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Especialista Clarisse Queirós salienta a importância de amor e apoio para quem atravessa momentos de dor

Luísa Teresa Ribeiro
4 Mai 2020

A morte passou a fazer parte do nosso quotidiano, com a contabilidade trágica da pandemia. Estamos, por isso, a viver um verdadeiro luto coletivo, considera a conselheira do luto Clarisse Queirós. Neste momento conturbado, a doutoranda em Sociologia pela Universidade do Minho defende que é preciso «criar novos rituais», de forma a manifestarmos o nosso amor e apoio a quem está a passar por momentos de dor. Para ajudar, a especialista acaba de lançar um grupo online de entreajuda intitulado “Além da Vida”.

Clarisse Queirós é conselheira do luto desde 2015

A socióloga e conselheira do luto Clarisse Queirós afirma que a Covid-19 faz com que estejamos «a viver um verdadeiro luto coletivo», num momento em que a contagem do número de mortos passou a fazer parte do dia a dia a nível mundial e as pessoas se veem privadas das suas rotinas.

«Morte e tristeza são duas das palavras que andam, ultimamente, lado a lado, na nossa atualidade. Morte – um assunto tabu na nossa sociedade – torna-se iminente diante de milhares de pessoas que já morreram devido à Covid-19 em todo o mundo. O “vírus invisível” ameaça cada um de nós, diariamente, com inúmeras perdas. Basta pensarmos em algo que seja de extrema importância para nós. Tenho a certeza de que esse laço está negativamente afetado pelo coronavírus», diz.

A especialista refere que é, por isso, importante, compreendermos os estágios do luto, relembrando que estes não são lineares, podendo até ocorrer numa ordem diferente. «Não se trata de um mapa, não é um caminho em linha reta, mas é um percurso, podemos dizer, desconhecido», adverte.

Primeiro, explica, «houve negação quando muitos disseram (ou pensaram) “este vírus não nos afeta”», enquanto «outros manifestaram a raiva quando se mentalizaram que o vírus nos faria ficar em casa, roubando-nos muitas das nossas atividades. Certamente que vários começaram então uma negociação, dizendo “se eu me distanciar por 14 dias tudo melhorará”. Só que a tristeza assolou, pois ninguém sabe quando tudo isto terminará. E, finalmente, a fase da aceitação, em que percebemos finalmente que estamos perante uma pandemia e precisamos de descobrir como proceder diante dela. É na aceitação que está o poder, é onde encontramos a solução».

Criar novos rituais de despedida

Clarisse Queirós admite que este não é um caminho fácil, uma vez que «tudo é absolutamente novo», sendo necessário «criar novos rituais» de despedida para este momento conturbado.

«O distanciamento social obriga-nos a ficar separados dos nossos familiares, os quais temos dificuldade em acompanhar no hospital e na hora final. No caso de virem a falecer, estamos privados de realizar uma despedida dita “tradicional”, pois os velórios  e os funerais estão sujeitos a regras para evitar a propagação do vírus. A isto acrescentamos a ausência de apoio presencial, o que torna a experiência da perda e do processo de luto ainda mais dolorosos, solitários e emocionalmente desorganizados», constata.

A especialista sublinha que «não existe dor maior do que perder alguém que amamos. Quando nos chega a notícia da morte, parece que o chão desaparece por debaixo dos nossos pés», sendo que, nesse momento, «o apoio de familiares e amigos é fundamental». «Um simples abraço ou um apertar de mãos são sinais de que poderemos contar com aquelas pessoas e, sejamos francos, fazem milagres na hora de maior dor», diz ao Diário do Minho.

Mas como cumprir este ritual e apoiar o enlutado em tempos de pandemia e isolamento social, se não podemos estar presentes fisicamente? «É fundamental, antes de mais, percebermos que o carinho e a atenção podem ser dados de outras formas, oferecendo conforto e apoio seguros», responde.

«Espero que possamos emergir desta pandemia como uma comunidade mundial mais consciente, coesa e solidária. Que este luto coletivo nos transforme em melhores versões de nós mesmos»

Em seu entender, podemos telefonar ou enviar um livro ou anotações pessoais, escrever uma carta ou até mesmo fazer um vídeo como se estivéssemos a falar com a pessoa. «Tudo pode fazer muita diferença», destaca, afirmando que é preciso «ser criativo e prático, oferecendo contacto frequente e consistente». «É verdade que nada substituirá a proximidade física neste momento de dor na vida de uma família. Mas podemos amenizar e transmitir o nosso amor e apoio», declara.

A conselheira acreditada pela Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto refere que «podemos agendar uma homenagem à pessoa falecida para daqui a alguns meses ou até criar um evento virtual para dar conforto aos familiares». «Simbolicamente, podemos ainda criar um horário em que as pessoas se poderão juntar, cada um em sua casa, juntando um pensamento, uma oração e sobretudo um sentimento, acendendo uma vela, partilhando-a em fotografia ou vídeo», sugere.

Usar as tecnologias para nos aproximarmos pode ser uma boa ideia e um conforto, acrescenta a especialista, que aponta a possibilidade de criação de grupos de entreajuda online. Neste âmbito, a conselheira do luto acaba criar no Facebook o grupo “Além da Vida“, «um espaço de acolhimento para falar de quem partiu, lembrar histórias e textos, gravar vídeos de músicas, à semelhança de um livro de memó- rias, realizando homenagens “Além da Vida”, onde podemos e devemos, também, agradecer pela nossa vida».

Processo de luto é o caminho de reconstrução do indivíduo

Clarisse Queirós refere que «o processo de luto é um caminho solitário, mas é fundamental existir alguém a quem se possa recorrer e contar segredos, vivências, partilhar alegrias e tristezas, coisas e/ou situações que não se conseguem revelar à família ou até a amigos, por mais próximos que estes sejam».

Esse é, precisamente, o papel do conselheiro do luto, um especialista que «detém competências e ferramentas que lhe permitem prestar ajuda em questões específicas de perda», dando «apoio empático ao processo de luto a pessoas, famílias e comunidades em luto».

Conselheira do luto acreditada pela Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto, Clarisse Queirós explica que é «feliz» a trabalhar com pessoas «no (re)encontro com o seu caminho».

«O principal objetivo é trabalhar a felicidade. Eu sei que parece controverso. A felicidade não é um destino, é um caminho, certo? O que é o processo de luto senão um caminho de reconstrução do indivíduo, onde ele necessita de reconstruir-se para voltar a ser feliz? Na verdade, a entrada desse caminho fica num lugar a que qualquer ser humano tem acesso: dentro de si mesmo. É no nosso interior que a felicidade nasce e começa a existir», afirma.

Quando está nas sessões, o consultório «passa a ser a casa da pessoa em luto, o lugar onde pode desabafar e ser ela própria. Trata-se de um espaço onde a pessoa se sente segura, onde se pode expressar ou simplesmente encontrar um ombro para chorar ou explodir, um espaço onde se vai libertar do peso que carrega no peito».

Sobre a questão de quando pedir apoio no processo de luto, a especialista diz que «é importante “cair” na realidade, deixar passar a primeira fase do choque em relação à perda sofrida». «Ter assuntos mal resolvidos só nos faz mal. Cultivar sentimentos de revolta, raiva, incapacidade para perdoar, vai-nos corroendo e destruindo pouco a pouco», adverte.

Por isso, explicita, o apoio ao luto «pede para que o indivíduo faça as pazes consigo mesmo e com as pessoas que precisa perdoar». «Eu sei que é difícil aceitar que temos/tivemos uma perda, seja ela qual for: causa-nos um enorme sofrimento. É sobretudo complicado aceitar que há coisas que não podemos mudar, pois não estão sob o nosso controlo, mas a vida não nos segue, somos nós que a temos de acompanhar», afirma.

«A dor não vai desaparecer, pelo menos não logo no início, mas em vez de fugir, podemos aprender a saber lidar com ela. Existe sempre alguma ilação a tirar e a oportunidade para crescer. Para aceitar é preciso estar disposto a enfrentar o que causa sofrimento, tentar compreender, e perceber o que este acontecimento trouxe», declara.

É fundamental viver o luto para seguir em frente

Clarisse Queirós defende que «é importante perceber que é fundamental que cada um se permita viver o luto para seguir em frente.

«Hoje em dia, muito se fala e escreve sobre formas de cuidar fisicamente de nós mesmos, mas pouco existe sobre a saúde emocional, social e/ou até mesmo espiritual», começa por dizer a conselheira do luto.

Em seu entender, «expressar é seguramente a palavra-chave». «Nomear o sentimento é fundamental, pois quando o sentimento é nomeado, ele é sentido e move-se dentro de nós mesmos. As emoções necessitam de movimento», afirma.

«Tiremos cinco minutos que sejam, para sentir a tristeza, a raiva, a melancolia, a saudade, independentemente do que os outros sentem ou pensam. Lutar contra o sentimento não ajuda, pois o nosso corpo produz esta sensação, a nível físico. Além de que permitir que os sentimentos se expressem, faz com que eles aconteçam de forma ordenada, sem nos tornarmos vítimas de nós mesmos», explica.

Perfil

Clarisse Queirós nasceu em França e viveu parte da sua infância em terras gaulesas.

Autora do livro “Chutar a Vida” (2010), é licenciada em Sociologia (2008), mestre em Sociologia – Desenvolvimento e Políticas Sociais (2014) e doutoranda em Sociologia pela Universidade do Minho (2018). Desde 2015 que é conselheira do luto acreditada pela Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto.

É editora e coordenadora da Revista Portuguesa sobre o Luto, desde 2017. Esta é uma revista online que pretende convidar a sociedade a repensar aspetos pertinentes à morte, perdas e luto, tecendo reflexões, partilhando experiências, opiniões, sentimentos e emoções.




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