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Entrevista a João Manuel Esteves, presidente da Câmara de Arcos de Valdevez

José Carlos Ferreira
8 Mai 2020

O presidente da Câmara de Arcos de Valdevez acredita que o investimento em obras públicas, com a ajuda do privado, pode ajudar a reanimar a economia.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
João Manuel Esteves (JME): Neste momento o que temos é uma travagem a fundo. Portanto, um conjunto de atividades relacionadas com o turismo estão completamente paradas, na restauração poucos estãoem modo “take-away”, e depois, tudo o que é restauração pura e dura e os serviços associados ao turismo, estão todos eles parados. Depois temos o comércio fechado, os serviços, tirando os de necessidade para a população, também fechados. Na indústria, as grandes unidades estão em lay-off, outras tiveram de parar completamente e, portanto, temos uma situação complexa. Na agricultura, nós estávamos a fazer um caminho para os produtos locais e isso ficou muito difícil de promover e de continuar. Portanto, eu diria que a situação no concelho de Arcos de Valdevez não é diferente da situação na região Norte ou no país. A economia parou e nós temos que encontrar aqui forças dinâmicas e articulações entre todos para tentarmos encontrar soluções que possam ajudar a erguer. Neste momento, as coisas estão muito mal.
DM: Essa é uma radiografia nada positiva.
JME: Neste momento. Nós já tomámos um conjunto de medidas aqui na Câmara, algumas delas relacionadas com o aumento de liquidez. No que diz respeito às relações com os fornecedores, estamos a pagar a menos de 30 dias, reduzimos também a isenção de taxas e tarifas de água, saneamento, resíduos sólidos para as pequenas e médias empresas, comércio e indústria, também estamos a definir com a Associação Comercial e Industrial e a Cooperativa Agrícola um plano de relançamento da economia. Ou seja, eu tenho transmitido que as coisas não estão fáceis, mas teremos que encontrar forças juntos, que vamos certamente encontrar, para ultrapassar esta dificuldade.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para que as empresas se segurem?
JME: Aquilo que se vai percebendo é que neste momento elas não são suficientes. Existe um problema central que é o da liquidez, ou seja, ter dinheiro ao fim do mês. Esse é um problema fundamental que tem de ser resolvido. E, para ter dinheiro ao fim do mês, é preciso que a economia mexa, é preciso que se compra e que se venda. Para isso, vai ser necessário encontrar outros instrumentos de apoio às empresas, e, o Estado e nós as autarquias, vamos ter que encontrar apoios para as empresas para criar esta dinâmica de transação, e continuar a lançar concursos, tentando que o investimento público não diminua. Vai ter que ser a partir do investimento público, do apoio ao investimento privado e à vida das empresas que este processo vai ter que se reolver. Eu diria que vamos precisar de outras medidas que aumentem a liquidez das empresas.

DM: O lay off aliviou de alguma forma a liquidez das empresas?
JME: O lay off não alivia a liquidez porque as empresas continuam a ter qua pagar. O que o lay off está a fazer é um escape durante um período de tempo, mas não pode ser encarado como uma solução, porque as empresas não querem ter os trabalhadores parados, e não poder ser uma via para o despedimento. Os empresários deste país, nomeadamente os que têm grandes responsabilidades, têm que transmitir essa mensagem. Eu diria que o lay off é um paliativo, ou seja, é um medicamento para esta altura, mas não é a cura.

DM: Com estas medidas, é previsível o aumento da taxa de desemprego?
JME: Sim, é natural que ela aconteça. Há uma contração na economia e, portanto, é natural que isso aconteça. Mas, temos que ser suficientemente inventivos para criar condições para estas pessoas que estão, ou possam vir a ficar, no desemprego, para que rapidamente voltem ao emprego ou elas próprias criem o seu emprego. Uma parte deles são trabalhadores muito válidos e ajudam muito a economia e ajudam muito a vida das suas famílias. O desemprego ou o lay off durante muito tempo atinge o rendimento das famílias, e isso cria muitos problemas, desde logo problemas de subsistência, problemas com os filhos, portanto é necessário dar os outros apoios para minimizar a redução do orçamento familiar. Um dos apoios que nós decidimos é o reforço da ação social escolar, em que a Câmara atribuiu a verba de cerca de 40 mil euros para a aquisição de computadores para alunos de famílias vulneráveis. Muitas das famílias que tinham a sua situação equilibrada, neste momento entrou em desiquilíbrio e, por isso, temos que ser criativos a ajudar a equilibrar o orçamento familiar, a ajudar as pessoas a encontrar novas competências e outras a criar o seu próprio emprego.

DM: O turismo é o setor que mais sofreu com a pandemia. Que danos identifica no seu concelho?
JME: Eles são evidentes neste momento, Este é o setor que está completamente parado. Há aqui situações que nos preocupam. Não prevejo que, de um momento para o outro, haja uma explosão do turismo e que se consigam repor os níveis. Nós vamos ter que criar aqui programas novamente de incentivo à visita de locais, de regresso à degustação da nossa gastronomia. Mas, num contexto ligeiramente diferente daquele a que estávamos habituados. Num contexto, agora, em que as medidas de prevenção e contenção do contágio estejam presentes. Portanto, este é um setor onde se tem, rapidamente, reinventar, e aí tem de haver um papel preponderante em termos das estruturas nacionais, quer ao nível do Ministério da Economia, quer do Instituto de Turismo de Portugal, em articulação com as regiões de turismo e das autarquias. Vamos ter que encontrar maneiras de promover o turismo e as deslocações para visitas, garantindo aos turistas e às empresas que, minimamente, estão a ser cumpridos medidas de contenção e de prevenção da propagação do vírus. Tal como na economia, temos que apelar ao consumo dos produtos locais e a mesma coisa nas deslocações dentro do país.

DM: Sente que, em termos gerais, anos de trabalho podem estar em causa?
JME: Eu acho que todos nós estamos num processo de aprendizagem relativamente a esta questão. A economia mundial parou dois meses. Ninguém imaginava que isto fosse possível, portanto, estamos todos os dias a reaprender que, apesar de ter travado a fundo, nós temos que encontrar soluções expeditas que apoiem as empresas, que apoiem os trabalhadores. Ao apoiarmos as empresas e os trabalhadores, estamos a apoiar a nossa sociedade, garantindo que todos nós possamos viver numa sociedade mais solidária, equitativa, dinâmica e sustentável.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
JME: Sim, claro que sim. Há aqui uma alteração substancial de comportamentos sociais e há aqui uma alteração substancial no orçamento das famílias. Portanto, já está a decorrer este recorrer aos instrumentos de proteção social. As pessoas ainda foram aguentando, mas, com a diminuição dos seus rendimentos que provêm do trabalho, o recurso ao apoio socialpor parte da famílias aumentou e temos que tentar resolver isto na soilidarieda, no trabalho em equipa. Nós, desde a primeira hora, que montámos uma linha de apoio social para as pessoas mais necessitadas, para poder levar a comida que falta, as compras que não se podem fazer, os medicamentos, para apoio psicológico.

DM: Vai ter que deslocar verbas do orçamento para a área social?

JME: Já estão a ser canalizadas. Nós já temos investimentos a decorrer que vão fazer essa inversão. Mas, também me parece que esse é um facto. Muitas das prioridades do município em termos socais vão ter que ser agora reforçadas. Se nós já tínhamos preocupações em termos sociais, de apoio às famílias, de apoio aos jovens, de apoio aos idosos, de apoio às pessoas que procuram emprego, agora, claramente que essas vão todas elas aumentar, sendo certo que nos parece que vai haver necessidade de continuar a fazer investimento público para dinamizar a economia. Portanto, nós estamos empenhados em dar esse contributo, continuando e reforçando o nosso investimento público da Câmara, quer em obras, em projetos, em iniciativas, sem esquecer as parcerias com as Juntas e associações.



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