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Entrevista a Francisco Alves, presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto

José Carlos Ferreira
10 Mai 2020

O presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto afirma-se muito apreensivo com o futuro de algumas empresas e com o desemprego jovem que daí possa advir.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Francisco Alves (FA): A radiografia do meu concelho de Cabeceiras de Basto não será muito diferente dos concelhos que têm a mesma tipologia da nossa. Portanto, é com grande preocupação que eu vejo a radiografia do tecido económico e comercial, principalmente no que diz respeito ao pequeno comércio e à restauração. Pelo conhecimento que tenho, aqui no concelho o comércio está quase todo fechado, a não ser aqueles estabelecimentos que estão ligados aos bens essenciais. Os restaurantes estão quase todos fechados, servindo apenas em “take away”. Por isso, estou preocupado porque isto já está assim há sensivlemente um mês e o Estado de Emergência foi declarado por mais 15 dias, e eles vão continuar fechados Por outro lado, Cabeceiras de Basto tem um tecido económico não muito grande. Nós temos algumas empresas de alguma dimensão, que se estão a adaptar, nomeadamente na feitura de Equipamentos de Proteção Individual. Eu conheço algumas que estão a adaptar-se e nós até já adquirimos materiais a algumas delas. Mas, a maior parte está a laborar em pequena escala, outras aderiram ao lay off. Contudo, reconheço que algumas vão ter muita dificuldade em reabrir. Nós temos, pelo menos duas empresas que empregam cerca de cem pessoas, essencialmente jovens, e é uma situação que me preocupa. O Governo tem lançado algumas medidas de apoio. Serão necessárias mais e solicitamos ao Governo que tenha em consideração os pequenos comércios, que são também motor de desenvolvimento do nosso concelho.
DM: A autarquia já desenvolveu medidas para estes comércio?
FA: Nós estamos a criar, está já em andamento, o chamado Gabinete de Acompanhamento Covid-19, constituído por autarcas e técnicos do município, e a sua missão será estudar e propor a adoção de medidas de apoio às famílias, à atividade económica. E iremos solicitar contribuições de várias instituições, nomeadamente às IPSS, ao Agrupamento de Escola, à Associação de Pais e à estrutura representativa dos empresários de Cabeceiras de Basto. Nós vamos solicitar a estas entidades que nos façam chegar algumas das suas preocupações tendo em vista minimizar os efeitos da crise. Por isso, no apoio às famílias, não fizemos como muitos municípios fizeram, que foi isentar o pagamento de água e resíduos sólidos. Nós adiámos o pagamento por 90 dias para que depois este gabinete avalie cada situação.
DM: E o setor primário? A setor da agricultura, em especial o vinho, foi atingido no seu concelho?
FA: Sim. Esta pandemia não escolheu setores, não escolhe pessoas. É transversal a todos os setores. A agricultura também foi afetada, apesar das pessoas estarem em casa e de terem mais tempo para cultivar as suas terras. Mas, eu acho que o setor primário também terá aqui algumas dificuldades. Nós já temos algumas medidas que estavam a ser aplicadas como o apoio às empresas agrícolas que iniciam atividade, o apoio à criação do gado bovino e suíno. Nós temos que fazer o nosso papel ao longo do ano, e não só agora, nesta situação de pandemia. Sabemos que a situação é extraordinária e teremos que apoiar e ter algum cuidado nas situações do setor primário. É um setor importante para Cabeceiras de Basto e iremos até onde pudermos, não regatearemos esforços para apoiar as pessoas que se dedicam à agricultura.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
FA: Não serão suficientes, mas o Governo também não poderá apoiar todas as empresas. Eu louvo o papel que o Governo tem feito no apoio a estas empresas. Este apoio nunca será suficiente, mas com a ajuda dos municípios e a determinação dos nossos empresários, que não viram a cara à luta, eu acho que as empresas vão dar a volta por cima, umas com mais dificuldades, outras com menos. É claro que a atividade destas empresas sofreu um forte revés, mas os empresários, não só de Cabeceiras de Basto, mas do país, estão habituados a sofrer crises, como a de 2008/2009, e mais uma vez vão ter que se reiventar. Eu acho que a nossa vida não vai ser a mesma e a própria vida das empresas também não será a mesma. É claro que o Governo tem um papel fundamental, mas as próprias empresas têm que se reinventar para que o seu desenvolvimento seja uma realidade. Esta crise vai deixar marcas, mas as crises servem também para criar novas oportunidades. Os empresários de Cabeceiras de Basto, que eu conheço bem, são pessoas determinadas e têm soluções.

DM: Assim, um aumento da taxa de desemprego é inevitável?
FA: Isso é inevitável. Eu acho que o desemprego vai aumentar, essencialmente o desemprego jovem. As empresas que nós temos aqui em Cabeceiras de Basto geralmente empregam pessoas jovens. Há aqui uma empresa que tem 110 pessoas e são todas jovens e, nalguns casos até são marido e a esposa. Esta empresa entrou em lay off e está a reinventar-se para fazer máscaras e material de proteção. Nós somos um concelho do interior e o desemprego jovem é o que me preocupa mais. Mas, eu penso que a taxa de desemprego, inevitavelmente irá aumentar, e ela já está a acontecer. Por isso, tem que existir um apoio ao tecido empresarial de modo a que consiga ultrapassar esta crise e para que o desemprego não seja um aspeto negativo no nosso concelho, mas que seja uma oportunidade para que os jovens possam procurar outras formas de trabalho.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor no seu concelho?
FA: O que estava a acontecer no nosso concelho era algum incremento no turismo. Nós somos um concelho aprazível, com boa gastronomia, boas paisagens, com pessoas que sabem receber. Portanto, notava-se um crescimento do tursimo. Com esta pandemia, as coisas diminuíram, mas, tenho a impressão que, iremos, com o nosso esforço, o esforço do Governo e o esforço dos agentes económicos, ter uma retoma, embora, vá demorar algum tempo.

DM: Posso depreender pelas suas palavras que anos de trabalho podem estar em causa?
FA: Sim, podem estar em causa. Foi um retrocesso muito grande na nossa vida, na vida das empresas e na atividade da Câmara Municipal. Mas, nós vamos continuar com o plano de desenvolvimento que temos para o concelho, nomeadamente, com a realização de algumas obras que estão previstas e dependem de fundos comunitários. Nós temos um investimento bastante grande no concelho, e vamos continuar com esse desenvolvimento porque a verbas estão garantidas. Embora, nós tenhamos que redirecionar, em termos orçamentais, algumas verbas que estavam destinadas a algumas iniciativas e algumas obras para esta problemática do Covid-19. Não podemos esquecer que estas obras são essenciais para o desenvolvimento do nosso concelho. Muitas das empresas locais, nomeadamente da construção civil, dependem muito da atividade da Câmara. Portanto, nós não queremos que, com esta pandemia, que já basta, parar a atividade da Câmara. E não o vamos fazer. Naturalmente que há um retrocesso. eu julgo que este ano está praticamente perdido porque isto não vai acabar agora em maio nem em julho, portanto vamos ter que esperar para ver o que acontece e ver que perderam-se alguns anos. Mas vamos ultrapassar esta crise e vamos depois tentar ganhar alguns anos para que o prejuízo não seja muito grande.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
FA: Não tenho dúvida que vai haver uma maior procura. Vamos ter mais pessoas a dirigirem-se à área social da nossa Câmara. Nós já estamos a prestar apoio a várias pessoas através do Contrato Local de Desenvolvimento Social e através da Basto Vida. Aliás, o desemprego tem a particularidade de obrigar as pessoas a recorrer a estes apoios sociais, e o Estado, aqui, tem um papel importantíssimo no apoio a estas pessoas.



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