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Entrevista a Benjamim Pereira, presidente da Câmara de Esposende

José Carlos Ferreira
9 Mai 2020

O presidente da Câmara de Esposende espera pedidos de ajuda social e, para acudir, tem as verbas dos eventos cancelados.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Benjamim Pereira (BP): Nós fomos todos atropelados por este Covid-19. Por mais que tivessemos planeado algum programa eleitoral, ele foi à vida porque ninguém poderia prever uma situação destas. Do ponto de vista da económico e do que vou vendo, nós somos um município de turismo, portanto, toda a componente de alojamento e da restauração tem um peso muito importante. Os Caminhos de Santiago têm uma dinâmica muito forte no município, com algumas unidades privadas a servir de albergue. Portanto, é toda uma economia à volta disto que se viu afetada, eu diria quase a cem por cento. Assim, hotéis e alojamento local estão praticamente todos encerrados. A restauração é também um setor que apresenta um impacto muito forte. Mesmo assim, ainda há um ou outro restaurante que faz “take-away”, mas, naquilo que era a dinâmica no concelho, está quase bloqueada. Quanto ao comércio, a maioria das empresas que recorreu ao crédito adicional pertence a este setor, que se viu obrigado a encerrar. Nós andamos por estas ruas da cidade, da Apúlia e de Fão e vê praticamente tudo fechado. Eu diria que o comércio de bens essenciais é que mantém atividade, o resto está tudo fechado. É uma situação catastrófica deste ponto de vista.

DM: E na indústria?
BP: Na indústria, a maior parte das empresas continua a funcionar dentro das recomendações da DGS. Temos uma ou outra que recorreu ao lay-off, mas poucas. Desse ponto de vista, podemos dizer que ainda não há um grave problema neste momento. Também temos tido sorte porque somos um município sem muitos infetados e, os poucos que temos, não têm nada que ver com as unidades industriais. O turismo, que estava em franco crescimento, é um setor tradicionalmente composto por empresas muito de caráter familiar e vive muito da sazonalidade e temos uma situação difícil de gerir. Na agricultura, praticamente toda a gente continua a trabalhar. Do ponto de vista da produção de leite, nós questionámos a cooperativa e houve um aumento das vendas. No que diz respeito às hortícolas, que é uma grande força do município, houve uma quebra brutal. Os nossos produtores vendem mais para o comércio local, para as cantinas, que estão todas encerradas, e tiveram quebras na ordem dos 40 a 60 por cento, daquilo que nos foi dito. Ou seja, o agricultor não para, as sementeiras estão lançadas, as colheitas acontecem no tempo em que têm de acontecer, independentemente de haver ou não Covid-19, a dificuldade reside no escoamento do produto.

DM: E a comunidade piscatória de Esposende também tem sentido dificuldades?
BP: O setor da pesca também tem sentido dificuldades. Mas os pescadores encontraram uma forma engenhosa de vender o peixe, que é a licitações online. Eles mostram os cabazes e conseguem que as pessoas comprem à distância sem correrem o risco de se exporem à contaminação e à proximidade que é própria de um leilão. Mas, eles já têm uma vida tão difícil. É tudo tão complexo. Desde as condições que têm para laborar aqui em Esposende, com o rio assoreado, uma barra quase sempre encerrada. A situação não é fácil mas, terão os correspondentes apoios por parte do Estado e tentarão sobreviver a mais uma crise.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para que as empresas se segurem?
BP: Todas as medidas que sejam tomadas por parte do Estado no sentido de apoiar as empresas são sempre bem-vindas. Nós temos que perceber que o Governo no seu todo não tem capacidade financeira para fazer face a todas as dificuldades que surgem no tecido económico do país em simultâneo. Eu acho que, o que foi feito ajudará, com toda a certeza. Poderá ser insuficiente dependendo do tempo de normalização, da forma como se possa regressar ao trabalho e da carteira de encomendas. Se aparecerem as encomendas e se as empresas trabalharem tenho a certza que as medidas que estão neste momento implementadas pelo Governo serão suficientes, com o apoio de tesouraria, com o recurso ao crédito, com o adiamento de outros compromissos perante o Estado, como a taxa social única. Portanto, essas medidas têm enquadramento e podem ser suficientes, mas são temporárias. Ou seja, se se prolongarem por mais seis meses, será uma hecatombe total das empresas do nosso país. Mas, acredito que não venha a ser assim e que dentro de um mês ou dois, paulatinamente, cumprindo as regras, será possível regressar ao trabalho. Todos temos que nos reinventar em tempo de crise. A ideia de trabalhar por turnos, de forma que, havendo alguém infetado, não comprometa toda a unidade, se se adotarem medidas de afastamento e os cuidados básicos com as máscaras, as luvas, eu tenho a certeza absoluta que vai ser possível pôr esta máquina outra vez a funcionar. Eu acho que o Governo não poderá fazer muito mais.

DM: Acha que vai ser suficiente para impedir a taxa de desemprego?
BP: É impossível de evitar. Haverá sempre um aumento do desemprego. A questão coloca-se pelo lado da recuperação do emprego. Aqui não é o caso de uma crise estrutural provocada pela descapitalização da banca, sem forma de capitalizar durante algum tempo. Não é o caso. Aqui, eu acho que nós fizemos uma paragem durante algum tempo, mas que terá uma reanimação rápida. Se é verdade que haverá um número de desempregados grande durante algum tempo, que poderá crescer, também é verdade que depois será recuperado muito facilmente. Eu acredito que depois desta paragem, apesar de mudarem algumas coisas na nossa cabeça enquanto consumidores, logo que haja condições de segurança as pessoas regressarão ao consumo. E o consumo ativa a economia, fazendo com que as empresas laborem, produzam e voltem a gerar riqueza.

DM: Sente que, no turismo, podem estar em causa anos de trabalho?
BP: Nós tivemos aqui uma espécie de “El Dorado” durante algum tempo, tivemos um crescimento quase à média de dez por cento ao ano no turismo no país. E o turismo não é só a componente direta, ou seja, o turista que nos visita e que consome. É toda uma dinâmica em termos de imobiliário, e refiro-me aos grandes centros urbanos. Não tenho dúvida que levámos aqui uma machadada tremenda nessas ambições. Houve muitos negócios realizados numa expetativa de revenda dos próprios prédios que vão ficar gorados, ou suspensos durante algum tempo até que se perceba se retoma, ou não. Só quando houver uma normalização mundial em termos de segurança para as pessoas se deslocarem é que voltaremos a ter turistas. Quanto tempo isso demora? Uma coisa é a reanimação económica interna e outra é contar com o que vem de fora. Acho que vai ser um período difícil e vai demorar alguns anos.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
BP: Sim. Havendo dificuldades, as pessoas socorrem-se dos instrumentos sociais e, nomeadamente apoiam-se muito nas autarquias e naquilo que nós, de forma mais direta, lhes damos. Não tenho dúvida que o aumento do desemprego vai trazer um conjunto de problemas. Eu, olhando à realidade do meu concelho, temos um concelho com muito poucos problemas a nível social. E temos já um conjunto de mecanismos criados que vão dando apoio às pessoas. Eu confesso que não estou muito preocupado com Esposende deste ponto de vista. Mas, em termos nacionais estou bastante preocupado. As formas de subsistência das pessoas estão muito condicionadas e, faltando a forma de subsistência, o seu emprego, não têm outras formas. Estão totalmente dependentes de um Estado Social que se exije que se mantenha minimamente ativo.

DM: Vai deslocar verbas do orçamento para a área social?

BP: Há duas dimensões de apoio social. Há aquele apoio social mais estrutural e depois há o apoio social para um determinado período, que é este caso. Sim vamos dar mais apoio e as verbas são muito simples de se ver onde se vão buscar. Eu vou tentar não comprometer o desenvolvimento do meu concelho em termos daquilo que é o nosso plano plurianual de investimento. Se for necessário sacrificar algum projeto em prol do social, eu faço sem pensar duas vezes. Mas estas verbas decorrem da nossa atividade mais corrente, os eventos que foram cancelados.



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