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Entrevista a Augusto Marinho, presidente da Câmara de Ponte da Barca

José Carlos Ferreira
5 Mai 2020

O presidente da Câmara de Ponte da Barca afirma-se preocupado com as consequências da crise e defende que as ajudas do Governo não podem ficar pelas grandes empresas.

 

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Augusto Marinho (AM): Eu estou muito preocupado com o impacto económico que esta pandemia tem aqui em Ponte da Barca. Desde logo, porque esta situação particular que vivemos afeta todas as famílias, todas as empresas, é geral. Mais ainda, num caso como o território de Ponte da Barca, que assenta a sua atividade económica no turismo, o grande eixo de desenvolvimento deste território, a preocupação é ainda maior porque a retoma desta atividade poderá ser bastante gradual. Por isso, é necessário estudar, analisar, falar com os empresários, falar com as associações empresariais para, em conjunto, encontrarmos as melhores soluções. O Governo já lançou um conjunto de medidas de apoio à atividade económica que é importantíssimo e, nós já temos aqui algumas situações que estão a beneficiar dessas medidas, nomeadamente daquela que é a mais falada, o lay-off. Nós já temos empresas do turismo a beneficiar dessa medida. Mas, estou preocupado porque o horizonte temporal é muito grande. Tem sido grande o Estado de Emergência, será depois, penso eu, gradual o aliviar de todas as restrições, e a retoma num setor destes será ainda mais lenta. Nós, a nível local, estamos a consolidar um plano junto das empresas de Ponte da Barca, que será também de apoio às famílias e à economia local. Estamos a ultimar este plano por forma a que, aquelas medidas tenham um efetivo impacto positivo nas nossas empresas e, em conjunto, possamos relançar a economia e a nossa vida coletiva em moldes, eventualmente diferentes em termos comportamentais
DM: Que medidas são essas?
AM: São várias. Para as famílias temos aquelas mais imediatas que já estão a ser adotadas, como as rendas sociais, isentando as famílias mais carenciadas durante dois meses. Ao nível do comércio, da hotelaria e restauração há um conjunto de medidas, onde se inclui a isenção de pagamento de publicidade, de ocupação de espaço público. É um conjunto diversificado de medidas. Para as IPSS criámos uma linha financeira excecional. Avançámos com uma medida que, para mim, tem muito significado e está relacionada com a Educação. Nós adquirimos computadores para o nosso Agrupamento, para que sejam facultados aos alunos mais carenciados, para que o princípio da Educação seja universal. Estes computadores vão já com internet gratuita até ao final do ano letivo e vão permitir que todos tenham acesso à Educação. O Agrupamento também tem algumas ferramentas informáticas que está a disponibilizar aos alunos.

DM: Os setores do comércio e da restauração são obrigados a terem as portas fechadas. Preocupa-o a situação destes setores?
AM: Nós ainda estamos numa situação em que a nossa preocupação é apelar à população para que fique em casa, para encerrar estabelecimentos não considerados prioritários. A nossa mensagem passou e tomámos muitas medidas desde muito cedo. Em relação aos setores que refere, é com muita preocupação que vemos a sua situação. O impacto começa a fazer-se sentir e sei que há comércio já muito abalado em termos financeiros devido a todos os constrangimentos. Tem sido um período, justificadamente, longo, mas com um impacto muito grande em algumas atividades.
DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
AM: Algumas são importantíssimas. Mas, eu acho que tem de haver uma aproximação maior ao pequeno comércio, às microempresas, para que todas as medidas de apoio possam ser usufruídas por todos. Nós sabemos que as grandes empresas têm outros mecanismos para tirarem um proveito maior destas medidas. Portanto, tem que haver uma aproximação ao retalho, àquelas empresas que dominam neste país, que são a restauração, o pequeno comércio e o comércio a retalho, porque vivem momentos de grande aflição. Muitas vezes, são pessoas que não têm acesso a muita informação no plano económico e das medidas do Governo, algumas são socorridas pelas associações empresariais, porque nem todas pertencem a estas estruturas. Portanto, tem que haver um trabalho maior de articulação entre o Governo, autarquias e, eventualmente Juntas de Freguesias, para que, em conjunto possamos levar o conhecimento destas medidas a todos, e em especial aos mais pequenos, para que possam sentir este conforto e concorrer a algumas das linhas de apoio.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
AM: É previsível porque eu já tenho conhecimento de muitos jovens que tinham contrato a termo certo e que já foram despedidos. Portanto, é muito natural que a taxa de desemprego suba porque ela já está a ocorrer. Naturalmente que o futuro preocupa-me muito. Este momento é decisivo, tem que existir um efetivo apoio ao tecido empresarial, aos nossos comerciantes, de modo a que eles consigam ultrapassar este momento difícil. Caso contrário, nós poderemos cair numa situação muito negativa, de começarem empresas a falir, de negócios a fechar, de entrarmos numa recessão que não interessa a ninguém. Foi com agrado que vi o primeiro-ministro a assegurar que iria manter o investimento público. Mas, é preciso ver que investimento público é que irá ser efetuado. Não basta apostar só nos grandes investimentos, como o novo aeroporto de Lisboa, onde os grandes beneficiados serão as grandes empresas. Mas é também necessário chegar ao interior, descentralizar estes investimentos públicos, para que eles também aqui cheguem.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor?
AM: Eu acredito que tenhamos todos que fazer um grande esforço neste domínio para que se volte a ganhar estabilidade e para que se relance o turismo. Se é certo que noutros setores as pessoas vão ter um relançar natural, na questão do turismo as pessoas ainda vão estar mais retraídas. Umas porque vão perder rendimentos. Nós vamos todos ficar mais pobres. Portanto, esta realidade temos que a tomar de consciência. E este é um setor em que nós podemos adiar férias, nós podemos diminuir as viagens, e enquanto não passar este receio do vírus, que vai ficar mais algum tempo e depois virá o Inverno, e não surgir uma vacina, nós vamos estar numa situação muito complicada.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
AM: Não tenho a menor dúvida. Aumentando o desemprego, o Estado tem um papel importantíssimo no apoio à proteção social das pessoas. O rendimento das famílias vai diminuir, vai existir perda de emprego. Não é uma situação que se circunscreve a Portugal, nem à Europa, é mundial, portanto, todos vamos ficar mais empobrecidos. Mas nós vamos ultrapassar esta questão de saúde e esta questão financeira, mas temos que estar todos à altura. Tem que estar o Governo, a oposição, as autarquias. Todos temos que saber fazer leituras corretas, ouvir as pessoas, os empresários, os comerciantes e encontrar as melhores soluções para que possamos ultrapassar este momento difícil.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
AM: Um grande projeto que nós estamos a desenvolver é no plano económico. E esse projeto não vai parar porque é essencial ao nosso território. Aliás, há duas áreas em que nós vamos continuar focados. Uma é a linha que traçámos para o dsenvolvimento económico. Mesmo com esta crise, é importante que os poderes públicos estejam à altura. Por isso, os projetos que nós tínhamos definido para este mandato vão continuar. Vou esperar que se ultrapassem algumas situações. Estou a referir-me a uma área empresarial que temos em desenvolvimento e essa irá manter-se, para além dos outros investimentos que tínhamos projetado. Há nalguns setores um ajustar ao nível orçamental, ou seja, vamos diminuir atividades e reafetar verbas para outra áreas, com a ação social.



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