. Neste momento, por exemplo, em termos de hotelaria e dormidas, o setor está completamente fechado no concelho. Os hotéis fecharam todos, a Pousada de Juventude está fechada. Basta ver isto para perceber o problema. Em termos de turismo rural e turismo de habitação também está tudo fechado e a minha dúvida é: quando será a retoma? Eu espero seja progressiva e ainda este ano.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
FN: Já está a haver. Nós estamos já a apoiar neste, diria eu, início da crise. No nosso concelho, que não é muito grande, já temos um apoio direto em alimentos a mais de 350 pessoas, e a procura está a crescer; estamos a dar refeições às crianças das escolas integradas nos escalões abrangidos; estamos a dar apoio a casos sociais de imigrantes, pessoas que vieram, por exemplo da Venezuela, da Argentina, da Índia, que chegaram ao país recentementee estão completamente desprotegidos, sem eira nem beira, sem um salário, sem poder confecionar uma refeição. E estas situações estão a crescer. Enquanto não houver retoma, principalmente empresarial e do pequeno comércio, esta situação vai ter tendência a aumentar.

DM: Vai transferir verbas para reforçar o apoio social?
FN: Já estão a ser transferidas as verbas possíveis. Nós ainda não sabemos como vai ser o desfecho dos contratos dos eventos cuturais. Mas todas as verbas disponíveis vão ser para apoios sociais.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
FN: Eu diria, de uma forma genérica, que todos os projetos que não tenham financiamento comunitário garantido e financiamento nacional vão ter que esperar. Não sei se por ano ou dois. Pelo tempo que for necessário, até equilibrarmos as finanças. Tudo o que são receitas próprias do município vão levar uma redução drástica.



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